Insetos Comestíveis: O Futuro Sustentável da Alimentação Saudável? 85

Por Diogo Cardoso (Centro de Estudos do Ambiente e do Mar – CESAM – e Departamento de Biologia, Universidade de Aveiro, Aveiro) e Paula Alvito (Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, Lisboa e CESAM, Universidade de Aveiro, Aveiro).

 

Num mundo com a população em crescimento e recursos naturais cada vez mais limitados, garantir uma alimentação saudável, segura e sustentável tornou-se um dos grandes desafios do século XXI. Os sistemas alimentares enfrentam uma pressão crescente para produzir mais alimentos com menor impacto ambiental, promovendo simultaneamente a saúde humana e a proteção dos ecossistemas.

Neste contexto, os insetos comestíveis têm vindo a ganhar destaque como uma alternativa inovadora. Apesar de ainda pouco comuns na Europa, fazem parte da alimentação tradicional de milhões de pessoas, especialmente na Ásia, África e América Latina. O interesse crescente reflete a necessidade de diversificar as fontes de proteína e de encontrar soluções mais eficientes e sustentáveis.

Do ponto de vista nutricional, os insetos são ricos em proteína de elevada qualidade, bem como em vitaminas, minerais e compostos bioativos com potencial interesse para a saúde. Podem contribuir para uma alimentação equilibrada e diversificada, sendo particularmente relevantes num contexto global marcado por subnutrição e excesso alimentar.

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Destacam-se também pelas suas vantagens ambientais. A produção de insetos requer menos água, espaço e recursos naturais do que a pecuária tradicional, apresentando menor pegada ecológica e menores emissões de gases com efeito de estufa. Esta eficiência torna-os uma opção válida na transição para sistemas alimentares mais sustentáveis e resilientes.

Uma das principais mais-valias reside na sua integração em modelos de economia circular. Muitas espécies podem ser produzidas a partir de subprodutos orgânicos, contribuindo para a valorização de resíduos e redução do desperdício alimentar, ao mesmo tempo que promovem o fecho dos ciclos de nutrientes.

No entanto, a utilização de insetos na alimentação humana levanta desafios relevantes. Os insetos podem acumular contaminantes presentes na sua alimentação, como metais, micotoxinas e pesticidas, dependendo do substrato e das condições de produção. Para além disso, existem riscos microbiológicos e potenciais reações alérgicas, especialmente em indivíduos sensíveis a crustáceos ou ácaros, o que torna essencial a implementação de práticas seguras e uma regulamentação adequada.

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Outro desafio prende-se com a aceitação dos consumidores. Em muitos países ocidentais, o consumo de insetos não faz parte da tradição alimentar, o que pode gerar resistência inicial. Contudo, a sua incorporação em produtos alimentares processados, como farinhas, barras proteicas ou snacks, tem facilitado a sua aceitação.

O projeto ENTOSAFE – Insetos comestíveis: uma solução sustentável para a produção de alimentos e os riscos químicos associados, desenvolvido pelo CESAM-Universidade de Aveiro em colaboração com o INSA, no âmbito da segurança de novas fontes de proteína, revelou a capacidade de bioacumulação de alguns metais (arsénio, cádmio e chumbo) em diferentes espécies de insetos destinados ao consumo humano. No entanto, após a aplicação de processos adequados de depuração, os níveis destes contaminantes diminuíram para valores inferiores aos limites legalmente estabelecidos, não tendo sido igualmente detetada a bioacumulação de micotoxinas.

Estes resultados são promissores para o desenvolvimento do setor, uma vez que evidenciam que, através da colaboração com a indústria produtora de insetos, é possível definir períodos de depuração eficazes, reforçando a segurança destes alimentos. Adicionalmente, permitem aumentar a variedade de substratos utilizados na alimentação dos insetos, promovendo uma maior circularidade e sustentabilidade em todo o processo produtivo.

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Assim, os insetos comestíveis representam uma oportunidade promissora para o futuro da alimentação, conjugando valor nutricional, eficiência ambiental e inovação. A sua integração deverá, contudo, ser responsável, informada e sustentada em evidência científica, garantindo o equilíbrio entre os benefícios e os riscos e promovendo a confiança dos consumidores.

 

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