
Por Maria Vieira, coordenadora, e Júlia Borges, Rafaela Honrado e Carolina Coutinho, vogais, do Departamento de Comunicação e Imagem da Associação Nacional de Estudantes de Nutrição (ANEN).
A base da comunicação nutricional
O nutricionista enquanto comunicador
Na Nutrição, o conhecimento científico só adquire verdadeiro valor quando é compreendido e aplicado por quem o recebe. Por isso, comunicar constitui uma parte essencial da intervenção nutricional. O nutricionista não é apenas responsável por conhecer a evidência científica e formular recomendações adequadas, mas também por transformar informação, muitas vezes complexa, numa mensagem clara, rigorosa e útil.
Uma recomendação pode estar cientificamente correta e, ainda assim, falhar o seu propósito se o destinatário não compreender o seu significado ou não souber como a aplicar. Assim, utilizar linguagem excessivamente técnica, transmitir demasiada informação ou apresentar recomendações descontextualizadas pode comprometer a eficácia da comunicação.
Simplificar a linguagem não significa simplificar a ciência. Significa torná-la utilizável. Recomendar apenas “aumentar o consumo de fibra”, por exemplo, poderá ter pouco significado para alguém que desconheça as suas principais fontes alimentares. Traduzir esta orientação em ações concretas, como aumentar o consumo de hortícolas, leguminosas ou cereais integrais, aproxima a evidência científica da realidade da pessoa.
A comunicação nutricional deve ainda ser entendida como um processo bidirecional. Ouvir, questionar e perceber se a mensagem foi realmente compreendida é tão importante como transmitir informação. Conhecer o público torna-se, assim, fundamental. A idade, a literacia em saúde, os conhecimentos prévios, as necessidades, os objetivos e o contexto sociocultural influenciam a forma como a informação é recebida e utilizada.
VS-NSE “aproxima áreas que nem sempre trabalham lado a lado”
Os conhecimentos prévios merecem particular atenção numa área em que ciência, experiências pessoais, tendências alimentares e conteúdos das redes sociais coexistem diariamente. Conhecer aquilo que a pessoa sabe ou acredita saber permite esclarecer dúvidas, corrigir conceitos incorretos e construir uma comunicação baseada no diálogo.
Também as necessidades e os objetivos devem determinar aquilo que é prioritário comunicar. Transmitir mais informação não significa comunicar melhor. Algumas mensagens relevantes e exequíveis podem ter maior impacto do que um conjunto extenso de recomendações difíceis de memorizar ou aplicar.
Por fim, comunicar sobre alimentação exige reconhecer a influência da cultura, tradições familiares, condições económicas, disponibilidade alimentar, rotinas e preferências. Adaptar a comunicação não significa alterar a evidência consoante o público, mas preservar o rigor científico e torná-la compreensível, relevante e aplicável.
Adaptar à idade
A idade influencia a capacidade de compreensão, as experiências prévias e a forma como a informação é aplicada. Por isso, a comunicação deve ser ajustada às diferentes fases da vida.
Nas crianças, importa utilizar uma linguagem simples, concreta e adequada ao nível de desenvolvimento. Imagens, histórias, jogos e exemplos do quotidiano podem facilitar a aprendizagem. Em vez de abordar conceitos como “síntese muscular”, pode explicar-se que alimentos como ovo, peixe, iogurte ou leguminosas ajudam o corpo a crescer e a reparar os músculos. Nesta fase, a comunicação deve também contribuir para uma relação positiva com a alimentação.
Na adolescência, a maior autonomia e a exposição às redes sociais introduzem novos desafios. Conteúdos sobre dietas, suplementos, peso, exercício físico e imagem corporal podem influenciar as escolhas alimentares. Perante ideias como “os hidratos de carbono à noite engordam”, o nutricionista deve não só esclarecer a informação, mas também estimular o pensamento crítico e ensinar a identificar fontes credíveis. A comunicação deverá evitar julgamentos e privilegiar a saúde, o crescimento e o bem-estar.
Nutricionista Bárbara Camarinha assume direção do Departamento Educativo de Gaia
Na idade adulta, é essencial considerar a realidade em que as recomendações serão aplicadas. Horários de trabalho, refeições fora de casa, responsabilidades familiares, preferências e condições económicas podem condicionar aquilo que é exequível. Assim, comunicar bem implica transformar recomendações científicas em estratégias compatíveis com a rotina e as necessidades individuais.
Na população idosa, alterações da visão, audição, cognição, mastigação ou deglutição podem exigir linguagem mais simples, materiais visuais ou instruções organizadas por etapas. Contudo, a comunicação deve respeitar sempre a autonomia e individualidade de cada pessoa, evitando generalizações relacionadas com a idade.
Comunicação com atletas
A comunicação com atletas deve igualmente ser adaptada aos objetivos e ao contexto individual. Estes podem incluir melhoria do rendimento, recuperação, alterações da composição corporal, aumento da massa muscular ou adoção de hábitos alimentares mais adequados.
Neste contexto, a alimentação deve ser enquadrada no treino, competição, recuperação e rotina do atleta. As estratégias antes, durante e após o exercício podem influenciar o desempenho e devem ser ajustadas ao tipo, duração e intensidade do exercício, bem como à idade, experiência desportiva, objetivos e preferências alimentares.
Um atleta jovem, um atleta de alta competição e um praticante recreativo apresentam necessidades distintas. Assim, o papel do nutricionista consiste em traduzir a evidência científica em estratégias práticas, individualizadas e aplicáveis à realidade de cada atleta.
Comunicação entre profissionais de saúde
Na comunicação entre profissionais de saúde, a linguagem deve ser técnico-científica, estruturada e objetiva. Uma transmissão clara da informação permite reduzir ambiguidades, facilitar a tomada de decisões e promover uma intervenção multidisciplinar coerente.
Uma viagem pela história da Nutrição em Portugal com a FCNAUP
A evidência científica deve constituir a base das recomendações, recorrendo-se a estudos e outras fontes credíveis para fundamentar a prática. A comunicação deve privilegiar informação objetiva e dados clínicos relevantes.
A partilha de informação deve ainda respeitar os princípios de confidencialidade e proteção de dados. Diagnóstico, objetivos da intervenção, evolução, dificuldades identificadas e estratégias implementadas são exemplos de informação relevante para assegurar a continuidade dos cuidados.
Adaptar a comunicação neste contexto não significa alterar a evidência, mas selecionar a informação mais relevante e transmiti-la de forma adequada aos profissionais envolvidos.
Comunicação nas redes sociais
Atualmente, uma parte importante da comunicação em saúde ocorre nas redes sociais, muitas vezes antes de existir contacto com um profissional. Esta realidade reforça a importância de os nutricionistas estarem também presentes no espaço digital.
Nas redes sociais, o profissional comunica para um público que, geralmente, desconhece. Por isso, recomendações individualizadas não devem ser transformadas em regras universais. Ainda assim, estas plataformas permitem aproximar os nutricionistas da população, facilitar o acesso a informação de qualidade e tornar conceitos científicos mais acessíveis.
Para captar a atenção sem comprometer o rigor, podem utilizar-se perguntas, exemplos práticos, vídeos curtos e conteúdos visuais. A diferença entre perguntar “Os hidratos de carbono à noite engordam?” e afirmar “Os hidratos de carbono à noite engordam” demonstra como a forma da mensagem pode influenciar a interpretação. A primeira formulação estimula a reflexão; a segunda apresenta uma conclusão absoluta.
Simplificar informação científica não significa alterar o seu significado. A população não necessita de conhecer todos os detalhes metodológicos de um estudo, mas deve compreender quando a evidência é robusta, limitada ou ainda insuficiente.
A desinformação alimentar encontrou nas redes sociais um meio particularmente eficaz de disseminação. Por esse motivo, o nutricionista não deve limitar-se a corrigir mitos, mas contribuir ativamente para a divulgação de informação credível e cientificamente fundamentada.
Seja numa consulta, no acompanhamento de um atleta, entre profissionais de saúde ou nas redes sociais, o princípio mantém-se: uma comunicação eficaz deve ser clara, rigorosa e adaptada ao destinatário e ao contexto. A evidência científica permanece a mesma; aquilo que se modifica é a forma de a tornar compreensível e aplicável. Comunicar Nutrição não consiste apenas em transmitir aquilo que sabemos, mas em conseguir que esse conhecimento faça sentido para quem está do outro lado.
Aceda a todos os artigos de opinião da Associação Nacional de Estudantes de Nutrição aqui.




