Nutricionistas Helicóptero

Por Rodrigo Abreu, Nutricionista na Rodrigo Abreu & Associados e Fundador do Atelier de Nutrição®

 

Todos conhecemos — ou pelo menos já ouvimos falar — dos pais-helicóptero. São aqueles que pairam permanentemente sobre a vida dos filhos, atentos a cada movimento, prontos a “aterrar” ao primeiro sinal de dificuldade. Controlam os trabalhos de casa, supervisionam as amizades, intervêm nos conflitos do recreio e, se pudessem, instalavam uma câmara no colarinho para confirmar que a criança comeu a sopa toda. A intenção, quase sempre, é boa. O problema é que, quando o helicóptero paira permanentemente por cima da criança, esta dificilmente poderá aprender a descolar sozinha.

Na Nutrição, existe uma espécie semelhante: o nutricionista-helicóptero. Também este paira… e muito! Sobre o pequeno-almoço, o almoço, o lanche e, sobretudo, sobre aquele jantar de sexta-feira que incluiu uma pizza ou uma sobremesa. Há mensagens, lembretes, fotografias de pratos, listas de alimentos (quanto mais exóticos e específicos, melhor!), planos rigorosos e instruções suficientemente detalhadas para fazer pensar que a alimentação é uma operação militar: “Lembre-se que são só 60 gramas de arroz!”, “Pesou o pão?”, “Mande fotografia do prato!”, “E o peso desta semana?”.

Alguns profissionais parecem acreditar que a sua utilidade é diretamente proporcional à quantidade de controlo que exercem, ou à presença que têm na rotina dos seus utentes. Se não há uma lista interminável de regras, talvez o utente pense que a consulta não valeu a pena. Se não houver pesagens semanais, medições, relatórios e gráficos, onde está o acompanhamento? E se o paciente não receber instruções para cada refeição, como poderá saber o que fazer com a sua própria boca? A omnipresença do nutricionista-helicóptero em cada refeição ou escolha alimentar é um lembrete da sua importância e reforça a necessidade de marcar a próxima consulta.

O que dizem os novos estudos sobre a profissão de nutricionista?

Naturalmente, há situações clínicas em que uma monitorização mais próxima é necessária. Existem doenças, condições específicas e objetivos terapêuticos que justificam um acompanhamento rigoroso. Mas transformar todos os pacientes em projetos de vigilância permanente é outra coisa. O acompanhamento nutricional deveria, idealmente, aumentar a autonomia: ensinar a compreender a fome e a saciedade, a fazer escolhas adequadas ao contexto de cada um, a lidar com refeições imperfeitas e permitir comer sem entrar em pânico quando o nutricionista não responde ao telemóvel.

Na verdade, o verdadeiro teste ao sucesso de um acompanhamento nutricional é saber se o utente segue o plano, mesmo quando ninguém está a ver. Um paciente que precisa de pedir autorização para comer uma sobremesa, talvez não tenha aprendido muito sobre gestão do peso. Se teme a balança porque sabe que terá de enviar o número todas as semanas, talvez não esteja a construir uma relação particularmente saudável com o seu corpo. E se tem de fotografar (e enviar) compulsivamente cada alimento que ingere, pode estar a cumprir o plano alimentar, mas não necessariamente estar a aprender a comer.

Tal como os pais-helicóptero, os nutricionistas-helicóptero podem confundir proximidade com controlo. Acompanhar não é vigiar, orientar não é comandar. E ajudar alguém não significa tornar-se indispensável à sua vida. Paradoxalmente, talvez o maior sucesso de um nutricionista seja, precisamente, tornar-se cada vez menos necessário. Não porque o paciente deixou de valorizar o seu conhecimento, mas porque aprendeu a integrá-lo na sua rotina e escolhas diárias.

Estamos a desaprender a reconhecer a fome e a saciedade?

Com um telemóvel no bolso de toda a gente, e novas funcionalidades de IA relacionadas com nutrição a surgir diariamente, os nutricionistas devem resistir à tentação de copiar a ominipresença das ferramentas virtuais. Um bom nutricionista saberá usar essas ferramentas (e outras!) para ser relevante, não sempre presente. Usará a tecnologia para se diferenciar enquanto pessoa, não para a copiar. No fundo, o nutricionista deve usar a tecnologia para levantar voo e ser melhor profissional, não para pairar sobre a alimentação dos seus utentes de forma controladora.

 

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