
Nos 50 anos do primeiro curso de Nutrição em Portugal, são muitas as novidades que a Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) tem para apresentar e que vão aumentar a reputação da única instituição do país inteiramente vocacionada para esta área do saber.
Em entrevista ao portal VIVER SAUDÁVEL, o diretor Pedro Graça dá a conhecer as grandes apostas para o próximo ano letivo – uma Clínica Universitária de Nutrição e um bar-cantina de experimentação –, e revela, em exclusivo, que Marion Nestle irá receber o primeiro douramento Honoris Causa alguma vez proposto pela faculdade.
“Neste mundo cruel”, o ‘Nutricionista do Ano’ em 2022 orgulha-se de dirigir um espaço de liberdade e deixa um aviso aos colegas: entre as alterações climáticas e as novas revoluções tecnológicas, “ou os nutricionistas se conseguem afirmar como uma força que ajuda a resolver problemas ou então vamos desaparecer”.
VIVER SAUDÁVEL (VS) – Na celebração de meio século do então ‘Curso Superior de Nutricionismo’ – hoje ‘Ciências da Nutrição’, a FCNAUP apresenta a sua primeira exposição documental criada de raiz. São 76 obras – desde 1976 – com documentos de Emílio Peres, Norberto Teixeira Santos ou Maria Daniel Vaz de Almeida. Qual o peso desta mostra?
Pedro Graça (PG) – Foi um trabalho longo, que demorou muito tempo e envolveu muita gente. É relevante relacionar momentos da história da Nutrição com a faculdade. Dá-nos um sentido de pertença e obriga-nos a valorizar o passado. A história das Ciências da Nutrição e dos nutricionistas nunca foi fácil.
Marion Neltle vai receber Honoris Causa proposto pela FCNAUP
A FCNAUP criou a profissão. Quando os primeiros colegas se foram apresentar às finanças, ninguém a reconhecia. E ainda havia uma outra agravante: [as áreas da saúde] são sempre muito corporativas e não vêm com bons olhos um novato. Nós já vínhamos com uma aura de especialistas e havia pessoas que diziam saber disto. Qualquer estudante de nutrição e qualquer nutricionista devia ver a exposição para perceber que nada nos foi dado. Dar mérito a esse trabalho valoriza a profissão.
VS – Está para breve a materialização de um sonho antigo: uma Clínica Universitária de Nutrição na Universidade do Porto. O que podemos esperar – comunidade, estudantes e profissionais – deste espaço único no país?
PG – Creio que poderão existir outras clínicas, nos hospitais, que apoiam faculdades, mas o que temos de novo é, de facto, uma clínica dedicada ao edifício e ao apoio que este dá à construção da profissão.
Vamos fazer três coisas: dar apoio à comunidade que reside nesta área, fazer pedagogia – os estudantes podem participar nas consultas, devidamente autorizados – e integrar investigação. É nosso objetivo que as pessoas saibam que podem ser observadas e que essa observação pode contribuir para a produção de ciência. Tentaremos pôr a clínica a funcionar, em soft opening, a partir de setembro/outubro e, progressivamente, começaremos a ter cada vez mais estudantes e serviços à comunidade, que pressupõe também a comunidade universitária.
Não queremos fazer concorrência direta aos nossos colegas, e essa é uma questão importante. Ou seja, as pessoas sabem que vão ser observadas por estudantes e que, estando num clima experimental, serão muito bem vistas. Obviamente, existe essa nuance e, portanto, iremos tentar que os preços sejam ligeiramente mais baixos, mas não muito, de forma a não criarmos uma competição artificial.
VS – Arranca, no próximo ano letivo, um novo bar-cantina com uma participação pontual de estudantes e docentes com aposta em pratos de conforto saudáveis e refeições multiculturais. Com 23% de estudantes estrangeiros, a FCNAUP é hoje uma porta de entrada privilegiada para a ciência, a investigação e a inovação nutricional?
PG – O facto de sermos uma escola de nutrição de referência pesa muito e as coisas nunca são standard. Um bar ou uma cantina de uma faculdade de nutrição nunca é um bar nem uma cantina. Assim como uma clínica. Não é que aspiremos a ser melhores, mas temos de ser diferentes.

O nosso bar vai ser um laboratório onde se come, mas também onde se experimenta, porque o nutricionista tem de ser educado para o gosto. O nosso objetivo é que possamos ter, em permanência, alguns estudantes a colaborar connosco no bar. Temos de ter refeições de baixo custo e, para isso, concluiremos um protocolo com os nossos Serviços de Ação Social.
Um bom nutricionista trabalha com os alimentos e, se não tiver uma cultura alimentar, dificilmente é um nutricionista com qualidade. Abel Salazar dizia que “o médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe”. Eu diria que o nutricionista que só sabe de nutrição não é um bom nutricionista. Tem de saber de alimentos, porque os nutrientes estão dentro dos alimentos.
Quanto à multiculturalidade, a internacionalização não vai parar. Como se percebe, eles [estudantes estrangeiros] encontram um espaço ótimo: a vida em Portugal não é cara, comparativamente com outros sítios; é uma zona segura; temos respeito pelas pessoas, pela sua diversidade, pela maneira de ser; estamos num espaço verde com bons acessos, perto do aeroporto. Vamos continuar a ter estudantes internacionais e queremos cada vez mais. Queremos que se sintam bem e isso também significa o respeito que temos por aquilo que comem, pela sua cultura e a pela sua herança. 90% da comida será o dia a dia da vida portuguesa, mas temos a oportunidade de incluir [essa diversidade].
VS – Reuniram recentemente, num almoço com alumni, várias gerações de nutricionistas formados ao longo das últimas décadas. Que grupo encontrou?
PS – Com esta história de 50 anos, temos a felicidade de ter gente que atravessou todas as décadas [de existência da profissão]. As faculdades marcam muito a vida das pessoas – não se pode esquecer – e todos nós que trabalhamos em cursos de Nutrição temos de perceber que os anos em que os nossos estudantes estão cá são muito marcantes. Há amigos, pessoas que se veem pouco, mas que quando se veem, é como se conhecessem toda a sua vida. É muito interessante perceber isso.
Depois vemos o fruto da própria profissão, o percurso de cada um. A Nutrição está a permitir percursos muito diversos. Se calhar, a Enfermagem e a Medicina estão bem enquadradas, mas, na Nutrição, cada um teve de ir à procura do seu caminho. Houve sempre uma enorme diversidade de percursos: desde pessoas que abriram os seus próprios negócios até pessoas que trabalham por conta de outrem. Alguns saíram da profissão e voltaram mais tarde, outros deixaram-na.
Cada nutricionista é uma história. É malta resistente que continua a ser idealista. Sabemos que há muita gente a puxar [para determinados comportamentos ou narrativas], porque comemos mal. O nutricionista percebe essas forças e percebe que, para resistir, tem de ser um não alinhado, um idealista.
VS – Considera que “comer é um ato político” e que “mudar a paisagem alimentar é revolucionário”. Como balançar uma consciência coletiva ética e sustentável – para nós e para o planeta que habitamos – com uma sociedade globalizada que se alimenta mutuamente?
PG – Como é que podemos continuar a advogar uma alimentação saudável, justa para quem produz, ambientalmente equilibrada e acessível e, ao mesmo tempo, compatibilizá-la com uma máquina de produzir alimentos que tem acionistas e objetivos de lucro? E como é que o nutricionista, que é uma pecinha desta engrenagem, pode continuar a sentir-se parte ativa sem ser excluído?
Sabemos que a Indústria se mexe para se posicionar e fazer valer os seus objetivos. É válido. Eu, se fosse acionista, tentaria fazer o mesmo. Mas [é preciso perceber] que do outro lado está alguém que protege uma determinada causa: “Eu não estou alinhado convosco; como é que a gente se entende?”. É possível estabelecer pontes e não ficar completamente de lado.
Os nutricionistas, para se afirmarem, precisam de uma boa apresentação dos seus conflitos de interesse. Não há problema em assumirmos que, às vezes, não temos as mesmas ideias. Não nos vamos atacar e aqueles que têm interesses em comum [devem] criar networks.
Sinto cada vez mais isso com os mais jovens. Temos de juntar a alimentação às questões do ambiente. Os nossos estudantes estão muito preocupados com estas questões e temos de lhes dar a possibilidade de perguntar: “Como é que eu faço isso?”. Quando mudo a minha forma de comer, mudo o impacto que posso ter no ambiente.

Por exemplo, a Universidade do Algarve retirou a carne de vaca das suas ementas. Há posições diferentes e, se eu disser que apoio esta medida e explicar porquê, vou ter problemas. Mas não devemos ter receio nenhum de dizer que apoiamos determinadas decisões. É a partir do momento em que tornamos visível a nossa diferença que podemos ter, à nossa volta, muita gente que também a apoia.
Parte-se para o insulto, para a ameaça. Enquanto nutricionistas e docentes de uma faculdade, [temos de] defender aqueles que têm posições diferentes. Nós não somos neutros. Quando digo “comam menos carne”, assumo uma posição científica e política. Quando digo “paguem mais aos agricultores”, assumo uma posição política.
Uma profissão com pessoas a pensar de forma muito diferente é uma profissão superforte. Eu quero água engarrafada ou água da rede? É uma posição política. Na faculdade, nos nossos eventos, temos água da torneira. Quem vende água engarrafada pode não gostar… Não quero bebidas alcoólicas nas festas no interior da faculdade. É uma posição política de proteção da saúde.
VS – Para onde deve caminhar a FCNAUP nos próximos 50 anos? E a nutrição?
PG – A forma como comemos, produzimos, transportamos e utilizamos alimentos para fazer política vai ser completamente diferente. As alterações climáticas vão mudar muito a forma como comemos. A tecnologia vai ter de entrar fortemente e os nutricionistas, ou se conseguem afirmar como uma força que ajuda a resolver problemas nestas áreas, ou então vamos desaparecer. O ser humano vai precisar de sobreviver e todo o pensamento da boa nutrição é feito a partir do pressuposto da longevidade. Se não tiver esperança no futuro, eu não como bem.
Gostava que a FCNAUP plasmasse cada vez mais a cidade, que a conseguíssemos usar como um laboratório onde podemos influenciar as políticas e aquilo que se come. Depois, a partir da cidade, vamos para o país. É muito importante que a faculdade não tenha medo de, nos próximos anos, continuar a dar aqueles pontapés [de saída] mais difíceis. Nós temos uma grande autonomia e gostava que, cada vez mais, as outras instituições com cursos de Nutrição também a ganhassem. E autonomia significa responsabilidade.
Somos uma casa aberta. Nos corredores, falamos de tudo e mais alguma coisa sem constrangimentos. A faculdade continuar a ter esse ADN é manter a capacidade de se pensar, de se reconstruir, de se vestir com outras roupas. Neste mundo cruel, ser um espaço onde cada um pode dizer “quero ser diferente”.
Relacionamo-nos com todas as faculdades da Universidade do Porto, desde o Direito à Medicina, Farmácia, Engenharia, Belas-Artes e Letras. O mestrado em Ciências da Educação tem psicologia connosco, temos pessoas do jornalismo e vamos ter química dos alimentos com a Faculdade de Ciências. A comida é emoção – psicologia –, é produção alimentar – agricultura –, é saúde – medicina e medicina dentária.
Estamos a construir um livro com uma componente de pensamento, com pessoas mais antigas que estamos a tentar recolher, uma parte sobre a história da faculdade, e [uma outra onde] vamos falar do futuro.
Queremos trazer uma personalidade à faculdade e associar-nos a alguém que, nos últimos anos, nos tem ajudado a pensar, a podermos ser diferentes e a continuarmos a ser audíveis, a sermos vistos e a desenvolver o pensamento crítico: Marion Nestle.
Trata-se de uma figura norte-americana de 89 anos que foi professora da Universidade de Nova Iorque e que reconheceu como os consumidores eram sistematicamente pouco considerados na tomada de decisões das políticas públicas norte-americanas. É uma mulher muito política, apesar de nunca ter pertencido a nenhum partido. A faculdade nunca tinha proposto a atribuição de um doutoramento honoris causa, uma distinção reservada a personalidades que se destacam pela importância que têm na sociedade. Vamos atribuí-lo no dia 12 de novembro, na Universidade do Porto, pelas mãos do senhor reitor.




