Na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP), cruzam-se percursos vindos de muitas geografias e outras formas de olhar para a alimentação, a saúde e o cuidado. Gabriel Francetich Garcia e Anzhela Sorokina são dois exemplos: vieram de fora e encontraram em Portugal um lugar de formação e crescimento. Enquanto ele dá os primeiros passos como estudante, ela afirma-se como profissional e investigadora.
Mais de duas dezenas de nacionalidades convivem hoje na FCNAUP. Entre salas de aula, projetos de investigação e caminhos de reinvenção, estudantes e profissionais estrangeiros trazem novas referências científicas, culturais e humanas à Nutrição em Portugal. Essa diversidade não se esgota na universidade. Na mais recente Cerimónia de Compromisso Profissional, promovida pela Ordem dos Nutricionistas (ON), participaram vários novos profissionais de origem estrangeira, em especial brasileira.
Vir por amor, ficar pela descoberta
Prestes a completar 22 anos, Gabriel Francetich Garcia frequenta o terceiro ano da licenciatura em Ciências da Nutrição. Nasceu no Brasil, viveu 19 anos em São Paulo e chegou ao Porto em agosto de 2023, para ingressar na “Casa da Nutrição”.
A razão da mudança não cabe num currículo. Com desarmante frontalidade, avança que a decisão começou por ter nome próprio: “Escolhi fazer a minha formação aqui por causa da minha maravilhosa namorada, Isabela Lisboa“. “Foi ela que me apresentou a possibilidade de estudar no estrangeiro”, partilha. A partida inesperada da namorada para Portugal, com a família, levou-o a imaginar outro caminho. “Queria – e quero – construir uma vida com ela e não queria perdê-la”, assume.
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Foi nessa altura que começou a olhar para o nosso país como uma possibilidade e a Universidade do Porto acabou por lhe abrir a porta. “Vim sem dúvidas!”, afiança. Hoje, diz-se “profundamente feliz” com a vida que construiu na Invicta e com a faculdade que frequenta. “Na FCNAUP foi onde aprendi, na prática, o que é a Nutrição em todas as suas dimensões, e continuo a aprender muito“, declara.
Uma ciência que também se aprende pela cultura
Ao olhar para a forma como a Nutrição é ensinada em Portugal, Gabriel Francetich Garcia realça o rigor técnico e científico. “Aqui, o ensino assenta numa abordagem tecnicamente rigorosa, com forte base científica e académica“, observa. Em comparação com o que vai ouvindo de colegas no Brasil, reconhece uma diferença: por lá, o ensino é “mais didático e mais orientado para a prática”. Na FCNAUP, acrescenta, essa exigência alia-se ao acompanhamento próximo: “Os meus professores merecem destaque por demonstrarem, de forma genuína, interesse no nosso desenvolvimento”.
Um aspeto que o marcou foi perceber como, em Portugal, “a Nutrição está fortemente ligada à cultura alimentar e ao estilo de vida mediterrânico“. Fala da “valorização dos alimentos frescos”, da “sazonalidade”, da “refeição como momento social” e da “prevenção em saúde”. Em vez de uma conversa centrada em nutrientes ou calorias, encontrou um discurso mais ligado a “padrões alimentares, sustentabilidade e qualidade de vida“.
Houve outra descoberta que o surpreendeu: perceber que o Brasil é, em determinadas áreas, uma referência. “Foi muito gratificante perceber que o meu país é reconhecido pelo trabalho e pelo desenvolvimento científico em domínios como a Nutrição Comunitária e Saúde Pública, a Alimentação Coletiva e Restauração e a nutrição no desporto”, expõe, com orgulho.
As barreiras invisíveis da adaptação
No caso de Gabriel Francetich Garcia, uma das grandes barreiras foi a integração social. Para quem é novo num país, numa cidade e numa universidade, isso pesa. Com o tempo, porém, esse obstáculo foi ficando para trás: hoje já conta com “amigos verdadeiros, dentro e fora da faculdade” e é também por aí que sente ter “criado raízes”. A mudança trouxe ainda outros desafios práticos: aprender a morar sozinho, lidar com burocracias, ajustar-se ao custo de vida e adaptar-se à língua. “No início, até com o português tive dificuldades“, revela, especialmente perante “sotaques mais acentuados e palavras diferentes”.
Já enraizado na cidade e no curso, admite que o futuro profissional poderá passar por Portugal. A decisão dependerá das condições que encontrar. Para já, as reservas prendem-se com o mercado de trabalho: “As minhas maiores preocupações são em relação às remunerações e oportunidades de crescimento“.
Recomeçar longe de casa
Se Gabriel Francetich Garcia chegou a Portugal já com a Nutrição em vista, o percurso de Anzhela Sorokina foi mais sinuoso. Tem 54 anos, é natural da Ucrânia e vive em Portugal desde 2001. No país de origem, era enfermeira e trabalhou durante dez anos em pediatria. A emigração aconteceu num contexto de forte instabilidade económica e social, depois da independência da Ucrânia, em 1991, e do colapso da União Soviética. “Os profissionais das instituições governamentais, como escolas e hospitais, chegaram a não receber ordenados durante meses, perderam o emprego, e muitas pessoas emigraram para tentar sobreviver. Também optei por esse caminho”, recorda.
O impacto inicial foi profundamente humano. “A primeira coisa que apaixona os imigrantes em Portugal são os portugueses. Na sua maioria, são pessoas que se preocupam com os outros, tolerantes às diferenças. Não quer dizer que gostam de tudo, não, até criticam muitas vezes, mas são fáceis de perdoar e compreender”, testemunha. Destaca a disponibilidade para ajudar e a empatia espontânea. Na sua leitura, “este tipo de acolhimento ajuda muito, principalmente do ponto de vista psicológico, que é a dimensão invisível da vida dos imigrantes”.
Pensou inicialmente em obter equivalência do curso de Enfermagem, mas não conseguiu. “Até hoje não sei ao certo porquê”, desabafa. Esse bloqueio levou-a a repensar o percurso profissional: “Acabei por escolher a área da Nutrição, numa fase inicial, confesso, sem uma noção completamente clara do que isso implicava na prática, até porque o enquadramento da profissão é bastante diferente nos dois países“. Completou a licenciatura em Ciências da Nutrição e, mais tarde, o mestrado em Ciências do Consumo e Nutrição.
Ao olhar para trás, faz questão de sublinhar o papel da rede de apoio que foi encontrando pelo caminho. “Tudo o que ultrapassei e consegui até agora foi com a ajuda e o apoio de colegas, amigos, familiares e até pessoas desconhecidas”, afirma. E sintetiza essa experiência numa frase reveladora do que significa recomeçar longe de casa: “Sobretudo quando começamos o nosso percurso fora do nosso país, cada sorriso conta“.
Outro olhar sobre a Nutrição
O caso de Anzhela Sorokina tem uma particularidade: apesar de imigrante, fez toda a formação em Nutrição já em Portugal e nunca exerceu a profissão fora do país. Ainda assim, traz um olhar comparativo importante. Na Ucrânia, indica, “a área da Nutrição está historicamente associada à medicina”, através da figura do médico dietista, integrado no sistema de saúde. “Trata-se de uma função mais estruturada, muitas vezes ligada ao contexto hospitalar, onde o profissional não precisa de ‘procurar’ ativamente oportunidades, o percurso é mais institucional e integrado”, explica. Recentemente, surgiu também a figura do nutricionista, mais próxima do modelo português, embora “ainda num enquadramento em evolução”.
Ao falar do presente da Ucrânia, lembra que a guerra prolongada deixou marcas profundas nas prioridades do sistema de saúde, mais focado na resolução de problemas urgentes. Neste contexto, “infelizmente, a prevenção fica para trás, mas acredito que esse dia chegará, e que os profissionais de saúde, incluindo nutricionistas e dietistas, terão muito trabalho pela frente”.
Investigar para transformar
Anzhela Sorokina tem participado em vários projetos de investigação ligados à alimentação e à saúde da pessoa idosa, bem como em áreas de saúde pública. O trabalho passa pela avaliação do estado nutricional, pela recolha e análise de dados e pelo desenvolvimento de ferramentas e estratégias de intervenção, “sobretudo em áreas que me interessam mais, como a nutrição geriátrica, a comunicação e a organização de serviços de alimentação“. Encontra motivação em “sentir que o conhecimento produzido pode ser aplicado, que não fica ‘na gaveta’ e que contribui de forma real para melhorar a qualidade de vida das pessoas”.
Ao olhar para a realidade portuguesa, deixa um diagnóstico simultaneamente reconhecedor e atento. “Existem muitos e bons profissionais que não conseguem aplicar os seus conhecimentos como gostariam. Apesar da boa formação, muitos nutricionistas enfrentam dificuldades em encontrar emprego estável, com poucos lugares no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e bastante precariedade no setor privado”, analisa. Ao mesmo tempo, identifica uma “falta clara” destes profissionais em “áreas-chave como a prevenção da obesidade e das doenças crónicas”, bem como na “valorização da Dieta Mediterrânica”.
Entre Gabriel Francetich Garcia e Anzhela Sorokina há diferenças de idade, de percurso e de lugar no universo da Nutrição. Mas há também uma linha comum: ambos mostram que a internacionalização da profissão em Portugal não se resume ao número de nacionalidades presentes numa faculdade ou numa cerimónia. Ela manifesta-se em experiências que alargam horizontes e em olhares que obrigam a repensar o que parecia adquirido.
Este artigo foi originalmente publicado na edição n.º 100 (maio, 2026) da Revista VIVER SAUDÁVEL.




