
O conhecimento retrospetivo que o passado nos permite acumular desempenha um papel relevante aquando da construção do futuro. Com esta premissa, a Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP), que este ano celebra meio século do primeiro curso universitário de Nutrição em Portugal, apresenta uma exposição que espelha o peso inegável que esta instituição desempenhou e desempenha na definição, investigação e amplificação das Ciências da Nutrição no nosso país e além-fronteiras.
Aberta à comunidade (académica e não só), a mostra ‘50 anos de Pensamento em Nutrição: 76 obras desde 1976′ encontra-se nos pisos 0 e 1 da FCNAUP e permite que qualquer um aprecie as dezenas de relíquias que ali se encontram: de um acetato de trigo sublimemente desenhado por Emílio Peres – “o Pai da Nutrição em Portugal” – até aos projetos que, hoje, fazem a diferença na vida daqueles que se cruzam com os especialistas, docentes e alunos desta instituição pioneira e única no país.
Guiados pela nutricionista e Comissária das Comemorações dos 50 anos da FCNAUP, Sara Rodrigues, visitámos esta mostra que se mantém na “Casa da Nutrição” até dia 30 de outubro.
Anos 70: Estrutura e pioneirismo
Pouco depois da revolução de Abril, a Nutrição começou a cimentar ao seu saber pelo país: ao primeiro curso nesta área, na altura intitulado de Curso Superior de Nutricionismo, juntou-se, no mesmo ano de 1976, a criação do Centro de Estudos de Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e, em 1977, do Instituto de Qualidade Alimentar. Maria Daniel Vaz de Almeida, que viria a dirigir a FCNAUP, foi aluna do primeiro ano do inovador curso que tinha em Emílio Peres um professor acarinhado e reconhecido até hoje pela classe.
Norberto Teixeira dos Santos, outro dos diretores desta instituição que lhe concedeu honras de um auditório, conta com uma das mais interessantes obras disponibilizadas nesta década. Trata-se do livro “Avaliação nutricional da população infantil banto (0–5 anos) de uma zona suburbana da cidade de Lourenço Marques“, um marco para a avaliação nutricional em contexto de saúde pública, junto da população infantil moçambicana.
É nesta década que encontramos a primeira referência sistematizada da composição nutricional dos alimentos produzidos e consumidos em Portugal, reformulada a partir da 1.ª edição de 1961, assim como a primeira Roda dos Alimentos, datada de 1977. Francisco Gonçalves Ferreira, outro dos pilares da Nutrição no nosso país, assina a primeira reflexão estruturada sobre a necessidade de políticas integradas de alimentação e Nutrição no país. Em 1978, é concluída a primeira edição do curso, marcada pela formação dos primeiros bacharéis.
Anos 80: Ramificações e projeção
Enquanto a alimentação e a Nutrição se afirmam como áreas estratégicas para a saúde pública – nasce, em 1980, o Conselho Nacional de Alimentação e é registada, em 1982, a Associação Portuguesa dos Nutricionistas, hoje Associação Portuguesa de Nutrição (APN) -, a Escola da Nutrição do Porto cria a primeira Licenciatura em Ciências da Nutrição em 1987 e, dois anos depois, avança com o primeiro curso de Doutoramento nesta área.
Na mesa de exposição afeta a esta década, Sara Rodrigues destaca o primeiro livro de ‘Nutrição Humana’, escrito por Gonçalves Ferreira e financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, o que se traduz num claro exemplo da atenção institucional do tema. Mas também mediática, com a FCNAUP a destacar a celebração do Dia Mundial da Alimentação de 1983 com grande repercussão nos meios de comunicação social ou a participação continuada de Emílio Peres no programa ‘Saber Comer’ da rádio Antena 1.
O acetato de um trigo já mencionado integra esta década. O motivo viria posteriormente a ser adotado pela APN e pela Ordem dos Nutricionistas, afirmando-se como o símbolo máximo da Nutrição em Portugal. De 1988, chega-nos, por exemplo, um dos primeiros relatórios de estágio, da autoria de Flora Correia, ou o livro ‘Culinária Saudável‘, de 1985, que juntou Maria Daniel Vaz de Almeida a Rosa Castro para levar Nutrição aos lares.
Anos 90: Investigação e reconhecimento
Esta década é sobretudo marcada pela criação do Instituto Superior de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (ISCNAUP), que funcionou entre 1996 e 1999, quando se formalizou a atual designação de Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP). A Sociedade Portuguesa de Ciências da Nutrição e Alimentação (SPCNA) foi criada em 1993.
Desde a sua criação, o ISCNAUP/FCNAUP assumiu uma forte componente investigativa, ao participar em projetos europeus – ‘Consumer attitudes to food, nutrition and health‘ (1995-1997), ‘Consumer attitudes to health, weight and physical activity‘ (1996-1999), ou ‘EURODIET: towards public health nutrition strategies in the EU‘ (1999-2000) – nas áreas da Nutrição e da saúde pública, bem como em redes internacionais de cooperação e formação. Em Portugal, destacou-se pela colaboração no Estudo Nacional da Prevalência da Obesidade.
Paralelamente, desenvolveu uma relevante atividade de serviço à comunidade, através de parcerias institucionais e ações de formação dirigidas a manipuladores de alimentos. A dinamização científica e académica ganhou também expressão com a realização, em 1990, da I Semana Científica da Associação de Estudantes, iniciativa que deu origem a uma tradição de encontros científicos estudantis que perdura até aos dias de hoje.
Anos 2000: Inovação e proximidade
No novo milénio, que nos deu, por exemplo, o Livro Branco da Segurança Alimentar (2000), a Agência Europeia para a Segurança Alimentar (2002), o Plano Nacional de Combate à Obesidade (2005), a Plataforma Contra a Obesidade (2007) e a adesão ao Regime de Fruta Escolar (2009), a FCNAUP reforçou a sua capacidade científica e multiplicou a prestação de serviços à comunidade, fosse através dos seus estagiários, fosse junto de entidades públicas e privadas em prol da inovação alimentar ou ainda pela promoção de hábitos alimentares e de estilos de vida saudáveis.
De volta à exposição, Sara Rodrigues salienta que, pela primeira vez, houve uma procura em se debruçar, em Portugal, sobre o consumo alimentar fora de casa. Regista-se igualmente a obra ‘Comeres e Saberes da Beira Interior‘ como aposta no património gastronómico e regional, e ainda um trabalho de parceria com o Inatel que potenciou formação com impacto nacional nas áreas da higiene e da segurança alimentar.
Destaque para um lipocalibrador patenteado que permite medir a prega cutânea no braço, na perna e na barriga, para assim estimar a proporção da gordura corporal. Através da colaboração de Teresa Amaral com a Faculdade de Engenharia do Porto, onde a FCNAUP esteve alojada durante algum tempo, foi possível criar esta ferramenta, ainda hoje utilizada, ainda que numa versão mais moderna.
Anos 2010: Parcerias e Ciência
Foram anos decisivos para a visibilidade da profissão, que passou a ser regulada pela Ordem dos Nutricionistas (2010/2011) e a ver-se representada no Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (2012), na Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável (2017) e no II Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física e que viram a aposta regulatória em prol da saúde pública espelhada no Imposto Especial de Consumo sobre Bebidas Açucaradas ou nas restrições à publicidade de alimentos com elevado teor de sal, açúcar e gordura dirigida a menores de 16 anos. Surge também nesta década, no ano de 2015, a VIVER SAUDÁVEL, enquanto meio de comunicação social dirigido à classe.
Do contributo para a ciência nacional e internacional ao estreitar de relações com entidades como a DGS e a Câmara Municipal do Porto, passando ainda pela organização de dois congressos científicos internacionais e pela defesa da Dieta Mediterrânica – Património Cultural e Imaterial da Humanidade desde 2010 -, a FCNAUP cimentou a sua credibilidade com a alteração de estatutos em 2016 e, novamente, em 2019, para reforçar a sua governança académica e capacidade organizacional.
No piso 1, a exposição destaca o aparelhómetro iMC Salt, que teve Pedro Moreira como um dos responsáveis, e que consiste num doseador que disponibiliza a quantidade ideal de sal para os membros do agregado familiar. Os nutricionistas Pedro Graça, atual diretor da FCNAUP, João Breda e Patrícia Padrão são alguns dos autores dos projetos disponibilizados nesta mesa.
Anos 2020: Casa nova e data redonda
Foi em 2020 que a FCNAUP passou a contar com um edifício próprio, na Rua do Campo Alegre, junto à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, com quem, de resto, cria laços formativos. Já em dezembro de 2024, a instituição consolidou a sua capacidade científica, organizacional e de projeção externa com a aprovação do Regulamento Orgânico dos Serviços da FCNAUP.
Os últimos anos têm sido relevantes em áreas como a sustentabilidade – a estratégia europeia ‘Farm to Fork’ (2020) é um desígnio -, a inovação digital, a cooperação internacional – são vários os projetos de investigação com alcance internacional – e junto de entidades empresariais, da indústria alimentar, hospitalares ou mesmo de pontos-chave da cidade, como são o Mercado do Bolhão ou Museu Nacional Soares dos Reis. Trata-se, no fundo, de um abraço contínuo e apertado à Invicta, como explicou Pedro Graça em entrevista.
Na sexta e última mesa de exposição, Sara Rodrigues, Comissária das Comemorações dos 50 anos da FCNAUP, aponta livros de colegas como Ada Rocha, Carlos Damas e Cláudia Viegas – ‘Alimentação Individual e Coletiva’ (2024) – bem como de Maria Regina Vilela e Bruno Oliveira – ‘Bioestatística em Ciências da Nutrição’ (2021). Os ultraprocessados são cada vez mais um tema na ordem do dia e, por isso mesmo, o seu estudo faz também parte do ADN da instituição.
A “Casa da Nutrição”
O legado da FCNAUP é parte estrutural das Ciências da Nutrição e da profissão de Nutricionista em Portugal. A título de exemplo, e apesar de contarem com percursos profissionais distintos, todos os vencedores do prémio de ‘Nutricionista do Ano’ nos Prémios VIVER SAUDÁVEL – Alexandra Bento, Pedro Graça, Maria João Gregório, Ana Gabriela Cabilhas e João Breda – formaram-se nesta instituição.
Entrevista: FCNAUP quer fazer do Porto um laboratório e abraçar a comunidade
Esperam-se mais cinco décadas de inovação, investigação e, sobretudo, visão para esta área do saber. Até lá, e já neste ano letivo que agora começa, estão garantidos o arranque da primeira Clínica Universitária de Nutrição no país e de um bar-cantina de experimentação que levará a teoria para a cozinha, a que se junta o primeiro doutoramento Honoris Causa alguma vez proposto pela faculdade com vista a homenagear Marion Nestle.










