Portugueses valorizam “Uma Só Saúde” mas há ainda um longo caminho a percorrer

A maioria dos portugueses reconhece a importância da articulação entre saúde humana, animal e ambiental, mas persistem lacunas de conhecimento sobre antibióticos e segurança alimentar, segundo o estudo ‘Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia‘ hoje divulgado.

Os resultados do estudo promovido pela Ordem dos Médicos revelam que 83,9% dos inquiridos consideram essencial a cooperação entre médicos, veterinários, especialistas ambientais e decisores políticos para prevenir surtos e responder a ameaças à saúde pública.

Apesar da valorização do conceito pela população, os dados revelam comportamentos e perceções que o coordenador científico do estudo, Tiago Correia, considera preocupantes.

O estudo concluiu que 12% dos participantes admitiram ter tomado antibióticos sem prescrição médica e que “entre um quarto e um quinto” discordam que a utilização de antibióticos na produção animal possa ter implicações para a saúde humana, enquanto quase 20% afirmam nem saber que essa relação existe.

População que mais precisa de cuidados de saúde é a menos acompanhada

“Se juntarmos estas duas parcelas, praticamente metade das pessoas ou não sabe das implicações dos antibióticos nas explorações agropecuárias ou acham que isso não tem relevância para a sua saúde”, vincou à Lusa o investigador do estudo ‘Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia: Perceções, acesso aos cuidados’.

Outro dos resultados mostra que cerca de um quinto das pessoas que consomem carne proveniente de explorações próprias ou de familiares afirma não conhecer as condições higiossanitárias em que os animais foram criados ou abatidos.

Para o coordenador científico, os resultados evidenciam que ainda há “muito caminho” a fazer em relação à integração da saúde humana, animal e ambiental, mas também do ponto de vista da saúde pública e da literacia sobre os riscos para as pessoas.

“Não tem a ver só com a nossa saúde. Tem a ver com o modo como nós produzimos alimentos, hortícolas, animais, como é que fazemos escolhas informadas, por exemplo, no supermercado”, salientou.

Tiago Correia defendeu ainda que a discussão sobre saúde não se deve limitar ao acesso aos cuidados médicos, devendo incluir igualmente todos estes fatores relacionados com a qualidade do ambiente, da alimentação e dos comportamentos que influenciam o risco de doença.

Mais de 40% dos cuidadores informais não sentem benefícios do estatuto

“Quando há problemas de saúde, é a questão do acesso que nos preocupa. Se temos ou não temos médico de família, mas tudo isto está a montante e precisamos de ter a certeza de que aquilo que comemos, aquilo que bebemos, o sítio onde vivemos tem qualidade e nos permite ter saúde, porque caso contrário estaremos doentes e se estamos doentes precisamos de cuidados e se precisamos de cuidados, lá vem toda a pressão sobre o sistema de saúde”, alertou.

O estudo “Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia: Perceções, acesso aos cuidados” incluiu, pela primeira vez em Portugal e numa das poucas experiências do género a nível internacional, um instrumento de medição sobre o conceito de “Uma Só Saúde” (One Health), que relaciona a saúde humana, animal e ambiental.

Realizado pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, através do Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde para as Políticas e Planeamento da Força de Trabalho em Saúde, o estudo decorreu entre setembro e novembro de 2025 e baseou-se em 700 entrevistas telefónicas a adultos residentes no Continente e nas regiões autónomas. A amostra é representativa e estratificada por NUTS III.