Durante 25 anos, o Congresso de Nutrição e Alimentação (CNA), promovido pela Associação Portuguesa de Nutrição (APN) – designada Associação Portuguesa dos Nutricionistas entre 1982 e 2017 –, acompanhou o crescimento da profissão de nutricionista em Portugal e afirmou-se como um dos seus principais espaços de encontro, reflexão científica e projeção pública. Na edição deste ano, que decorreu nos dias 28 e 29 de maio, na Alfândega do Porto, a sessão “Memórias à mesa: 25 anos do CNA” revisitou esse percurso, juntando quatro protagonistas ligadas à organização do evento: Alexandra Bento, Helena Ávila, Célia Craveiro e Liliana Ferreira.
Moderada por Catherine Pereira, assessora de comunicação e apresentadora, a conversa cruzou memória, balanço e futuro. De um congresso que nasceu da necessidade de dar palco científico à Nutrição, até à presente edição, que atingiu 1.700 inscrições, o CNA foi descrito como muito mais do que um evento anual. Foi apresentado como espaço de afirmação, de reencontro, de reconhecimento e de partilha entre gerações.
Quando a profissão precisava de um palco
A origem do congresso foi recordada por Alexandra Bento, presidente da APN entre 1998 e 2011. Olhando para trás, a primeira bastonária da Ordem dos Nutricionistas (ON) explicou que o CNA surgiu porque “se pressentiu a necessidade” de criar um espaço próprio para a ciência e para a profissão.
Antes do congresso, tinham existido duas edições do Encontro Nacional dos Nutricionistas, em Monfortinho e no Vimeiro. O primeiro, reviveu, teve uma “energia imensa”, num tempo em que a profissão ainda era numericamente reduzida. “Provavelmente, naquela altura, não seríamos mais de 400 nutricionistas”, assinalou, sendo que “mais de 200 participaram nesse encontro”. O momento mostrou a força de reunir profissionais, discutir temas internos e, simultaneamente, abrir espaço à ciência.
“A modulação da oferta alimentar representa uma estratégia relevante na promoção da saúde pública”
A partir daí, tornou-se evidente “a necessidade de separar momentos de discussão profissional de momentos científicos capazes de dar dimensão às Ciências da Nutrição”. Já nesse período existia o “desejo de criação da ON”, mas também a consciência de que esse caminho exigia “crescimento científico, público e mediático”.
O modelo inicial do congresso foi, por isso, pensado com ambição. Discutiu-se o nome, a organização temática, a duração, a existência de comunicações orais e o papel dos mais jovens. O facto de muitos desses elementos se manterem até hoje é, para Alexandra Bento, sinal de que a aposta foi ganha, considerando que a primeira fase deixou “uma marca interessantíssima para as gerações seguintes”.
Crescer, consolidar e reorganizar
Helena Ávila, também antiga presidente da APN (2011-2014), deu continuidade a essa leitura histórica. Quando assumiu a direção, após a saída de Alexandra Bento para a ON, recebeu um congresso em crescimento e com uma dimensão cada vez mais exigente.
“Aquilo que até então tinha vindo a acontecer era um crescimento em contínuo, principalmente do número de participantes”, lembrou. Atingir a fasquia dos mil congressistas, nesse período, foi um “marco muito significativo”. Mas o crescimento não se fez apenas em número. Fez-se também na qualidade dos palestrantes, na presença de figuras relevantes nas sessões de abertura e na perceção crescente de que o congresso se tornara um “espaço incontornável” para as Ciências da Nutrição.
Essa evolução obrigou a mudanças internas. A presidente do Conselho de Especialidade de Alimentação Coletiva e Restauração da ON salientou que a dimensão alcançada pelo congresso tornou necessário reestruturar a própria dinâmica organizacional, quer da APN, quer do CNA. A consolidação também passou por uma preocupação constante com a qualidade científica. Segundo Helena Ávila, “o contributo da comissão científica, designadamente do professor Nuno Borges, foi determinante para garantir segurança e robustez ao programa”. Destacou ainda o papel dos muitos palestrantes que, ao longo dos anos, responderam afirmativamente aos convites e aceitaram desafios nem sempre simples. As apresentações científicas “dão bastante trabalho”, reconheceu, sublinhando o “contributo pro bono de muitos colegas” para o sucesso do congresso.
A máquina invisível da organização
Se para muitos participantes o congresso surge como um momento natural no calendário profissional, para quem o organiza há uma dimensão menos visível, mas decisiva. Célia Craveiro, que presidiu à APN desde 2014 até março de 2026, abordou esse lado mais exigente.
“Isto dá um trabalhão!”, desabafou, ao descrever a organização como uma tarefa feita de muitos detalhes, muitas pessoas e muitas responsabilidades. A montagem de um congresso desta dimensão envolve programa científico, momentos institucionais, orçamentos, secretariado, audiovisuais, catering, espaços de exposição e múltiplos parceiros. É, nas suas palavras, uma estrutura “intrincada”, que muitas vezes deixa os organizadores “assoberbados” com a quantidade de decisões a tomar.
Mas essa complexidade tem uma razão de ser. Para Célia Craveiro, o congresso espelha muito do trabalho que a APN desenvolve ao longo do ano. Não é apenas um evento dos associados, nem apenas da associação. É um local onde se cruzam corpos sociais, equipa técnica, parceiros institucionais, profissionais de diferentes áreas e participantes que encontram no CNA um espaço de atualização, contacto e pertença.
Grande Entrevista: “Estamos num ponto sem retorno relativamente à profissão de nutricionista”
A nutricionista realçou que o congresso tem servido também para apresentar os projetos, manuais técnicos, e-books, estudos e programas de apoio à comunidade da APN, a par de momentos institucionais relevantes. Foi no CNA, por exemplo, que se lançou a Acta Portuguesa de Nutrição. “Este é o maior palco atual que temos”, sustentou, certa de que aquilo que é apresentado no congresso pode gerar contactos, projetos e desenvolvimentos futuros.
Um “palco seguro” para os mais jovens
Uma das marcas mais sublinhadas ao longo da mesa-redonda foi a capacidade do CNA para “acolher de forma exemplar” estudantes e jovens profissionais. Helena Ávila indicou que esse tem sido “um dos grandes segredos do congresso”: conseguir conciliar quem já tem muitos anos de percurso com quem está a começar, proporcionando um ambiente favorável para apresentar trabalhos, conhecer colegas e ganhar confiança.
Liliana Ferreira, que assumiu a presidência da APN no passado dia 14 de março, falou a partir da sua experiência pessoal. Para a também copresidente da comissão organizadora desta edição, juntamente com Célia Craveiro, o CNA foi o primeiro palco de divulgação científica há 14 anos. Por isso, reconhece no congresso uma dimensão formativa e simbólica muito particular. “É um palco seguro”, assegurou, onde os mais jovens podem “partilhar ciência de uma forma tranquila”, sendo avaliados por pares com um “contributo positivo para o seu percurso”.
Num tempo em que as novas gerações são profundamente digitalizadas, a nutricionista mencionou a importância de adaptar ferramentas e linguagens. A aplicação móvel do congresso, o ambiente digital e novas formas de interação fazem parte desse caminho. Mas a presencialidade mantém um valor insubstituível. Depois da experiência online durante a pandemia de covid-19, o regresso ao formato presencial revelou, na sua leitura, uma vontade forte de reencontro. E essa vontade não se limitou aos profissionais mais experientes. Também os mais jovens, observou, beneficiam desse contacto direto, até porque a profissão exige relação humana. “Somos uma profissão que trabalha com pessoas e, se não soubermos comunicar, fica mais complicado”, defendeu.
O valor da presencialidade cruzou-se, ao longo da conversa, com outra ideia recorrente: o congresso como espaço de (re)encontro. Alexandra Bento foi particularmente incisiva ao declarar que o CNA é “o grande palco de afirmação da profissão através da ciência e da reunião entre pares”. Para estudantes e jovens profissionais, frisou, a entrada no congresso permite contactar com uma identidade profissional “nivelada pelo melhor”, construída em diálogo com outras áreas. É também por isso que o CNA se afirmou como espaço de multidisciplinaridade e networking, reunindo nutricionistas, profissionais da saúde, representantes do setor agroalimentar, académicos e parceiros institucionais.
Afirmação pública, reconhecimento e “ondas de repercussão”
Desde os primeiros anos, o CNA procurou afirmar-se também fora do espaço estritamente profissional. Alexandra Bento notou que, há 25 anos, a comunicação tinha um peso diferente, mas a direção da APN já a via como “estratégica”. Logo na edição de estreia, no Luso, houve presença da comunicação social. A partir daí, o congresso passou a ser um “espaço mediático de divulgação de ciência”.
A preocupação era clara: colocar a Nutrição na ordem do dia, levar temas científicos ao espaço público e dar visibilidade à profissão. Ao mesmo tempo, o congresso abriu portas à internacionalização, com momentos conjuntos com os seus congéneres ibero-americanos. O objetivo, sintetizou, manteve-se constante: “Comunicar ciência, engrandecer a Nutrição e a profissão”.
O CNA foi ainda palco de momentos marcantes. Alexandra Bento recordou que foi neste congresso que se anunciou o parecer positivo do Governo para a criação da ON. Para a antiga bastonária, esse episódio demonstra como o evento se tornou um “palco público de afirmação e reconhecimento da nossa profissão”.
Mas esse reconhecimento não se fez apenas para fora. Fez-se também para dentro, valorizando quem ajudou a construir a Nutrição em Portugal. A interveniente evocou uma memória que guarda “com um gratíssimo prazer”: a homenagem ao médico Emílio Peres, considerado por muitos como o ‘pai dos nutricionistas portugueses’, realizada na segunda edição, em 2003. Foi, nas suas palavras, “um momento absolutamente crucial” e um exemplo do que o congresso pode representar enquanto “espaço de gratidão institucional e profissional”. “Se posso dar um conselho para o futuro é que intensifiquem esse espaço de reconhecimento”, rematou.
Helena Ávila acrescentou que o impacto do CNA “não termina no seu segundo dia”. Muitos temas debatidos acabam por surgir noutros congressos e fóruns, em projetos comunitários e locais de trabalho. “Este é um congresso que depois continua durante o restante tempo até ao início do próximo congresso”, testemunhou, descrevendo esse efeito como “ondas de repercussão”.
Futuro sem perder a alma
A edição dos 25 anos chegou a um novo máximo: 1.700 inscrições. Para Liliana Ferreira, este crescimento é motivo de satisfação, mas também obriga a pensar os próximos passos. A dimensão atual limita, desde logo, a possibilidade de realizar o congresso em muitas cidades do país. “Neste momento, temos uma dimensão que não cabe literalmente em muitos lugares”, anotou.
O futuro poderá passar por reforçar a internacionalização, por novos formatos ou por uma reflexão sobre o equilíbrio entre abrangência e especialização. A presidente da APN admitiu que o modelo atual, por ser suficientemente amplo para acolher muitos temas, pode não responder sempre a quem procura formação muito específica numa determinada área. Ainda assim, deixou claro que qualquer evolução terá de preservar aquilo que sempre pautou o congresso: “Manter este espaço de partilha científica rigorosa e de qualidade”.
Na parte final da mesa-redonda, as convidadas foram desafiadas a definir o congresso numa palavra e a identificar aquilo que nunca pode mudar. Alexandra Bento elegeu “ciência e reunião”. Helena Ávila optou por “futuro”, classificando o CNA como “um dos blocos de ADN mais fortes da profissão”. Célia Craveiro falou em “marco”, no calendário da APN, da profissão e da Nutrição em Portugal. Liliana Ferreira escolheu “partilha”, pelo que representa enquanto “espaço de ciência, experiências e diálogo entre gerações”. Quanto ao que deve permanecer, as respostas convergiram. O “espírito”, o “carisma”, a “alma”, a “dinâmica entre colegas” e o “facto de ser um ponto de confluência” foram apontados como elementos essenciais.
Aos 25 anos, o CNA continua a cumprir a função que esteve na sua origem: reunir a profissão, dar palco à ciência e projetar novos caminhos para a Nutrição e a Alimentação.
O portal VIVER SAUDÁVEL publicará, todas as terças-feiras, até 21 de julho, artigos especiais de cobertura do CNA 2026.




