Água não é ‘só’ H2O: hidratar ‘só’ não basta

Por Conceição Calhau, professora catedrática de Bioquímica da NOVA Medical School (Universidade NOVA de Lisboa) e nutricionista clínica (0572N). “Não há conflitos a declarar mas há todo o interesse na atualização do conhecimento e na partilha dos avanços que a ciência traz à saúde e à longevidade. Declaro-me membro do Conselho Consultivo da APIAM.”

 

Há uma forma estranha de iliteracia nutricional que atravessa consultas, hospitais, escolas e recomendações públicas: falamos de água como se fosse ‘apenas’ H₂O. Não é. A água é alimento. E, como qualquer alimento, tem composição, matriz, origem, diversidade, adequação e contexto clínico.

A hidratação continua a ser tratada como um conselho higiénico, quase infantil: “beba mais água”, quase como quando ouvimos dizer ‘pelo menos come a carne’. Mas os dados portugueses mostram que estamos a falhar, mas também a ignorar o óbvio: o IAN-AF 2015–2016, há 10 anos, revelou que a população portuguesa bebe, em média, menos de 1 litro por dia de água como bebida; nas crianças, o valor médio fica abaixo de 500 ml/dia, cerca de 432 ml/dia. Nos adultos, o valor médio ronda 956 ml/dia. Mesmo considerando a água total proveniente de alimentos e bebidas, ficamos frequentemente aquém do que seria desejável para muitos, sobretudo em dias quentes, sobretudo em idosos, em doentes polimedicados, em crianças e em quem trabalha em ambientes de maior exigência térmica ou cognitiva.

A EFSA define ingestões adequadas de água total de 2,0 L/dia para mulheres adultas e 2,5 L/dia para homens adultos, incluindo água de bebidas e alimentos; cerca de 70–80% deverá vir de bebidas . Isto não significa que todos tenham de beber “oito copos” por decreto. Significa, sim, que a hidratação deve ser avaliada como se avalia proteína, ferro, cálcio, fibra ou sódio: com literacia, individualização e consequência clínica. Aliás, não será difícil compreender que hoje já falamos muito mais de personalização, precisão, pelo que recomendações populacionais são importantes do ponto de vista de saúde pública, mas nem sempre na clínica: podemos recomendar quantidades de acordo com idade, temperatura ambiente, calorias ingeridas, etc.  Mais, será que basta beber água e ficamos, de facto, hidratados?

 

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A água é um alimento, está no centro da roda dos alimentos Portuguesa, alimento, e por isso importa a sua composição nutricional e até o seu microbioma, no fundo a sua identidade. Quando falamos de água da torneira em Portugal é, em regra, segura. Em 2024, a “água segura” na torneira do consumidor atingiu 98,86% em Portugal continental, segundo dados reportados pela ERSAR. Mas segurança microbiológica e química não é o mesmo que valor nutricional. Não estamos a colocar em causa se é potável. Esta distinção é essencial. Uma água pode cumprir todos os parâmetros legais e, ainda assim, ter uma mineralização muito baixa, ter um interesse clínico maior ou menor. Outra pode fornecer quantidades relevantes de cálcio, magnésio, sílica, bicarbonato ou sódio. E isso importa. Sim, pode ter sódio mas não ser na forma de cloreto de sódio, e isso faz toda a diferença, por exemplo no potencial impacto na pressão arterial. Mito que a investigação clínica já desfez. Atualmente até o microbioma da água constitui variável relevante e diferenciadora.

Recomendar “água da torneira” como se fosse uma entidade única é cientificamente pobre. A água de Bragança não será igual à água de Lisboa, à de Évora nem do Porto, a de uma rede antiga não é a de uma nascente, a de uma zona granítica não é a de uma zona calcária. Cada água tem uma impressão digital química, biológica e microbiológica. Dureza, resíduo seco, cálcio, magnésio, sódio, bicarbonato, fluoreto, pH, microbioma: estes parâmetros não são detalhes de rótulo, são composição nutricional.

A Organização Mundial da Saúde tem discutido há vários anos a relevância do cálcio e do magnésio na água de consumo, sublinhando que minerais dissolvidos na água podem contribuir para a ingestão diária e são geralmente bem absorvidos. Isto não transforma a água mineral numa panaceia, nem autoriza slogans comerciais disfarçados de ciência. Mas obriga-nos a abandonar a ideia de que todas as águas são nutricionalmente equivalentes.

A água com maior teor de cálcio pode ser útil em populações com ingestão baixa de cálcio. Água rica em magnésio pode ter interesse quando a dieta é pobre neste mineral. Águas bicarbonatadas podem modificar parâmetros urinários e ácido-base em contextos específicos. Águas ricas em sódio podem não ser adequadas para pessoas com hipertensão, insuficiência cardíaca ou doença renal. Águas ricas em sílica, mostra a evidência científica que é importante fator de prevenção para demência, para doença de Alzheimer. Ou seja: a água também se prescreve.

Nutricionista: Sonho de Profissão, Profissão de Sonho

Há ainda outro ponto que os profissionais de saúde não podem continuar a ignorar: o cérebro é particularmente sensível ao estado de hidratação. Uma revisão de David Benton, publicada na revista Nutrients em 2011, já alertava para a plausibilidade de efeitos da desidratação no humor e na cognição, com evidência mais consistente em crianças e maior vulnerabilidade potencial em idosos. Estudos posteriores reforçaram que a hidratação pode influenciar atenção sustentada, fadiga, vigilância, memória de curto prazo e humor, embora os efeitos dependam da idade, do grau de desidratação, do calor, da atividade física e da metodologia usada.

Nos idosos, a questão é particularmente crítica. O envelhecimento associa-se a menor sensação de sede, alterações da função renal, maior carga medicamentosa e maior risco de desidratação ou desequilíbrios eletrolíticos. Uma revisão de 2023 resume bem o problema: a desidratação em idosos é frequente, subdiagnosticada e associada a piores resultados clínicos, incluindo internamentos, mortalidade e deterioração funcional. Em crianças, o problema é outro: dependem dos adultos para aceder à água, muitas vezes bebem pouco durante o dia escolar e podem apresentar melhoria de atenção e memória após ingestão de água em estudos de intervenção.

No desporto de elite, a hidratação já deixou de ser folclore. O Mundial de Futebol de 2026 tornou as pausas de hidratação uma decisão institucional: três minutos a meio de cada parte, em todos os jogos, independentemente das condições meteorológicas, como medida de proteção dos jogadores. Podemos discutir se a regra é excessiva ou insuficiente. Mas o sinal é claro: calor, hidratação, performance e decisão já não são temas periféricos. Existe já evidência científica que sustenta o interesse na mineralização das águas, pois este parâmetro interfere na recuperação da força muscular, recuperação da capacidade aeróbia e eventual redução de alguns marcadores de lesão muscular.

Curiosamente, aquilo que aceitamos para atletas de elite ignoramos em hospitais, lares, escolas, urgências, consultas e enfermarias. Sabemos perguntar por fármacos, suplementos, álcool e tabaco. Raramente perguntamos, com rigor, que água bebe, quanto bebe, quando bebe e que mineralização tem essa água.

No verão, esta negligência torna-se mais visível. Mas o problema não é sazonal. É cultural e clínico. Hidratamos mal porque pensamos mal a água. Reduzimo-la a veículo, quando é alimento. Reduzimo-la a volume, quando também é composição. Reduzimo-la a segurança, quando também pode ter relevância nutricional. Reduzimo-la a H₂O, quando há muito mais química, física e microbiologia. Apesar de repetirmos alguma coisa que algum dia ouvimos: somos 70% água. Diria: depende! Até se tens mais massa muscular ou tecido adiposo. Depende da quantidade e qualidade do que ingeres.

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A provocação é simples: talvez esteja na altura de os profissionais de saúde deixarem de perguntar apenas “bebe água?” e começarem a perguntar “que água bebe?”. Não para medicalizar o copo de água. Mas para devolver ciência a um gesto básico que, precisamente por ser básico, tem sido tratado com demasiada ligeireza.

A hidratação não é uma moda de verão. É fisiologia. É cognição. É rim. É pressão arterial. É termorregulação. É aprendizagem. É envelhecimento. É performance. E é nutrição e, por tudo isto, é saúde.

 

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