A inteligência artificial (IA) consegue processar milhões de registos, identificar padrões invisíveis ao olhar humano e apoiar decisões cada vez mais personalizadas. Mas tecnologia mais inteligente significa necessariamente melhores cuidados? Na Nutrição, a resposta depende da capacidade de conciliar três forças que nem sempre apontam na mesma direção: o potencial da IA, a proteção da privacidade e a obrigação de agir no melhor interesse da pessoa.
A tensão esteve no centro da sessão ‘Na era da Nutrição 5.0, um triângulo ético entre: privacidade – IA – beneficência’, integrada no XXVIII Congresso Anual da Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica (APNEP), realizado nos dias 18 e 19 de maio, na Fundação António Cupertino de Miranda, no Porto. Moderada por Lino Mendes e Marisa Cebola, discutiu não apenas o que a tecnologia consegue fazer, mas também o que deve ser aceite na prática clínica.
Entre três amores
Maria de Lourdes Fernandes, advogada com atividade na área da proteção de dados, recorreu à metáfora de uma história de amor para explicar o triângulo ético. A Nutrição, rodeada de “tecnologia portentosa”, descobriu “três amores”: a IA, “o sedutor que tudo promete”; o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD), “o protetor ciumento”; e a beneficência, “o amor verdadeiro”.
A IA chega com uma promessa difícil de recusar: “Dá-me os teus dados e eu cuido de ti melhor do que qualquer humano consegue”. Vê padrões, prevê recaídas e cruza informação genética, microbioma e dados recolhidos por wearables. O problema começa quando a precisão exige volumes crescentes de informação cada vez mais íntima. “Um perfil genómico não é um registo episódico, é uma identidade permanente”, alertou. Por isso, “a IA precisa de dados para beneficiar o cliente, mas, quanto mais recolhe, mais ameaça a sua privacidade”.
O RGPD procura limitar esse risco através do direito ao esquecimento, da minimização dos dados e da supervisão humana. A beneficência, por sua vez, exige que os dados sejam usados para melhorar efetivamente o cuidado. As três forças têm legitimidade, mas “puxam em direções diferentes”. Apesar do enquadramento existente, faltam diretrizes específicas das ordens profissionais para a utilização ética da IA na prática clínica nutricional em Portugal, “uma lacuna que urge colmatar”.
Para Maria de Lourdes Fernandes, o equilíbrio passa por quatro compromissos: consentimento dinâmico e granular, para que o doente possa autorizar separadamente os diferentes usos dos dados; privacidade incorporada desde a conceção das ferramentas; supervisão clínica humana; e transparência algorítmica. “O algoritmo apoia, mas nunca decide”, resumiu, acrescentando que “o nutricionista que usa IA tem o dever de informar o cliente e de compreender os limites da ferramenta”.
A privacidade “não é um problema novo”, salientou. O que é novo é “o que fazemos com os dados biológicos” e o risco de perder o controlo sobre a sua utilização futura.
Capacidade não é cuidado
Paulo Jorge Monteiro, professor da Escola Superior de Saúde de Lisboa e presidente do Comité de Ética e Compliance da Auchan Retail Portugal, colocou a discussão no futuro: em 2036, em quem confiar – no ser humano ou na máquina?
A vantagem tecnológica parece evidente. Um robô alimentado por um poderoso algoritmo de IA consegue processar informação de milhões de pessoas, cruzar registos clínicos, exames e dados genéticos e identificar relações impossíveis de reter individualmente, o que pode aumentar a capacidade de previsão, monitorização e personalização. “A IA médica atua em escala populacional, superando vastamente a capacidade de armazenamento de dados de qualquer médico humano”, anotou.
Mas acumular informação não equivale a compreender uma pessoa. A alimentação “envolve emoções, rotinas complexas e contexto social”, dimensões que um algoritmo “não consegue interpretar com profundidade”. O sucesso de uma intervenção nutricional não depende apenas de calorias ou nutrientes, mas também da “capacidade de adaptação contínua que um humano treinado oferece”.
A chamada “empatia das máquinas”, também designada “computação afetiva” ou “IA emocional”, procura “capacitar os sistemas para reconhecer, interpretar, processar e simular emoções humanas”. Já existem ferramentas capazes de analisar expressões, alterações de voz e outros sinais para produzir respostas aparentemente empáticas. Contudo, “embora a empatia melhore as interações entre humanos e robôs, também levanta questões éticas sobre a natureza dessas relações e o potencial de manipulação emocional”. A questão permanece: a máquina compreende o sofrimento ou limita-se a responder de forma convincente?
Num exercício prospetivo, foi apresentado um futuro de colaboração mais do que de competição. Situações preventivas ou padronizadas poderão ser acompanhadas sobretudo por sistemas de IA, com supervisão humana periódica. Nos casos clínicos mais complexos, o nutricionista deverá permanecer no centro. A IA poderá ser o copiloto mais capaz ao dispor do profissional, mas o volante continuará nas mãos deste.
Neste cenário, também a profissão se terá transformado. Se, por um lado, “quem resistiu à mudança, observando-a à distância, perdeu relevância”; por outro, “quem aprendeu a ler os outputs dos modelos, a questionar os seus enviesamentos e a intervir onde os algoritmos atuam sobre o cuidado, tornou-se indispensável”.
Como garantir a beneficência?
Tânia Gonçalves Albuquerque, nutricionista e professora da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, centrou a intervenção numa condição fundamental: a inovação só é eticamente aceitável quando cria benefício real para a pessoa. “Beneficência não é intenção”, frisou. É necessário demonstrar que a tecnologia funciona, é segura, beneficia diferentes grupos e respeita a autonomia, a privacidade e a dignidade. Ainda que possa apoiar decisões, prever riscos e personalizar recomendações, pode também reproduzir desigualdades, apoiar-se em dados pouco representativos e criar uma falsa sensação de precisão.
A validação deve acompanhar todo o processo, do desenvolvimento à utilização, com dados de qualidade, populações diversas e monitorização contínua. “Sem validação rigorosa, não existe evidência robusta; e, sem evidência robusta, não podemos assumir beneficência”, advertiu.
“O humano continua no centro”, realçou, uma vez que “a IA não compreende sofrimento e emoções, contexto e complexidade, vulnerabilidade, valores e preferências pessoais”. Cabe ao profissional “interpretar a informação, contextualizar a situação, comunicar com empatia e decidir de forma responsável”. A tecnologia deve “apoiar a decisão clínica, aumentar a qualidade do cuidado, libertar tempo e não substituir o julgamento”. “Garantir beneficência é preservar a centralidade da pessoa e da relação humana no cuidado”, rematou.
O algoritmo apoia, mas não substitui
No fecho, Lino Mendes, presidente do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Nutricionistas (ON) e membro da direção da APNEP, sintetizou as recomendações para uma boa prática: usar a IA como suporte, nunca como substituto do julgamento profissional; validar criticamente as respostas dos algoritmos; proteger os dados; respeitar a autonomia; e reforçar a literacia digital das equipas.
“O verdadeiro desafio da Nutrição 5.0 não é apenas inovar, mas garantir que a inovação melhora efetivamente o cuidado humano”, sublinhou. Entre aquilo que a IA consegue fazer e aquilo que deve ser autorizada a fazer permanece uma fronteira ética. É nessa fronteira que a inovação tecnológica terá de encontrar a responsabilidade, a confiança e a relação humana.




