O papel do fígado na saúde digestiva

Por Rui Gaspar, médico gastrenterologista na ULS São João e membro da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF).

 

O Dia Mundial da Saúde Digestiva, que se assinala a 29 de maio, é uma excelente oportunidade para refletirmos sobre a importância do nosso sistema digestivo e de todos os órgãos que o compõem. Entre estes, o fígado ocupa um lugar de destaque. Apesar de muitas vezes passar despercebido, este órgão é fundamental para o bom funcionamento do nosso corpo e para a digestão dos alimentos que consumimos.

Localizado na parte superior direita do abdómen, o fígado é o maior órgão interno do corpo humano e cumpre centenas de funções essenciais. Uma das mais conhecidas é a produção de bíle, um líquido que ajuda na digestão das gorduras. A bíle é armazenada na vesícula biliar e libertada no intestino delgado quando comemos, facilitando a quebra das gorduras e a sua absorção pelo organismo.

Já se pode inscrever na VS – Nutrition Summit & Exhibition

Mas a função do fígado vai muito além da digestão. Depois de os nutrientes serem absorvidos pelo intestino, passam pelo fígado, que atua como um verdadeiro “laboratório” do corpo. É aqui que muitos nutrientes são processados, armazenados ou transformados de acordo com as necessidades do organismo. Por exemplo, o fígado consegue armazenar glicose sob a forma de glicogénio e libertá-la na corrente sanguínea quando o corpo precisa de energia.

Outro papel essencial do fígado é a desintoxicação. Este órgão filtra o sangue, removendo substâncias potencialmente prejudiciais, como álcool, medicamentos ou toxinas produzidas pelo próprio corpo. Estas substâncias são transformadas e eliminadas, principalmente através da urina ou da bile, garantindo que não se acumulem e prejudiquem o organismo.

Além disso, o fígado participa na produção de proteínas importantes para a coagulação do sangue e ajuda a reforçar o sistema imunitário. Ou seja, a sua função ultrapassa largamente o campo da digestão, sendo determinante para a nossa saúde em geral.

No entanto, o fígado também pode sofrer com hábitos pouco saudáveis. O consumo excessivo de álcool, uma alimentação rica em gorduras e açúcares, a falta de exercício físico ou certas infeções podem comprometer o seu funcionamento. Doenças como a esteatose hepática, ou fígado gordo, estão a tornar-se cada vez mais comuns e, muitas vezes, não apresentam sintomas até atingirem fases avançadas.

Microbiota intestinal na equação para o tratamento farmacológico da obesidade

Cuidar do fígado passa por adotar hábitos simples, mas eficazes, como uma alimentação equilibrada, rica em frutas, legumes, cereais integrais e gorduras saudáveis; evitar o álcool; manter uma vida ativa e hidratar-se adequadamente. As consultas médicas regulares e a realização de exames quando necessário também ajudam a detetar problemas precocemente, antes de se tornarem graves.

Neste Dia Mundial da Saúde Digestiva, vale a pena parar para pensar na importância do fígado e perceber que, ao cuidarmos deste órgão, estamos a investir na nossa qualidade de vida.