“Gosto muito de doces”: será assim tão simples?

Por Gabriela Ribeiro, MSc em Doenças Metabólicas e Comportamento Alimentar, PhD em Neurociências, Nutricionista especialista em nutrição clínica e professora auxiliar convidada de Metabolismo e Nutrição na NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas

 

“Gosto muito de doces” é uma frase que um nutricionista ouve com frequência em consulta. É também uma frase aparentemente fácil de interpretar: aquela pessoa gosta particularmente do sabor doce e, por isso, procura ou consome com frequência alimentos açucarados. Mas será necessariamente assim?

Na prática clínica, usamos frequentemente conceitos como gosto, preferência, desejo ou craving como se fossem diferentes formas de descrever a mesma coisa. No entanto, a evidência científica mostra que estamos perante processos relacionados, mas não equivalentes — e esta diferença é relevante para compreender o comportamento alimentar.

Comecemos pelo sabor. A quantidade de açúcar presente em um alimento é uma característica desse alimento. Porém, a intensidade com que o doce é percebido é uma resposta de quem o prova. E essa resposta varia entre pessoas e também pode variar na mesma pessoa.

O estado fisiológico é um dos fatores que podem contribuir para essa variabilidade. Fome, saciedade e sinais relacionados com a disponibilidade de energia interagem com o processamento sensorial. Existem também mecanismos que ajudam a explicar esta interação: moléculas envolvidas na regulação do metabolismo, como o GLP-1, participam igualmente na sinalização do sabor doce.

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Mas sentir o doce com maior intensidade não significa, necessariamente, gostar mais dele. E gostar mais não significa, necessariamente, querer comer mais. O prazer proporcionado por um alimento e a motivação para obtê-lo e consumi-lo são componentes da recompensa alimentar relacionados, mas não equivalentes. Uma pessoa pode sentir um forte desejo por chocolate, sem considerar o seu sabor particularmente intenso, e pode procurá-lo repetidamente, sem que o prazer obtido em cada episódio explique, por si só, esse comportamento.

Também existem diferenças importantes entre indivíduos. A perceção do sabor e a resposta à recompensa alimentar têm sido estudadas em relação a características como a obesidade e diferentes padrões de comportamento alimentar. Estas relações estão longe de serem simples: uma pessoa pode diferir na intensidade com que percebe um sabor, no prazer que retira de um alimento ou na motivação para consumi-lo, sem que estas dimensões variem necessariamente em conjunto. Isto leva-nos a questionar a ideia de que as preferências alimentares constituem características simples e fixas de uma pessoa.

Talvez esta seja a principal implicação para a prática clínica. Quando um doente diz “gosto muito de doces”, esta afirmação não deveria ser automaticamente interpretada como uma preferência estável pelo sabor doce. Pode estar a descrever prazer, desejo, craving, hábito, maior responsividade a determinados alimentos ou uma experiência fortemente dependente do contexto.

Vale, por isso, a pena perguntar: o que quer dizer com “gostar”? Em que situações surge a vontade de comer doces? É fome ou desejo por um alimento específico? O alimento proporciona-lhe um prazer particular ou é difícil parar depois de começar? A resposta muda quando está saciado?

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Estas perguntas não são apenas semânticas. Uma resposta influenciada sobretudo pela fome, um craving por um alimento específico ou uma elevada responsividade à presença de determinados alimentos não representam necessariamente o mesmo fenómeno — e podem justificar abordagens diferentes.

Na nutrição, procuramos personalizar cada vez mais as recomendações com base em características metabólicas e clínicas. Talvez devamos aplicar o mesmo princípio à forma como interpretamos a experiência alimentar. Antes de concluir que alguém simplesmente “gosta muito de doces”, importa perceber o que essa pessoa está realmente a tentar dizer.

 

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