
Há escolhas profissionais que não terminam no momento em que se escolhe um curso. Para Elisabete Pedras do Vale e Maria João Campos, as Ciências Farmacêuticas foram o primeiro caminho, mas não o último. Anos depois, ambas decidiram estudar Nutrição. Uma fê-lo depois de adiar uma paixão antiga; a outra reencontrou um sonho que já tinha estado entre as primeiras escolhas.
Hoje, cruzam as duas áreas na forma como estudam e encaram a saúde. Mas, embora partilhem esta mudança de percurso com o portal VIVER SAUDÁVEL (VS), as razões e os momentos foram diferentes.
Uma paixão antiga
No caso de Elisabete, a Nutrição esteve presente muito antes da entrada na universidade e “um interesse muito grande” já existia enquanto adolescente. Vegetariana há cerca de 30 anos, recorda que em casa existia a preocupação em perceber como fazer uma alimentação diferente, de forma adequada. “A minha mãe não tinha propriamente muita instrução, mas ela sempre gostou muito de estudar e sempre tentou perceber qual era a forma correta de enveredarmos por um padrão alimentar diferente”, recorda.
A Nutrição chegou a ser uma possibilidade concreta quando teve de escolher o curso superior. Mesmo tendo andado “na corda bamba” entre as duas áreas durante o secundário, acabou por escolher Ciências Farmacêuticas, que também a fascinava. A ligação à Nutrição, contudo, não desapareceu. Durante o curso, disciplinas como Bromatologia e Alimentação Humana voltaram a despertar a vontade de aprofundar o tema.
“Quando comecei a estudar Nutrição Humana, pensei: gosto disto, queria estudar isto, queria saber mais sobre isto”, reconhece em conversa com o portal VS. Chegou a ponderar mudar de curso mas, como já estava no quarto ano, não equacionou “deitar tudo para trás” naquele momento.
Terminou o curso em 2007, mas a ideia ficou. Chegou a pensar em fazer Ciências da Nutrição, mas as circunstâncias não o permitiam. Precisava de trabalhar para se sustentar e teria de conciliar a formação com deslocações para outra cidade. “Fui adiando a ideia, mas estava sempre assim lá no fundo da cabecinha, aquele bichinho: ‘Ah, um dia ainda vou fazer Ciências da Nutrição’”, confessa.
Esse dia chegou 16 anos depois de terminar Ciências Farmacêuticas, em 2023, porque “queria ter um tipo de intervenção diferente” e não por rejeição da Farmácia. “Eu gosto da minha intervenção enquanto farmacêutica”, sublinha.
Ao longo dos anos, o estudo e a experiência profissional foram mudando a forma como olhava para a alimentação, porque chegou à conclusão que “o maior medicamento e o pior veneno é a comida”. Para Elisabete, estudar Nutrição de forma estruturada era também uma necessidade. “Acho que é muito diferente estudar por conta própria ou estudar de uma forma estruturada e conduzida por outros que já trilharam o caminho”, explica.
Hoje, ainda estudante na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP), vê na formação farmacêutica uma vantagem para a futura prática enquanto nutricionista. “O facto de eu ter um conhecimento aprofundado ao nível da medicação, mesmo em termos de bioquímica clínica, análises clínicas, faz com que eu tenha uma bagagem maior, mais densa”, considera.
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E essa bagagem permite olhar para o doente para lá da alimentação. “O doente de nutrição não é só um doente de nutrição. A pessoa não é só comida: é comida, os medicamentos todos que toma, há uma série de esferas na vida daquele doente”, afirma.
Mas há outra aprendizagem da Farmácia que considera particularmente importante: a relação com as pessoas. Se “o farmacêutico tem uma ligação aos doentes de muita cumplicidade”, pode fazer toda a diferença. Para Elisabete, o que distingue “um bom profissional de saúde é saber conversar com as pessoas”.
Um sonho adiado por dez anos
Também Maria João Campos tinha pensado em Nutrição antes de entrar no ensino superior. Nascida e criada em Coimbra, tinha uma ligação próxima à área da saúde, já que a mãe é endocrinologista e a irmã também exercia medicina.
“Na altura, quando fiz a minha candidatura para o ensino superior, esteve sempre em cima da mesa a possibilidade das Ciências da Nutrição”, confessa.
Mas havia outro desejo: estudar em Coimbra. Mas, como o curso de Nutrição não existia – ainda – na cidade, Ciências Farmacêuticas acabou por ser a primeira opção. “Era uma área que eu também gostava muito e ainda gosto, porque sempre gostei muito de química”, recorda.
Depois da formação, vieram dez anos de atividade profissional na indústria farmacêutica. E, mesmo aí, a alimentação continuou presente. Trabalhou numa empresa ligada à produção de suplementos alimentares e contactou regularmente com nutricionistas.
A ‘segunda opção’ viria a concretizar-se em 2013, quando terminou o curso de Nutrição. A mudança aconteceu num período particularmente difícil da sua vida: a irmã teve uma doença grave e acabou por falecer. “Eu quis mudar de vida e achei que fazia sentido ir ao encontro daquilo que tinha sido se calhar um primeiro sonho adiado”, desabafa.
A decisão teve uma forte componente pessoal, mas Maria João acredita “que mesmo que não acontecesse o evento pessoal, acho que o caminho teria sido semelhante.”
Quando duas áreas se complementam
Atualmente, Maria João trabalha como nutricionista clínica, dá consultas e ensina Nutrição a futuros farmacêuticos em Coimbra. A experiência anterior continua presente em ambos os contextos, porque “complementa muito”, sobretudo a compreender a medicação dos doentes, as doenças crónicas e os possíveis efeitos dos fármacos. “Esse conhecimento de base que eu tinha da área farmacêutica ajuda-me muito a prestar um melhor serviço à pessoa que me procura”, frisa.
A nutricionista dá um exemplo prático: “se eu tiver uma senhora que se queixa de ter alguma retenção de líquidos e que ao final do dia faz algum edema dos membros inferiores, se eu perceber que a medicação dela já inclui um anti-hipertensor com características diuréticas, percebo que essa situação em termos médicos também já está a ser salvaguardada”. A mesma complementaridade aplica-se aos suplementos alimentares, uma área que atravessou grande parte do seu percurso.
O que dizem os novos estudos sobre a profissão de nutricionista?
O cruzamento das duas ciências acabou por chegar também à investigação. Maria João concluiu um doutoramento em Ciências Farmacêuticas na área da Nutrição e Química dos Alimentos, precisamente numa zona de interseção entre os dois mundos.
No fundo, nenhuma das duas histórias é sobre abandonar uma profissão para começar outra, mas sim acrescentar conhecimento e encontrar novas formas de o aplicar. Às vezes, o segundo caminho não apaga o primeiro, torna-o mais completo.




