Alimentação saudável dentro e fora da escola

A promoção de hábitos de alimentação saudáveis entre os mais novos continua a ser um desafio. Especialistas defendem estratégias para tornar a comida mais apelativa para crianças e jovens e regras mais apertadas nos estabelecimentos que vendem fast-food nas imediações das escolas.

O início das aulas é sinónimo de regresso a rotinas, entre quais as refeições feitas nas escolas, que estão muitas vezes paredes meias com estabelecimentos de restauração onde não predominam as ofertas mais saudáveis. A nutricionista e vencedora de um Prémio VIVER SAUDÁVEL Joana Faria defende que é fundamental reforçar a literacia alimentar, “não numa lógica de dizer aos jovens o que devem ou não comer, mas de lhes dar ferramentas para compreenderem a informação e fazerem escolhas mais conscientes e autónomas”.

A oferta alimentar fora dos estabelecimentos de ensino continua a ser encarada como um dos grandes desafios. “Dentro da escola podemos promover uma oferta alimentar equilibrada, mas, fora dos portões, as crianças e os jovens estão expostos a um ambiente onde os produtos ultraprocessados são muito apelativos, acessíveis e fortemente promovidos”, salienta.

Por sua vez, a presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde considera que as intervenções práticas dentro dos territórios são fundamentais e tem de existir “um maior controlo do que é a alimentação não só dentro da escola, mas também fora dos estabelecimentos de ensino, porque tem um enorme impacto na saúde destas crianças e futuros adultos”.

 

Cristina Vaz de Almeida defende mesmo que tem de haver legislação com regras para a venda de fast-food junto às escolas. “Criticamos o apelo destes cafés, lojas e pastelarias que vendem salgados, batatas fritas, pizzas, ao redor de uma escola, a menos de 300 metros. Os comerciantes têm de ter obrigações também para os estilos de vida saudável. É uma questão de saúde pública”, argumenta.

Tornar a alimentação mais apelativa

Já dentro das cantinas escolares, a alimentação saudável pode conquistar o paladar das crianças e jovens se for apelativa. “O sabor, o cheiro, a variedade, a textura e a apresentação dos alimentos e das refeições influenciam a sua aceitação”, afirma Joana Faria.

De acordo com a nutricionista, “uma maior variedade de receitas, tendo em conta as preferências dos alunos, sem comprometer o equilíbrio nutricional, a utilização de produtos sazonais e a valorização dos sabores locais e regionais” podem ajudar a alcançar este objetivo.

Joana Faria e Cristina Vaz de Almeida

O envolvimento dos alunos é também apontado como fundamental neste processo. “Há metodologias que permitem que as próprias crianças participem na elaboração dos menus. Pode ser uma abordagem muito interessante para os alunos poderem lidar mais de perto com aquilo que é a sua alimentação e fazerem estas tais escolhas saudáveis de forma mais consciente”, adianta Cristina Vaz de Almeida.

A nutricionista Joana Faria dá o exemplo de “provas de alimentos, oficinas de culinária, hortas escolares e concursos de receitas”, como modo de aproximar a alimentação saudável dos gostos dos jovens e tornar as refeições mais apelativas e participadas. Outra estratégia pode ser a forma como a comida é apresentada nos refeitórios. “Pôr as frutas cortadas e os legumes no início da linha do refeitório e depois voltar a pôr no final, incentiva uma dupla necessidade de consumo”, afirma a presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde.

Lancheira saudável

Outras das rotinas implícitas no regresso às aulas é a preparação da lancheira. Joana Faria sublinha que para ser saudável não precisa necessariamente de ser complicada, cara ou demorada. “Deve ser nutritiva, variada, saborosa, com ingredientes simples, adaptada às necessidades e apelativa”, refere. O segredo pode estar na combinação de alimentos e a nutricionista dá exemplos. “Uma boa base pode passar por combinar leite e derivados, fruta, cereais e derivados e água. Por exemplo, pão com queijo acompanhado por uma peça de fruta e água. Podemos também incluir ovo, frutos oleaginosos e hortícolas”.

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Há também detalhes que podem tornar os lanches das crianças mais apelativos. “Utilizar lancheiras atrativas, combinar diferentes cores, cortar a fruta de formas diferentes e de fácil consumo, preparar as sandes com formatos divertidos, como estrelas, corações ou figuras de que a criança goste”, sugere a nutricionista, frisando mais uma vez que é importante envolver a criança na preparação.

Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que 44,7% das crianças dos 6 aos 14 anos consomem alimentos ultraprocessados e fast food e 5,3% fazem-no diariamente, pelo que os especialistas concordam que a literacia em saúde e os hábitos saudáveis têm de começar em casa.

“Não podemos estar a sobrecarregar as crianças quando em casa não há, por exemplo, a preocupação de comer sopa ou de estarem todos à mesa à mesma hora, num ritual de alimentação saudável”, conclui Cristina Vaz de Almeida.