
Por Rodrigo Abreu, Nutricionista na Rodrigo Abreu & Associados e Fundador do Atelier de Nutrição®
Há pouco tempo, a minha filha mais velha teve de escolher a área de estudos para o secundário e, naturalmente, tinha muitas questões sobre o seu futuro profissional. Entre as dúvidas sobre esta e aquela profissão, ela, que não tem no horizonte vir a ser nutricionista, a dada altura perguntou-me: “Pai, quanto é que tens de pagar para ser nutricionista?”. Confesso que fiquei surpreendido, pois estava à espera do tradicional: “Quanto é que um nutricionista ganha?”. De facto, embora o debate seja frequentemente em torno da remuneração dos nutricionistas, é importante refletir sobre os custos relacionados com o exercício da profissão.
Qualquer atividade profissional, para ser sustentável, tem de considerar a relação entre custos e proveitos. Não são raros os casos de empresas com valores de faturação impressionantes, mas que ainda assim não subsistem, precisamente por terem uma estrutura de custos incomportável. À escala individual, esta é uma preocupação premente para a maioria dos nutricionistas, mesmo aqueles que nunca se dedicaram a esmiuçar o custo de exercer a sua profissão.
Desde logo, é preciso considerar os custos para se tornar nutricionista. Embora esse seja um valor muitas vezes suportado pelos pais, não são poucos os nutricionistas que pagaram do próprio bolso a sua formação, total ou parcialmente. Propinas, material educativo e deslocações ou alojamento, começam logo a pesar na carteira. Há, seguramente, muitos licenciados que ainda antes de serem nutricionistas já despenderam mais de vinte mil euros, pelo que é necessário começar por perguntar: quando um nutricionista começa a trabalhar, de quantos salários necessita para cobrir o valor gasto na sua formação?
Mas, talvez, mais importante ainda seja o custo de, uma vez nutricionista, permanecer competente. Ao contrário de muitas profissões, os nutricionistas suportam frequentemente a sua formação contínua (cursos, presença em congressos, compra de livros ou artigos científicos), ferramentas digitais e equipamentos necessários à sua prática, quotas profissionais e seguros, e, tantas vezes, a construção da sua própria marca. São custos diretos significativos, que facilmente podem ultrapassar os cinco mil euros anuais. E há ainda uma série de custos invisíveis, sobretudo em tempo e disponibilidade, que nem sempre são contabilizados nas horas de trabalho cobradas: o tempo de preparação das consultas, contacto entre consultas, gestão de redes sociais e criação de conteúdos, resposta a e-mails ou deslocações entre locais de trabalho. Tudo somado, não é exagero afirmar que para ser nutricionista, sobretudo a trabalhar por conta própria, é preciso pagar vários milhares de euros anuais. A que se somam ainda impostos e contribuições para a segurança social, que variam em função dos rendimentos.
Por fim, há também um preço oculto, pago pelos nutricionistas e pela sociedade em geral: desenvolver-se como nutricionista demora tempo, exige uma disponibilidade enorme para aprender continuamente e requer frequentemente aceitar trabalhar em condições que nem sempre são as melhores. Numa profissão dominada pelas mulheres, isso significa adiar planos para constituir família e ter filhos, ou ter de sair do país em busca de melhores oportunidades. Para além do preço pessoal na vida de cada um, o País também perde em capital humano que não se concretiza, ou que se esvai para o estrangeiro… Quanto custa já ao País a insuficiência de nutricionistas na prevenção da doença ou na educação alimentar? E quanto mais custará, se não houver nutricionistas a querer trabalhar cá?
Nutrição com sotaque do mundo: “Fora do nosso país, cada sorriso conta”
Numa altura em que crescem as preocupações com a empregabilidade e a remuneração dos nutricionistas, é normal que a discussão se centre nos montantes auferidos. Mas talvez não seja má ideia olhar para o saldo contabilístico e começar por perguntar o que podemos fazer para aliviar o custo de ser nutricionista.
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