
Por Catarina Rossa Pinto (presidente do Núcleo de Estudantes de Ciências da Nutrição – AAIUEM, Egas Moniz School of Health & Science), Beatriz Isabel Piecho de Morais (membro da Comissão de Logística e Gestão Interna – Associação de Estudantes da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra), Cecília Almeida (presidente da Mesa da Assembleia Geral – NECN-UTAD), Beatriz Carrilho Parelho dos Santos Fernandes (coordenadora do Departamento de Representação Externa do Núcleo de Estudantes de Nutrição da ESSL) e Bárbara Silva (vice-presidente – AEFCNAUP).
Hoje, mais do que nunca, a informação sobre alimentação está toda à distância de um clique. Em poucos segundos, com poucos dados, a Inteligência Artificial (IA) cria planos alimentares e responde a praticamente qualquer dúvida. Ao mesmo tempo, os algoritmos das redes sociais selecionam os conteúdos que vemos, influenciando aquilo que consideramos saudável, apetecível ou “ideal” para comer.
Mas, esta aparente democratização da informação traz um desafio importante: quem está, afinal, a orientar as nossas escolhas alimentares? Para os jovens, que cresceram num contexto marcado pela presença constante do digital, a resposta é particularmente evidente. O TikTok, o Instagram e outras plataformas digitais não mostram apenas receitas ou dicas de alimentação, moldam preferências, comportamentos e até a relação com os alimentos. O problema é que estes algoritmos não foram desenvolvidos para promover saúde, mas sim para nos manter ligados ao ecrã, o máximo de tempo possível, o que, por vezes, não se traduz na informação mais correta do ponto de vista científico.
É neste contexto que os alimentos ultraprocessados encontram terreno fértil. Produtos altamente palatáveis, embalagens apelativas, campanhas com influenciadores e conteúdos virais transformam estes alimentos em escolhas frequentes, especialmente entre o público mais jovem.
É precisamente aqui que surge um dos maiores desafios atuais. O público mais jovem, que passa várias horas por dia nas redes sociais, está constantemente exposto a conteúdos sobre alimentação. Uns promovem dietas extremas, outros demonizam alimentos, outros ainda transformam produtos ultraprocessados em verdadeiras tendências e estas pequenas ações são suficientes para que determinado alimento passe a fazer parte do dia a dia de milhares de pessoas.
Não é por acaso que os alimentos ultraprocessados ocupam hoje um espaço tão grande na alimentação dos mais novos. São práticos, saborosos, económicos e, acima de tudo, extremamente promovidos. A tecnologia tornou tudo mais fácil: chegar ao consumidor certo, no momento certo, criando um ambiente alimentar onde escolher melhor exige, muitas vezes, mais esforço do que escolher pior.
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A IA pode, sem dúvida, ser uma ferramenta extraordinária. Plataformas de gestão e acompanhamento nutricional, ou outras soluções digitais, facilitam a monitorização, podem aumentar a adesão aos planos alimentares e permitem um acompanhamento mais eficiente. Modelos de IA conseguem ainda organizar informação, adaptar receitas e sugerir estratégias baseadas na evidência disponível. No entanto, apesar de serem ferramentas de apoio a profissionais de saúde, continuam a trabalhar com padrões e probabilidades, e não com pessoas.
Uma consulta de Nutrição nunca se resume ao cálculo de calorias ou à elaboração de um plano alimentar. Existe uma história clínica, um contexto familiar, fatores económicos, culturais e emocionais, preferências, dificuldades, motivações e objetivos. Nenhum algoritmo consegue compreender que um plano alimentar não está a resultar porque a pessoa trabalha por turnos, vive sozinha ou simplesmente não gosta de aveia ao pequeno-almoço. Reconhecer a ansiedade escondida por trás de uma consulta, a desmotivação no olhar ou a necessidade de adaptar uma intervenção à realidade de uma família com dificuldades económicas são impossíveis para uma IA captar.
Apesar de todas as vantagens e possibilidades que a IA proporciona, a dimensão humana continua fora do seu alcance. É neste contexto que o nutricionista se torna insubstituível, afirmando-se como um elemento fundamental. Afinal, um nutricionista não é apenas alguém que prescreve um plano alimentar. É um profissional que escuta, interpreta, adapta e acompanha o percurso de cada pessoa, adaptando a intervenção às suas necessidades e à sua realidade. Mais do que transmitir recomendações, constrói uma relação de confiança, baseada na empatia, na comunicação e na compreensão, um elemento essencial no cuidado nutricional que nenhuma tecnologia consegue reproduzir.
A verdadeira questão, por isso, não é saber se a IA vai substituir os nutricionistas, mas como pode ser utilizada para potenciar uma intervenção mais eficaz, sem perder aquilo que torna a Nutrição uma ciência aplicada às pessoas: a empatia, o pensamento crítico e a personalização.
No fim, a verdadeira pergunta é: “Num mundo onde os algoritmos influenciam cada vez mais aquilo que comemos, quem nos ajuda a distinguir informação de conhecimento?” Talvez o maior desafio da Nutrição seja precisamente devolver às pessoas a capacidade de fazer escolhas conscientes.




