
Por Miguel Raimundo, médico especialista em Ginecologia e Obstetrícia e investigador e gestor na área da Procriação Medicamente Assistida
Quando as temperaturas sobem, uma das recomendações mais repetidas durante a gravidez é simples: beber mais água. É uma recomendação importante, mas não é a única.
Durante a gravidez, o organismo passa por várias adaptações. O volume de sangue aumenta, o coração trabalha mais e o metabolismo torna-se mais exigente. Estas alterações aumentam também as necessidades de hidratação e podem tornar o corpo mais sensível a períodos de temperaturas muito elevadas.
Quando o calor é intenso, sobretudo durante períodos prolongados ou em ambientes húmidos, pode tornar-se mais difícil dissipar o calor. É por isso que algumas grávidas podem sentir mais facilmente tonturas, dores de cabeça, quebras de tensão, cansaço, fraqueza ou mesmo desmaio.
A hidratação é, naturalmente, uma das principais medidas de prevenção. O ideal é beber água regularmente ao longo do dia, sem esperar por uma sensação intensa de sede. Em dias de maior calor ou com mais atividade física, as necessidades de líquidos podem aumentar. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as grávidas estão entre os grupos que devem ter uma atenção acrescida durante períodos de calor extremo.
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Mas há outro conceito importante quando falamos de gravidez e calor: a hipertermia.
A hipertermia ocorre quando a temperatura interna do organismo sobe de forma significativa e se mantém elevada durante algum tempo. Não basta, por isso, estar num ambiente quente. Na maioria das situações, o corpo consegue regular a temperatura através de mecanismos como a transpiração e a dissipação de calor. A preocupação surge quando esses mecanismos deixam de ser suficientes e a temperatura corporal aumenta de forma marcada e prolongada.
Este cuidado merece particular atenção no primeiro trimestre. Alguns estudos têm associado episódios significativos de hipertermia numa fase muito precoce da gravidez a um pequeno aumento do risco de algumas malformações, nomeadamente defeitos do tubo neural.
Isto não significa que uma grávida deva evitar sair à rua sempre que as temperaturas sobem. O principal cuidado passa por evitar situações que possam elevar a temperatura corporal de forma significativa e durante demasiado tempo, como saunas, jacuzzis muito quentes ou exercício físico intenso em ambientes de muito calor e humidade.
A atividade física pode manter-se durante os meses mais quentes, desde que não exista contraindicação médica. O ideal é adaptar a rotina às condições do dia, privilegiando as horas mais frescas, optando por locais bem ventilados ou climatizados para treinar, ajustando a intensidade do exercício, fazendo pausas sempre que necessário e mantendo uma hidratação regular.
Ir à piscina, ao mar ou tomar banho é, de forma geral, seguro durante a gravidez. Nos dias mais quentes, a água pode até ajudar a manter o conforto e a refrescar o corpo. Mantêm-se, naturalmente, os cuidados habituais com a exposição solar, a segurança e a hidratação.
A exposição a temperaturas muito elevadas durante a gravidez tem também sido estudada em relação a situações como baixo peso ao nascer, natimortalidade e algumas complicações maternas. Importa, contudo, interpretar estes dados com equilíbrio: tratam-se de associações observadas em grandes grupos populacionais e não de uma relação direta entre um episódio isolado de calor e uma complicação numa gravidez específica.
Em Portugal, a Direção Geral da Saúde inclui igualmente as grávidas entre os grupos que exigem maior atenção durante períodos de temperaturas elevadas. Na prática, os cuidados são simples: beber água regularmente, evitar longos períodos ao sol nas horas mais quentes, procurar locais frescos, usar roupa confortável e adaptar a atividade física às condições do dia.
Também é importante estar atenta aos sinais do organismo. Tonturas persistentes, desmaio, fraqueza intensa, confusão ou uma temperatura corporal muito elevada justificam avaliação médica.
No fundo, importa distinguir a temperatura que está no exterior daquilo que acontece dentro do organismo. Na gravidez, não é o calor da rua que chega diretamente ao bebé. O que importa é que o organismo materno consiga regular adequadamente a sua temperatura e manter uma boa hidratação.
Por isso, mesmo durante uma onda de calor, a recomendação não passa por criar restrições excessivas. Passa sobretudo por adaptar algumas rotinas, manter uma boa hidratação e evitar situações capazes de aumentar demasiado a temperatura corporal.




