
Tratar a mãe, preservar o desenvolvimento fetal e responder às dificuldades alimentares e emocionais exige um acompanhamento individualizado. No painel ‘Cancro e gravidez’, do 4.º Congresso Europeu de Nutrição Materno-Infantil (CEuNMI), a médica oncologista Leonor Matos e a nutricionista Fernanda Marques destacaram a importância da abordagem multidisciplinar e de um plano nutricional ajustado à realidade de cada mulher.
O cancro da mama afeta aproximadamente uma em cada três mil mulheres grávidas, sobretudo com diagnóstico entre os 32 e os 38 anos. Embora raro neste contexto, coloca desafios que exigem conciliar o tratamento oncológico com a segurança fetal. Foi este o ponto de partida do painel realizado no CEuNMI, que decorreu nos dias 23 e 24 de outubro, no Auditório da Reitoria da Universidade NOVA de Lisboa (Campus de Campolide).
Leonor Matos, médica oncologista e investigadora na Unidade de Mama da Fundação Champalimaud, começou por explorar a relação entre as alterações biológicas da maternidade e a doença. A gravidez promove a expansão e a diferenciação do tecido mamário, enquanto, após o desmame, a glândula atravessa um processo de involução e remodelação. Este ambiente transitório pode favorecer a progressão de células anormais preexistentes, embora a evidência sobre estes mecanismos seja mais robusta em modelos animais.
A relação entre maternidade e risco de cancro da mama também varia ao longo do tempo. “Após o parto, o risco aumenta temporariamente, atingindo um pico cerca de cinco anos depois”, explicou. Décadas mais tarde, ter tido filhos associa-se a menor risco, particularmente de doença com recetores hormonais positivos. A idade na primeira gravidez, a história familiar, a amamentação e o subtipo tumoral ajudam a compreender estas diferenças.
Tratar sem antecipar desnecessariamente o parto
Na passagem às decisões clínicas, Leonor Matos deixou a mensagem principal: “O tratamento deve ser realizado num centro especializado, por uma equipa multidisciplinar experiente”. A articulação entre as diferentes áreas permite adequar as opções terapêuticas à doença e à idade gestacional.
A oncologista salientou a ausência de benefício demonstrado da interrupção da gravidez para o prognóstico materno, advertindo: “Não digam à doente que tem de interromper a gravidez”. Quando existe necessidade de tratamento imediato, sobretudo no primeiro trimestre, as opções exigem uma discussão individualizada com a mulher.
A cirurgia pode ser realizada durante a gestação e determinados esquemas de quimioterapia podem ser administrados após o primeiro trimestre. A hormonoterapia e as terapêuticas anti-HER2 ficam para depois do parto, tal como, em regra, a radioterapia. O objetivo é assegurar um tratamento eficaz, com as adaptações necessárias à proteção fetal.

A vigilância obstétrica acompanha este percurso. Entre as prioridades, realçou “evitar atrasos desnecessários no tratamento e partos pré-termo sem necessidade médica”, reforçando a importância de ponderar os riscos da prematuridade no planeamento dos cuidados.
“O plano nutricional tem de caber nesta nova vida”
Fernanda Marques centrou a sua intervenção na mulher que chega à consulta, com um diagnóstico, mas também com uma história e circunstâncias próprias. “Antes de sugerir a mudança do estilo de vida, precisamos de conhecer a sua rotina, o trabalho, a família e o corpo”, avançou a nutricionista.
À preparação para a maternidade juntam-se exames, consultas, tratamentos e novas necessidades de apoio. “Gravidez, maternidade e cancro passam a coexistir – com um corpo, uma identidade e uma família em mudança”, observou. Por isso, sublinhou, “o plano nutricional tem de caber nesta nova vida”.
As exigências da gestação podem somar-se aos efeitos da doença e da terapêutica. Náuseas, vómitos, mucosite, alterações do paladar, perturbações gastrointestinais e fadiga dificultam a ingestão e a hidratação. O medo, a culpa e a ansiedade podem acrescentar restrições alimentares a estas dificuldades.
Contudo, “desnutrição e caquexia não ocorrem em todas as pessoas com cancro da mama”, ressalvou. O impacto nutricional depende da biologia e do estádio do tumor, do tratamento e da resposta individual. Também a investigação específica nesta população é limitada, assentando sobretudo em estudos observacionais com pequenas amostras e consensos multidisciplinares.
A intervenção deve, assim, ser individualizada. A palestrante destacou a avaliação da ingestão alimentar, da hidratação e da composição corporal, a adequação energética e proteica e a gestão dos sintomas. Perante baixa ingestão, pode ser necessário aumentar a densidade nutricional das refeições; quando existe mucosite, adaptar texturas e temperaturas; nas alterações intestinais, ajustar a fibra e os líquidos.
Flexibilidade no prato, critério na suplementação
Fernanda Marques apresentou a Dieta Mediterrânica como referência, valorizando leguminosas, cereais integrais, frutos secos, fruta e verduras, azeite e peixe. A alimentação deve, porém, acompanhar os sintomas e a capacidade de comer: “O prato é um guia flexível, não uma prescrição rígida. Em dias de sintomas, comer o que gosta e tolera conta mais do que o prato ideal”.
As necessidades acrescidas e as dificuldades alimentares podem justificar suplementação, mas esta exige critério. Antes de prescrever, a nutricionista propõe cinco perguntas: “Existe deficiência ou indicação clínica?”; “Qual a dose?”; “Qual a duração?”; “Existe interação com o tratamento?”; e “Existe segurança durante a gravidez?”.
De seguida, alertou para as megadoses, os antioxidantes em doses elevadas durante o tratamento, os fitoterápicos e os suplementos apresentados como ‘anticancerígenos’. A decisão deve responder a necessidades concretas e considerar simultaneamente a terapêutica oncológica e a gestação.
Escutar, validar e negociar
O acompanhamento inclui ainda a dimensão emocional. O diagnóstico pode trazer choque, vulnerabilidade, incerteza e a perda da gravidez idealizada. As alterações corporais e as preocupações com a amamentação ou com o bebé acrescentam outras fontes de sofrimento.
Célia Craveiro na EFAD: “É um orgulho contribuir para que Portugal tenha voz na Europa”
“O sofrimento não termina com o parto”, lembrou Fernanda Marques, defendendo que a atenção ao estado emocional acompanhe o tratamento e se prolongue no pós-parto. Na consulta de Nutrição, importa perguntar pelo humor, pela ansiedade, pelo sono e pelo medo de comer, distinguindo as dificuldades provocadas pelos sintomas das restrições motivadas por culpa.
A abordagem comportamental assenta em escutar, validar e negociar. “O que consegue comer neste momento?” foi uma das perguntas propostas. A partir daí, importa “reconhecer o medo sem reforçar mitos” e estabelecer “pequenas metas possíveis”, envolvendo a família e articulando com a psicologia ou psico-oncologia, quando necessário.
No fecho, a coordenadora de cursos na área da Nutrição em Oncologia da European School of Lifestyle Oncology (ESLO) / AIM Cancer Center delimitou o contributo da profissão: “Na gravidez com cancro da mama, o nutricionista não trata o tumor pela alimentação”. O acompanhamento “protege o terreno biológico, nutricional, funcional e comportamental da mãe e contribui para preservar o crescimento e o desenvolvimento fetal”. Sem esquecer, concluiu, que a alimentação “deve envolver memórias afetivas, vida social e conforto”.




