A terceira edição do MetBalance, evento científico organizado por estudantes de doutoramento do Programa Doutoral em Metabolismo – Clínica e Experimentação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, realiza-se a 5 de novembro e propõe uma reflexão multidisciplinar sobre os efeitos da perda de peso. Sob o tema “The Effects of Weight Loss: Friend or Foe?”, o encontro pretende analisar a complexa relação entre peso, magreza e saúde, explorando não só as dimensões biológicas e clínicas, mas também os impactos psicológicos, sociais e comportamentais associados à perda de peso.
Em entrevista, Alexandra Pereira, estudante do Programa Doutoral da FMUP e membro da Comissão Científica e Organizadora do Congresso MetBalance 2026, apresenta uma iniciativa que “aproxima a ciência da sociedade” e reflete acerca dos desafios que marcam a forma como olhamos para o nosso peso.
VIVER SAUDÁVEL (VS) – A obesidade e a inflamação estiveram no centro das edições anteriores. O que motivou a escolha da perda de peso como tema principal deste ano?
Alexandra Pereira (AP) – Desde pequena que ouço a expressão “Gordura é formosura!”, mas hoje vivemos uma realidade muito diferente, em que as redes sociais e os padrões de beleza parecem valorizar cada vez mais a magreza. O peso corporal tornou-se, de certa forma, um “acessório da moda”. Mas a perda de peso vai muito além da estética e pode ter efeitos muito diferentes consoante o contexto.
Foi essa complexidade que nos levou a escolher este tema e a lançar a pergunta: “Será a perda de peso amiga ou inimiga da nossa saúde?” Não há uma resposta única, e é precisamente isso que torna o tema tão interessante. Além disso, sendo o metabolismo o fio condutor do MetBalance, pareceu-nos a combinação perfeita entre um tema muito atual e a identidade do congresso.
FMUP volta a receber MetBalance para debater relação entre peso, magreza e saúde
VS – Tendo em conta que os ambientes social e mediático também condicionam a saúde, de que forma pretendem equilibrar as perspetivas metabólicas, psicológicas e sociais afetas à perda de peso?
AP – O nosso programa foi pensado precisamente para criar esse equilíbrio. Ao longo do dia, vamos passar de questões mais ligadas ao metabolismo e ao gasto energético para temas como a saúde mental, os fatores sociais e a forma como comunicamos sobre peso e corpo. Por exemplo, teremos uma sessão dedicada aos fatores psicossociais que influenciam a procura pelo “corpo ideal” e uma mesa-redonda sobre desinformação relacionada com a perda de peso. Queremos também que o público participe ativamente, através de momentos de discussão e live polling, porque acreditamos que estas questões não se resolvem apenas com uma perspetiva científica.
No fundo, a ideia é olhar para a perda de peso como um fenómeno muito mais complexo do que apenas uma questão de calorias, metabolismo ou números na balança.
VS – O emagrecimento não é, por si só, uma necessidade para todos. Quais são os principais mitos associados à perda de peso que a comunidade científica continua a tentar desconstruir?
AP – Há ainda a ideia de que perder peso é sempre sinónimo de ganhar saúde, ou de que existe um determinado peso “ideal” que devemos todos procurar atingir. Também se tende a simplificar demasiado a perda de peso, como se dependesse apenas de força de vontade, alimentação e exercício. Na realidade, é um fenómeno muito mais complexo, influenciado por fatores metabólicos, biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.
Esta é precisamente uma das questões que queremos explorar no MetBalance, nomeadamente através da sessão “Challenging Weight Loss Myths”, dinamizada pela Dra. Joana Menezes, num formato muito interativo, onde serão apresentadas várias afirmações sobre perda de peso, obesidade, alimentação e saúde, e o público terá de votar entre “Mito” e “Facto”. A partir das respostas, iremos discutir o que realmente nos diz a evidência científica.
VS – Num mundo globalizado e de informação (verdadeira ou falsa) instantânea, quais os desafios que determinadas correntes de emagrecimento podem ter para a saúde pública?
AP – É um desafio que tem crescido a uma velocidade tremenda. Hoje, a informação sobre perda de peso está à distância de um clique, mas nem sempre é informação correta, e o impacto dessa desinformação pode ter um custo elevado para a saúde pública.
É precisamente por ser um tema tão atual que vamos dedicar a esta questão, a mesa-redonda “The Weight of (Mis)Information”, que reunirá profissionais de diferentes áreas ligadas à saúde. Queremos discutir de que forma a informação (e a desinformação) influencia a forma como a sociedade olha para a perda de peso, a obesidade e a imagem corporal, e sobretudo como podemos comunicar melhor sobre estes temas.
VS – Qual o papel dos profissionais de saúde, em particular dos nutricionistas e médicos, na promoção de uma abordagem mais informada e sustentável à perda de peso?
AP – Os profissionais de saúde têm um papel fundamental, não só na orientação, mas também na forma como comunicamos sobre o peso e a saúde. Nutricionistas e médicos, em particular, têm a responsabilidade de traduzir o conhecimento científico para uma linguagem clara, ajudar cada pessoa a distinguir informação credível de desinformação e, sobretudo, adaptar a abordagem às necessidades e ao contexto de cada indivíduo. Mais do que promover uma determinada imagem corporal ou um número na balança, o objetivo deve ser ajudar as pessoas a tomar decisões informadas e sustentáveis, com a saúde como ponto de partida.
VS – Tratando-se de um evento multidisciplinar, de que forma os profissionais, investigadores e cidadãos podem, em conjunto, promover práticas saudáveis e seguras nesta área?
AP – Um dos objetivos do MetBalance é precisamente aproximar a ciência da sociedade. Por isso, o congresso está aberto a toda a gente, não apenas a estudantes ou profissionais de saúde. Queremos criar um espaço onde investigadores e profissionais possam partilhar conhecimento, mas onde também exista espaço para perguntas, discussão e contacto com o público.
Ao reunir diferentes áreas e perspetivas, conseguimos olhar para a perda de peso de uma forma mais completa e promover uma mensagem que consideramos essencial: práticas saudáveis devem ser baseadas em informação credível, evidência científica e adaptadas a cada pessoa.




