A terceira edição da Ana Lázaro – Bolsa de Investigação em Cancro, no valor de 70 mil euros, foi entregue a João Conde e Isabel Fernandes, investigadores da NOVA Medical School, com o projeto PediCancerGel, uma nova plataforma terapêutica intranasal para o tratamento do cancro cerebral pediátrico.
O projeto vencedor propõe uma abordagem inovadora ao tratamento do meduloblastoma, o tumor cerebral maligno mais comum em idade pediátrica, que continua associado a maus resultados clínicos nos doentes de alto risco ou em recaída. Atualmente, o tratamento combina cirurgia, radioterapia e quimioterapia, que obrigam a doses elevadas de fármacos para ultrapassar a barreira hematoencefálica e atingir o cérebro.
Como consequência, este tratamento expõe as crianças a uma toxicidade significativa, numa fase em que o cérebro ainda está em desenvolvimento. Entre os sobreviventes, são frequentes sequelas duradouras, que limitam irreversivelmente o desenvolvimento neurocognitivo, assim como disfunção endócrina, o que resulta em perda de qualidade de vida. Estas limitações refletem um problema fundamental de entrega do medicamento ao cérebro de forma eficaz e não a falta de agentes terapêuticos ativos.
O PediCancerGel foi desenhado para contornar estes obstáculos. A plataforma consiste num nanogel intranasal mucoadesivo e termorresponsivo, que permite a libertação prolongada de nanopartículas que transportam fármacos dirigidos ao tumor no cérebro. Este processo explora as vias olfativa e trigeminal que permitem contornar a barreira hematoencefálica e reduzir a exposição aos medicamentos. O hidrogel permite uma administração repetida, não invasiva e mais localizada. As nanopartículas protegem a carga terapêutica, favorecem a entrada dos fármacos nas células tumorais e direcionam-se seletivamente para as células tumorais.
“Este projeto propõe uma abordagem inovadora para fazer chegar o tratamento ao cérebro de forma mais eficaz, localizada e segura, sem as consequências da radio e quimioterapia. Será um passo de extrema importância para as crianças e respetivas famílias”, explica, em comunicado, João Conde.
“O meduloblastoma continua a ser um dos tumores pediátricos mais difíceis de tratar. A via intranasal pode permitir uma administração menos invasiva e uma ação mais localizada no cérebro”, afirma Isabel Fernandes.
Estudos pré-clínicos já realizados demonstraram os benefícios deste tratamento inovador quando comparados com a quimioterapia convencional, como uma biodistribuição cerebral eficaz, a inibição significativa do crescimento tumoral e menor exposição ao tratamento.
Com os 70 mil euros da bolsa, este projeto irá concluir a validação pré-clínica de nível regulamentar, a toxicologia e o planeamento translacional para fazer avançar o PediCancerGel em direção aos primeiros ensaios clínicos em crianças.
O trabalho foi selecionado de entre 10 candidaturas, num processo em que o júri destacou unanimemente a elevada qualidade científica das propostas apresentadas. As candidaturas avaliadas em 2026 abrangeram um amplo espectro da investigação translacional em cancro, refletindo a crescente integração entre investigação biomédica e desenvolvimento de novas estratégias de diagnóstico e tratamento na NOVA Medical School.
As propostas centraram-se na compreensão dos mecanismos biológicos associados à progressão tumoral, resistência terapêutica e interação entre o tumor e o seu microambiente, bem como na identificação de biomarcadores preditivos e prognósticos e no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas.
Ana Lázaro – Bolsa de Investigação em Cancro
É uma iniciativa da NOVA Medical School que reconhece e apoia projetos que juntam equipas biomédicas e clínicas para acelerar a aplicação de descobertas laboratoriais na prática médica, promovendo benefícios reais para os doentes. A bolsa é financiada pela família da bailarina e coreógrafa espanhola Ana Lázaro, que deixou parte do seu legado à ciência, com o propósito de promover avanços significativos no combate ao cancro.
A Ana Lázaro – Bolsa de Investigação em Cancro tem um orçamento total de 210 mil euros, distribuído entre 2024 e 2026 por três projetos (um por ano).
Na primeira edição, o vencedor foi o projeto “MiRNA profiling in early stage and metastatic uterine carcinosarcoma”, de Ana Félix e Susana Silva, que visa identificar biomarcadores para diagnóstico, prognóstico e tratamento mais eficazes em casos de carcinosarcoma do útero. Em 2025, a bolsa distinguiu o projeto “Targeting Ferroptosis to Remodel the Immune Microenvironment in Triple-Negative Breast Cancer”, de Raffaella Gozzelino e Sofia Braga, dedicado ao estudo de novas terapias de precisão para o cancro de mama triplo negativo em populações de mulheres africanas sub-representadas.




