Malnutrição: um problema impossível de ignorar

A malnutrição está nas enfermarias, nos tabuleiros que regressam quase intactos, nos doentes que não são pesados e nas perdas de massa muscular que passam despercebidas. A evidência sobre o impacto da Nutrição nos resultados clínicos existe, mas ainda não se traduz plenamente em prioridade clínica, investimento ou decisão política.

A necessidade de tornar o tema mais visível esteve no centro da mesa-redonda ‘E se a Nutrição fosse considerada um medicamento?’, integrada no XXVIII Congresso Anual da Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica (APNEP), realizado nos dias 18 e 19 de maio, na Fundação António Cupertino de Miranda, no Porto. Moderada por Graça Raimundo, coordenadora do Serviço de Nutrição da Unidade Local de Saúde (ULS) do Alentejo Central, a sessão juntou Ana Brito Costa, Diana Mendes, Luísa Rebocho e Patrícia Almeida Nunes para discutir a diferença de valorização entre as terapêuticas nutricional e farmacológica e a necessidade de demonstrar o impacto clínico e económico da Nutrição.

Não apenas cumprir metas

Para Ana Brito Costa, nutricionista da ULS de São José, a Nutrição deve ser encarada, sem ambiguidades, como uma terapêutica. “Isto não é uma questão, é uma afirmação, porque, na realidade, a Nutrição é considerada um medicamento. A questão é que não é considerada por todos”, sustentou.

Cuidados paliativos pediátricos: nutrir até quando?

A intervenção nutricional não pode limitar-se ao cumprimento de metas calóricas ou proteicas. Esses valores são instrumentos, não o objetivo final. “Mais do que o cálculo nutricional, temos de ter objetivos clínicos”, defendeu. “Não nos propusemos a dar 30 calorias por quilo. Propusemo-nos, antes, a melhorar o estado nutricional, recuperar ou preservar a massa muscular, preservar a função renal ou evitar a recorrência de episódios de encefalopatia hepática”, exemplificou.

Tal como um medicamento, a intervenção nutricional tem indicações, contraindicações, dose e momento de administração. “Existe evidência robusta das implicações e dos resultados clínicos obtidos com estas intervenções”, vincou. O desafio passa por comunicar esta realidade a profissionais e decisores e integrar a Nutrição de forma mais estruturada na formação pré e pós-graduada.

“Temos de tornar o tema incómodo”

Diana Mendes colocou a comunicação no centro da discussão. Para a também nutricionista da ULS de São José, o entrave não é a ausência de conhecimento. “Há muita evidência”, sublinhou. Ainda assim, a malnutrição permanece normalizada, como se fosse uma consequência inevitável da doença ou do envelhecimento. Rejeitou a ideia de que se trate de um problema escondido no armário dos hospitais. “Está em muitos quartos do nosso país, nas consultas, nas enfermarias, nas mesas de cabeceira, nos tabuleiros”, tantas vezes recolhidos com parte da refeição por consumir.

Ana Brito Costa: “Mais do que o cálculo nutricional, temos de ter objetivos clínicos”

A pergunta que lançou à audiência foi tão simples quanto reveladora: “Já pesou o seu doente hoje?”. A ausência de gestos básicos, como pesar, avaliar e monitorizar, mostra como esta temática continua sem receber atenção proporcional à sua dimensão. “Ninguém sabe quanto é que os doentes pesam, ninguém está interessado em saber”, alertou, ciente de que “devemos fazer mais e melhor”.

Mesmo quando existem ferramentas, registos de risco e diagnósticos nutricionais, a informação nem sempre chega a quem decide. Os dados são introduzidos nos sistemas, mas não regressam às equipas sob a forma de indicadores, conhecimento ou melhoria dos cuidados. É neste ponto que identifica uma falha de comunicação. A Nutrição precisa, nas suas palavras, de “um consultor de marketing e comunicação”, não para simplificar o problema, mas para traduzir a evidência numa linguagem capaz de tornar claras as consequências clínicas, humanas e económicas da inação.

“Não estamos a conseguir fazer passar a mensagem. Temos de tornar o tema incómodo”, afirmou. Isso significa confrontar administrações e decisores políticos com perguntas difíceis: Quanto custa prolongar um internamento por malnutrição? Quantas complicações poderiam ser evitadas? Quanto se pouparia com deteção e intervenção precoces?

“A profissão faz-se com todos”: O ‘superpoder’ da especialização

Diana Mendes pediu uma postura mais assertiva. “Temos de ser chatos para os administradores, temos de ser inconvenientes”, provocou. Não basta produzir estudos ou registar atividade. É necessário demonstrar que investir na Nutrição pode representar um custo inicial, mas reduzir complicações, reinternamentos e perda funcional. “Gastamos mais, mas vamos poupar muito mais, e vamos ter ganhos em saúde”, anotou. Esta comunicação deve ser coletiva: nutricionistas, médicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas e assistentes sociais têm de transformar a malnutrição num problema impossível de ignorar.

Transformar impacto em números

A médica Luísa Rebocho, ex-diretora clínica dos cuidados de saúde hospitalares da ULS do Alentejo Central, reconheceu que a Nutrição continua a ocupar um lugar insuficiente na formação médica. A dificuldade resulta, em parte, de “não assumir a forma de uma pílula ou de um comprimido”. Alguns profissionais continuam a entender que cabe exclusivamente ao nutricionista decidir o que administrar, sem verdadeiro envolvimento da restante equipa. Para a internista, esta separação deve ser ultrapassada.

As ULS representam, no seu entender, uma “oportunidade única” para aproximar hospital e cuidados de saúde primários e reforçar a prevenção. Identificar precocemente o risco nutricional pode evitar agravamento, complicações e internamentos. Para convencer quem gere, porém, é necessário quantificar. “O que o administrador entende é o número”, resumiu. Se for possível quantificar quanto custa não intervir e quanto pode ser poupado com avaliação nutricional e equipas adequadas, a resposta será diferente.

Medir para valorizar

Patrícia Almeida Nunes, diretora do Serviço de Nutrição da ULS de Santa Maria, identificou a escassez de nutricionistas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) como uma das principais limitações à intervenção precoce e continuada. O modelo das ULS pode favorecer a articulação entre cuidados hospitalares e cuidados primários, mas exige equipas suficientes e sistemas de monitorização. “Aquilo que falha são os sistemas de monitorização e os indicadores”, admitiu. O número de consultas, por si só, não permite avaliar o trabalho desenvolvido. A atividade inclui consultas com diferentes níveis de complexidade, intervenção no internamento, acompanhamento do serviço de alimentação e outras funções que não aparecem devidamente refletidas nos indicadores.

Luísa Rebocho considera que a Nutrição continua a ocupar um lugar insuficiente na formação médica

Ana Brito Costa acompanhou esta crítica. Perante administradores e gestores que pedem apenas volumes de atividade, “temos a obrigação de demonstrar o que consideramos que eles devem querer saber”. Mais do que contar atos, importa medir a melhoria do estado nutricional, as complicações evitadas, o impacto funcional e a duração do internamento.

A mesa-redonda terminou com um diagnóstico partilhado: a Nutrição precisa de indicadores, formação e investimento, mas também de uma comunicação capaz de transformar dados em decisões. Enquanto a malnutrição continuar a ser vista sem provocar reação, permanecerá subvalorizada. Torná-la incómoda pode ser o primeiro passo para torná-la prioritária.