“A IA pode apoiar decisões nutricionais, mas não substituir a compreensão humana”

Nos próximos 25 anos, a Nutrição será chamada a alimentar mais pessoas, com menor pressão sobre os recursos naturais, respondendo às doenças crónicas sem deixar que a tecnologia substitua a dimensão humana do comportamento alimentar.

A conferência ‘O futuro da Nutrição e Alimentação – os próximos 25 anos!’, integrada no XXV Congresso de Nutrição e Alimentação (CNA), organizado pela Associação Portuguesa de Nutrição (APN), nos dias 28 e 29 de maio, na Alfândega do Porto, teve como orador o nutricionista João Breda, da Organização Mundial da Saúde (OMS). Com participação à distância e moderação da também nutricionista Helena Real, da APN, a sessão olhou para o futuro da profissão a partir de uma perspetiva global, cruzando saúde pública, sustentabilidade, inovação alimentar, gastronomia, cuidados de saúde primários e inteligência artificial (IA).

Uma crise global de saúde e sustentabilidade

O ponto de partida foi claro: “A má nutrição mata quase 8 milhões de pessoas por ano”. A alimentação inadequada é hoje uma das principais ameaças à saúde global, enquanto os sistemas alimentares enfrentam pressões ambientais, económicas e demográficas crescentes.

Até 2050, estima-se que “a população mundial chegue aos 9,6 mil milhões de habitantes”. Para responder a esse crescimento, “a produção de géneros alimentícios terá de aumentar cerca de 70%”, num contexto de “pressão sobre os recursos naturais disponíveis”. O problema não está apenas na quantidade de alimentos a produzir, mas no modo como são produzidos, distribuídos e consumidos.

Já se pode candidatar aos Prémios VIVER SAUDÁVEL 2026

Distinguido com o prémio ‘Nutricionista do Ano’ nos Prémios VIVER SAUDÁVEL 2025, João Breda colocou a alimentação no centro da sustentabilidade. Na Europa, o consumo alimentar surge como um dos principais contributos para o aquecimento global, com 31%, ultrapassando setores como a habitação (23,6%) e os transportes (18,5%). A alimentação deixa, assim, de ser apenas uma escolha individual para se afirmar como questão coletiva.

A pressão sobre os sistemas alimentares torna-se ainda mais evidente quando se olha para o consumo de carne e lacticínios. “O consumo de carne cresceu globalmente de 20 kg para 43 kg por pessoa por ano entre 1961 e 2014”, ilustrou.

Novas fontes, novas tecnologias, novos pratos

Perante este cenário, a inovação alimentar surge como uma das respostas possíveis. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) identificou 44 inovações alimentares emergentes com potencial para alterar a disponibilidade alimentar nas próximas décadas. Entre elas estão “novos métodos de produção”, “fontes de proteína alternativa” e “tecnologias alimentares adaptativas”. Carne cultivada, proteínas produzidas por fermentação, dietas à base de plantas, algas e alimentos de culturas subutilizadas foram apresentados como componentes relevantes da alimentação até 2050.

A tecnologia deverá também transformar a produção. A agricultura vertical, a hidroponia e outros modelos de agricultura controlada podem “aumentar a produtividade” e “reduzir o uso de água e terra”, sendo apontados como soluções viáveis para “alimentar populações urbanas futuras”. Ferramentas como blockchain, robótica e biotecnologia “serão fundamentais para a rastreabilidade, reduzir desperdício e garantir segurança alimentar ao longo da cadeia”.

Mas o futuro não será apenas tecnológico. Também a gastronomia será convocada. Técnicas culinárias avançadas como a gastronomia molecular, as fermentações controladas e o design sensorial “serão cada vez mais influenciadas pela ciência alimentar e pela tecnologia”. Ao mesmo tempo, dietas ajustadas a dados individuais de saúde, numa lógica de nutrição personalizada, poderão marcar a ‘gastronomia do futuro’.

Discussão contou com moderação da nutricionista Helena Real

Nesse caminho, a sustentabilidade terá de entrar no prato. A dieta planetária, proposta pela Comissão EAT-Lancet, aponta para uma mudança global: “o dobro das frutas, vegetais, leguminosas e frutos oleaginosos” e “metade da carne vermelha e açúcar”. A meta é dupla: promover dietas saudáveis e assegurar uma produção alimentar sustentável.

Recomendações conhecidas, desafios persistentes

Apesar da inovação, o futuro da Nutrição continuará ancorado em recomendações básicas que permanecem difíceis de cumprir. A OMS recomenda menos de 5 g de sal por dia, menos de 10% da energia proveniente de açúcares livres – idealmente abaixo de 5% – e desaconselha o uso de adoçantes não açucarados como estratégia para controlar o peso ou reduzir o risco de doenças crónicas não transmissíveis.

Nas gorduras, a recomendação passa por limitar a ingestão total a 30% ou menos da energia diária, mantendo as gorduras saturadas abaixo de 10% e as gorduras trans abaixo de 1%. Nos hidratos de carbono, a orientação reforça o papel dos cereais integrais, vegetais, frutas e leguminosas, com pelo menos 400 g de hortícolas e fruta e 25 g de fibra por dia.

Também o álcool foi integrado nesta leitura do risco nutricional. “A evidência recente associa o consumo frequente e elevado de álcool à obesidade abdominal, resistência à insulina e aumento do risco cardiometabólico”, registou João Breda.

Cuidados primários na linha da frente

Outro eixo central foi o papel dos cuidados de saúde primários. A obesidade e outras doenças relacionadas com a alimentação estão entre as doenças crónicas mais prevalentes, tornando os cuidados primários “a linha da frente” para responder a esta realidade.

Prevenção à mesa do poder: o papel da Nutrição na decisão política

Nos últimos anos, a evidência tem identificado intervenções eficazes neste contexto: aconselhamento estruturado de estilo de vida, estratégias comportamentais, terapêuticas farmacológicas, ferramentas digitais e modelos organizados de comunicação clínica. Mesmo os cuidados habituais produzem perdas de peso modestas, sugerindo que “uma intervenção mínima é melhor do que nenhuma intervenção”.

As abordagens devem combinar várias modalidades e trabalho em equipa. “As intervenções mais eficazes nos cuidados primários combinam múltiplas modalidades”, foi uma das mensagens da conferência. A teleconsulta e a monitorização remota, que ganharam relevância durante a pandemia de covid-19, “deverão manter-se como parte da prática standard”.

Simultaneamente, é indispensável combater o estigma da obesidade nos próprios cuidados de saúde. Pessoas com obesidade relatam frequentemente sentir-se “julgadas, desvalorizadas ou culpabilizadas” durante os contactos com os profissionais, o que pode levar ao adiamento ou à evitação dos cuidados médicos.

Na infância, as melhores intervenções passam por monitorização do crescimento, aconselhamento de estilo de vida, envolvimento parental, apoio nutricional precoce e respostas multicomponentes nos cuidados primários. A prevenção começa cedo e exige continuidade.

Até onde pode a IA chegar?

A IA será uma das grandes tendências da Nutrição. Pode melhorar a avaliação alimentar, a nutrição personalizada e a monitorização metabólica através de ferramentas como machine learning, wearables e reconhecimento de imagem. Pode, ainda, acelerar a descoberta de novos alimentos e produtos nutricionais, otimizando sabor e sustentabilidade.

O congresso que reuniu uma profissão: 25 anos do CNA

Mas João Breda deixou uma advertência: “A IA deve assistir, não substituir, a experiência profissional”. Os riscos são claros: viés algorítmico, baixa representatividade cultural, privacidade dos dados, falta de transparência e dependência excessiva da tecnologia.

A mensagem final é talvez a mais importante: “A IA pode apoiar decisões nutricionais, mas não pode substituir a compreensão humana por detrás do comportamento alimentar”. Por mais sofisticados que sejam os algoritmos, comer continuará a ser uma experiência profundamente humana, marcada por biologia, cultura, emoções, contexto social e escolhas quotidianas.

O futuro da Nutrição exigirá, por isso, profissionais capazes de trabalhar com ciência, tecnologia e sustentabilidade, mas também com proximidade, ética e compreensão do comportamento humano. Nos próximos 25 anos, a profissão terá de ajudar a alimentar o planeta sem perder de vista cada pessoa.