Grande Entrevista: “Estamos num ponto sem retorno relativamente à profissão de nutricionista”

Liliana Sousa acredita que a profissão de nutricionista entrou numa fase de afirmação irreversível. Em entrevista ao portal VIVER SAUDÁVEL, a bastonária da Ordem dos Nutricionistas (ON) faz o balanço dos principais dossiers do mandato, dos estágios profissionais ao exercício ilegal, passando pela revisão do Código Deontológico, pela criação de novas especialidades e pela necessidade de reforçar a presença dos nutricionistas nas escolas, nas autarquias, nos cuidados de saúde primários e em respostas de emergência.

VIVER SAUDÁVEL (VS) – Na nossa anterior entrevista, em outubro de 2024, quando fazia o balanço do seu primeiro ano de mandato, identificou duas grandes angústias: os estágios profissionais de acesso à profissão e o exercício ilegal. Um ano e meio depois, que evolução registaram estes temas?

Liliana Sousa (LS) – A evolução foi notória. Em outubro de 2024, estávamos no momento mais frágil da entrada em vigor do novo Estatuto, com a remuneração obrigatória dos estágios, novas regras relativas à constituição de júris, tempos de duração e outras normas imputadas aos estágios profissionais. Estávamos também num processo de auscultação e audições na Assembleia da República, tentando demonstrar a nossa realidade e sensibilizar os diferentes grupos parlamentares para a necessidade de alteração da lei, para que o acesso à profissão não fosse condicionado pela própria ordem profissional.

Hoje, o panorama é completamente diferente. Podemos orgulhar-nos de ter invertido essa curva descendente. Durante 2024, e depois em 2025, mantivemos os nossos esforços de aproximação às entidades, procurando reabrir portas que tinham sido fechadas pelas novas exigências. Conseguimos convencer muitas entidades da mais-valia de aceitarem estágios profissionais, não apenas aquelas que já tinham passado por esse processo, mas também muitas que nunca tinham tido estágios. Neste momento, temos mais estágios a decorrer do que tínhamos há dois ou três anos, apesar de todas as condicionantes, nomeadamente a remuneração, que continua a ser o maior obstáculo. Desse ponto de vista, diria que a missão foi cumprida.

Por outro lado, continuamos a debater-nos com a missão de alterar o Estatuto, não por teimosia, mas porque o princípio de base que nos levou a fazer essa solicitação se mantém. Nunca fizemos o pedido de alteração ao Estatuto com base numa necessidade conjuntural. Fizemo-lo por percebermos que o estágio profissional estava a constituir um obstáculo e, ao mesmo tempo, que não havia razão para tal acontecer. As licenciaturas habilitantes já incluem estágios académicos nos quais são desenvolvidas competências técnico-profissionais, e a própria lei admite que, cumprido esse requisito, possa haver dispensa do estágio de acesso à profissão. Foi também isso que procurámos demonstrar aos deputados, em sede parlamentar. Por esse motivo, continuamos nesta luta. O processo foi, de certa forma, “atropelado” pela queda do Governo anterior. A votação já estava prevista e agendada, mas tivemos de voltar ao início. Neste momento, já deram entrada na Assembleia da República duas propostas, uma do Livre e outra da Iniciativa Liberal (IL). O grupo parlamentar do Partido Social-Democrata (PSD) e do CDS – Partido Popular, no contexto da Aliança Democrática (AD), também deverá apresentar a sua proposta [nota da redação: entretanto já apresentada e sujeita a votação no próximo dia 11 de junho]. A expectativa é que, apesar de tudo, possamos ter condições para eliminar o estágio profissional de acesso à profissão.

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Relativamente ao exercício ilegal, importa fazer um enquadramento. O exercício ilegal não é tratado em sede de ordem profissional. Constitui um crime e tem, naturalmente, de ser tratado nas instâncias próprias. No entanto, habitualmente é à ordem profissional que chegam estas denúncias, quer por parte de cidadãos, quer por parte de nutricionistas. Quando chegámos à Ordem, fizemos um diagnóstico das denúncias existentes, em dimensão e natureza, e iniciámos um processo para tornar a atuação mais ágil, transparente e concreta.

Uma associação pública profissional não combate diretamente o exercício ilegal. Usa os meios ao seu dispor para contribuir para a sua mitigação. Foi nesse contexto que concretizámos a campanha “Olá, Nutri”, em 2025. Recorremos a pivôs no terreno para levar esta mensagem à população: ao nutricionista cabem atos e competências que a nenhum outro profissional cabem. Ao dotarmos a população desse conhecimento, estamos, de certa forma, a combater o exercício ilegal de forma indireta, porque uma população mais informada estará também mais preparada para não recorrer a esses meios. Por isso, diria que, um ano e meio depois, estas são duas bandeiras que conseguimos trabalhar de forma mais concreta.

VS – Recentemente, a vice-presidente da Ordem, Carla Pedrosa, numa entrevista ao jornal Público, revelou que a ON, à semelhança da Ordem dos Médicos, vai apertar o cerco à pseudociência, que, no caso da nutrição, surge muitas vezes associada a designações como “funcional” ou “integrativa”. O que podemos esperar deste processo?

LS – Esse é um processo há muito necessário. Refiro-me, no fundo, ao processo mais amplo de revisão do Código Deontológico. A última revisão aconteceu há muitos anos e era evidente a necessidade de introduzir uma maior regulamentação de algumas atividades que ainda não estão definidas. Entre elas está precisamente a utilização de designações – não quero chamar-lhes especializações, embora algumas sejam usadas como tal – que acabam por confundir quem recorre a estes serviços. Por outro lado, ao não estarem regulamentadas, qualquer pessoa pode utilizá-las. A componente das designações é apenas uma pequena parte das várias áreas identificadas e das várias dimensões que farão parte desta revisão do Código Deontológico, que perspetivamos iniciar em breve.

VS – Por ocasião do 10.º aniversário da revista VIVER SAUDÁVEL, foi uma das dez personalidades convidadas a refletir sobre a última década. Nesse texto, apontou como uma das maiores exigências “abrir caminho a novas especialidades e competências”. No concreto, para onde deve crescer a profissão no futuro?

LS – Crescimento e diferenciação são coisas diferentes. Independentemente do crescimento que deva acontecer à profissão, e que certamente acontecerá, estamos num ponto sem retorno relativamente à profissão de nutricionista. A profissão está implantada, está reconhecida e, por isso, tem de crescer. A diferenciação, ou especialização, é uma das componentes desse crescimento. Queremos que a profissão seja cada vez mais valorizada, reconhecida e que possa assumir uma posição de destaque enquanto profissão de saúde. Isso leva, inevitavelmente, a que a diferenciação ou a especialização sejam também inevitáveis.

“Acho importante que o número de especialistas cresça. Uma vez criadas, é absolutamente fundamental que as especialidades ganhem robustez”

Há ainda outro contexto, intrínseco à nossa ordem profissional. A especialização já começou. Iniciámos esse processo com três especialidades e, a partir desse momento, abriu-se um caminho que não pode ter sentido contrário. A urgência no desenvolvimento de novas especialidades resulta precisamente do facto de esse processo já ter sido iniciado. Há profissionais que desenvolvem atividade em áreas que não se adequam às especialidades atualmente existentes. Antes de estruturar uma especialidade, é necessário garantir massa crítica e dimensão, mas áreas como a indústria alimentar ou a intervenção no desporto começam a ser exigentes desse ponto de vista. Nessa perspetiva, a criação de novas especialidades e competências passa a ser uma responsabilidade formal da Ordem.

VS – Numa iniciativa recente, realizada na Torre do Tombo, em Lisboa, foram abordadas figuras como o “nutricionista escolar” ou o “nutricionista de família”. Esta pode vir a ser uma realidade no futuro próximo?

LS – O nutricionista nas escolas já tem uma posição no setor da educação há muitos anos. Há colegas com décadas de experiência nesta área, tanto no terreno como na intervenção em políticas, práticas e normas regulamentares. O “nutricionista de família” poderá ser, e estou apenas a conjeturar, um braço do nutricionista do setor comunitário nos cuidados de saúde primários. Mesmo sem esse rótulo, o “nutricionista de família” já existe em muitas realidades. Dependendo da estrutura e da organização de algumas instituições de saúde, nomeadamente nos cuidados de saúde primários, há nutricionistas que já acompanham famílias. Há profissionais que iniciam o seguimento antes mesmo da conceção e acompanham depois esse percurso familiar. Esse trabalho poderá conduzir a uma designação futura de “nutricionista de família”.

VS – No caso específico das escolas, recordamos que, na última vez que falámos, estava em curso uma relação da ON com o Ministério da Educação. Houve novidades nesse sentido?

LS – Infelizmente, foi mais um processo que acabou por sofrer uma interrupção com a queda do anterior executivo. Antes da mudança de Governo, tínhamos algumas estratégias alinhadas, nomeadamente com a Secretaria de Estado da Educação, e estávamos já numa fase de planeamento orçamental para que o projeto-piloto pudesse avançar. Teria ainda de ser submetido à aprovação do Ministério da Educação e também do Ministério das Finanças, mas, com a queda do Governo, o processo acabou por cair por terra.

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Independentemente de tudo, a Ordem voltou a submeter o mesmo projeto-piloto. Como o ministro e o secretário de Estado se mantiveram, não foi necessário voltar a apresentar o projeto integralmente. Aquilo que o Ministério nos transmitiu foi que, neste momento, está a braços com outros projetos. O projeto está lá, continua a ser considerado, mas estamos a aguardar que nos chamem para o retomar. Sendo um processo que, a meu ver, é tão importante, e independentemente de passar ou não por um projeto-piloto, acredito que o futuro terá de passar pela presença física do nutricionista nas escolas. Demore o tempo que demorar, é um projeto que devemos manter.

VS – No caso do Ministério da Saúde, há alguma novidade relativamente à portaria da nutrição entérica?

LS – Há algumas novidades. Naturalmente, por motivos óbvios, não posso abrir demasiada informação, por uma questão de reserva. Mas sim, há novidades que me parecem positivas do ponto de vista da adequação da portaria. Há também um reconhecimento, depois de ela estar já implementada, de algumas lacunas que acabaram por ser identificadas. A perspetiva de integração da Ordem nesse processo já está a acontecer, por isso estamos numa fase ativa de trabalho, mesmo tendo havido uma mudança na Secretaria de Estado da Gestão da Saúde.

VS – Numa temática um pouco mais sensível, os conselhos de especialidade vão a eleições e as ainda presidentes, numa entrevista recente ao nosso portal, apontaram algum desalinhamento, falhas de comunicação, afastamento de certos grupos de trabalho por parte da direção, bem como assessorias rotativas que terão criado alguns constrangimentos. Revê-se nestas críticas?

LS – Falamos de três fatores diferentes e acho importante destacá-los. O afastamento de grupos de trabalho não corresponde à verdade, colocado dessa forma. Em momento algum a direção afastou os conselhos de especialidade de qualquer grupo de trabalho onde estivessem representados enquanto conselhos. O que existiu foi uma renovação de alguns grupos de trabalho que tinham representantes da Ordem nomeados nominalmente, e não em representação dos conselhos de especialidade. Essa renovação deve ser vista como natural, e não como intencional. Quando uma direção inicia funções, é natural que queira trazer a sua equipa, com a mesma visão e o mesmo tipo de linguagem estratégica. Houve alterações de alguns elementos, não por serem dos conselhos de especialidade, mas porque estavam representados como nutricionistas. O único grupo onde os conselhos de especialidade estavam representados era um grupo de trabalho com o Ministério da Saúde. Esse foi precisamente o único grupo onde não se mexeu. Os representantes foram mantidos. Por decisão dos conselhos de especialidade, decidiram retirar-se. Esse é o cenário concreto.

VS – Estavam os três conselhos de especialidade representados?

LS – Estava apenas um representado, o Conselho de Especialidade de Nutrição Clínica, que, por sua decisão, quis sair e retirou os seus elementos. Por nossa sugestão, porque achámos que fazia sentido integrar um elemento do Conselho de Especialidade de Nutrição Comunitária e Saúde Pública, sugerimos que pudesse ser nomeado um elemento para esse grupo, mas essa nomeação também nunca aconteceu.

“Não consigo conceber uma ordem profissional que não esteja junto dos seus pares, que não esteja próxima das entidades e das estruturas, que não vá conhecer efetivamente a realidade no terreno”

Relativamente ao desalinhamento, não consigo responder a essas afirmações. Não sinto que exista qualquer tipo de desalinhamento. A direção atendeu, e continua a atender, a todas as solicitações dos conselhos de especialidade. A melhor prova factual é que a revisão do Regulamento Geral de Especialidades Profissionais da ON (RGEPON), um processo exigente e com prazo apertado, foi feita em colaboração direta com a direção. Foi um trabalho exaustivo, porque tínhamos um ano como limite para que as especialidades continuassem a existir ou desaparecessem. Conseguimos terminar o RGEPON, publicá-lo e executá-lo, e, no final do ano passado, o processo de obtenção de especialidades foi conseguido pela primeira vez. A meu ver, isso mostra que eventuais diferenças de visão não impactaram a nossa capacidade de trabalhar em conjunto num objetivo comum.

Quanto à rotação dos assessores, foi-nos absolutamente alheia. Dois colaboradores que acompanhavam as especialidades decidiram abraçar outras oportunidades e tivemos de alocar essas funções a um novo assessor. Quando a questão foi levantada, pedimos aos conselhos de especialidade que identificassem tarefas ou funções que tivessem ficado por realizar por causa destas alterações. Os próprios assessores foram também questionados relativamente à sua capacidade de responder às solicitações. Não recebemos, nem num caso nem no outro, qualquer indicação nesse sentido. Estou sensível a essa alteração sucessiva, porque não é fácil. Aliás, não foram apenas os conselhos de especialidade que sentiram essa dinâmica de mudança; os próprios departamentos da Ordem também a sentiram. O que interessa é que estejamos todos disponíveis para fazer este trabalho conjunto de integração e adaptação dos novos colaboradores. Penso que conseguimos chegar a bom porto e espero que agora, numa situação mais estável, o assessor atual possa manter-se nos conselhos.

VS – Mais especificamente sobre as eleições, o que espera deste processo e qual é a importância das especialidades para a classe? Cerca de 11% dos nutricionistas são especialistas. É importante que este número cresça?

LS – Estou muito expectante em relação às eleições das especialidades. Conheci as listas no dia em que foram divulgadas e fiquei muito satisfeita, porque me revejo em muitos dos colegas que delas fazem parte. Conheço o seu profissionalismo. Não conheço todos, mas consegui identificar, nas diferentes listas, colegas com trabalho feito e um conhecimento muito exaustivo da profissão e da especialidade que representam. São listas únicas. A única coisa que eventualmente se perderá será a possibilidade de um debate de ideias. De qualquer forma, tendo em conta o carácter ainda tão jovem dos conselhos de especialidade, acima de tudo interessa que estas novas equipas venham com o desejo de trabalhar bem e trabalhar mais, para conseguirem fazer crescer as especialidades.

Quanto à pergunta, sim, acho importante que o número de especialistas cresça. Uma vez criadas, é absolutamente fundamental que as especialidades ganhem robustez. E essa robustez faz-se de qualidade, de competência e da diferenciação que caracteriza a área, mas também de dimensão. Terão uma direção absolutamente disponível para trabalhar em conjunto nessa finalidade. Acredito que este segundo mandato possa caracterizar-se pela produção de linhas de orientação, recomendações e documentação que fortaleçam as especialidades. Mais importante do que dizer que sou especialista é documentar essa especialidade. Eu, sozinha, não convenço ninguém. Mas se conseguir robustecer aquilo que estou a apresentar com documentação séria, científica e com evidência bem definida, conseguirei naturalmente convencer quem me ouve de que aquilo que levo tem valor. Uma coisa levará à outra e, certamente, também aliciará profissionais que ainda não são especialistas a procurarem sê-lo.

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VS – Têm sido tornadas públicas algumas iniciativas da Ordem, nomeadamente o programa de mentoria e o fundo de apoio à formação. Ao mesmo tempo, tem percorrido o país, de norte a sul e também as ilhas, reunindo com colegas de várias áreas. Que realidade tem encontrado no terreno e de que forma tem acompanhado os eventuais anseios ou preocupações dos nutricionistas?

LS – Não o teria conseguido fazer de outra forma. O meu propósito, do ponto de vista do projeto para a Ordem, era exatamente aquele que está neste momento traçado. Não consigo conceber uma ordem profissional que não esteja junto dos seus pares, que não esteja próxima das entidades e das estruturas, que não vá conhecer efetivamente a realidade no terreno. Por isso, desde que as condições o possibilitaram, iniciámos esse processo de visitas aos locais. O ano de 2025 foi muito rico desse ponto de vista. Foram muitos quilómetros percorridos, muito cansaço, mas também muita compensação. Visitei mais de 50 entidades no ano passado. Essas visitas não permitem apenas identificar desafios. Permitem também conhecer “facilitadores” e perceber que a presença do nutricionista abre portas, melhora respostas e pode facilitar o acesso das comunidades a cuidados de nutrição.

Há ainda outro aspeto, talvez menos visível, que decorre destas visitas. Marcamos presença e marcamos posição. Graças a estas deslocações, conseguimos percecionar um maior reconhecimento do nutricionista nos diferentes locais, seja porque mediatizamos a sua presença, seja porque fomos falar com presidentes de conselhos de administração e diretores de serviço dessas entidades. Mostrámos a nossa preocupação em conhecer aquilo que estava a ser feito e o que motivou, muitas vezes, a contratação daquele nutricionista.

É também com sentido de missão que, quando olho para trás, percebo que, nos últimos dois anos, foram abertos cerca de 30 concursos públicos para contratação de nutricionistas nas autarquias. É óbvio que não vou dizer que foi a Ordem que o fez, mas tenho a certeza absoluta de que a nossa presença nestes locais despertou a atenção de muitos. Houve eleições autárquicas e não sossegámos enquanto não enviámos à Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) um documento sobre o papel do nutricionista nas autarquias. Estar nos locais, estar presente, não só em visitas, mas também em eventos promovidos por essas entidades, teve efeito. Tenho a fortíssima convicção de que isso levou a que, nos últimos dois anos, tenham sido contratados mais nutricionistas nas autarquias do que nos últimos dez. E quem fala nas autarquias fala também nos cuidados de saúde. As Unidades Locais de Saúde (ULS) bateram um recorde de contratações no ano passado.

Quanto aos projetos mais internos da Ordem, como o projeto de mentoria ou o fundo de apoio à formação de nutricionistas, eram propostas que constavam do nosso plano de ação. São processos que demoram o seu tempo. Posso dizer que o fundo de apoio à formação teve início logo no início do mandato. A verba decorre de 10% do salário do bastonário e, desde logo, começou a ser destinada a esse efeito. Depois, houve uma série de constrangimentos contabilísticos e administrativos que nos obrigaram a esperar o tempo necessário. Acabámos por conseguir condições para iniciar o fundo em 2026. Já entregámos cinco bolsas. Neste trimestre, temos já candidaturas para aprovar. É um objetivo cumprido e uma bandeira da nossa candidatura que, orgulhosamente, consideramos neste momento concretizada.

“Sete anos depois, surge novamente o Congresso da ON, algo que considero absolutamente necessário nesta fase de maturidade da nossa ordem profissional”

O projeto de mentoria é também muito interessante. Não é inédito, porque há outras ordens profissionais que já o fazem, e não pretende substituir nenhuma modalidade existente. Chegámos a ter questões sobre se o projeto de mentoria iria substituir o estágio. Não, de todo. O projeto visa que colegas que se candidatam a mentores tenham formação específica e dirigida para esse efeito. É também uma aposta que a Ordem faz nestes colegas candidatos, que depois acompanharão outros nutricionistas dentro das suas áreas. Não há limite de idade para os mentees, porque há profissionais que, ao mudarem de área, podem sentir necessidade de conhecer melhor esse novo meio.

VS – Sete anos depois, o Congresso da ON está de regresso, desta vez com o lema “Da Evidência à Influência”. De que forma este evento pretende transformar conhecimento científico em impacto real nas políticas de saúde e nas decisões públicas?

LS – O Congresso pretende ser um espaço de partilha e discussão. De forma alguma pretende substituir-se a qualquer congresso científico na área da nutrição. O nutricionista, enquanto profissional de saúde, baseia a sua atuação na evidência científica. Mas a Ordem, enquanto organismo regulador, quis também destacar o pilar da influência. “Da Evidência à Influência” traduz precisamente estes dois grandes pilares. A ideia não é que dali saiam transformações imediatas, mas que possam resultar discussões, contributos, críticas e uma reflexão mais pública sobre a estrutura e a organização da profissão. Sete anos depois, surge novamente o Congresso da ON, algo que considero absolutamente necessário nesta fase de maturidade da nossa ordem profissional.

VS – Num tema diferente, o PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência prevê cerca de 200 milhões de euros para reservas estratégicas e silos alimentares, como preparação para futuras disrupções, ruturas de abastecimento ou choques externos. Este foi um tema em que a ON contribuiu junto do Governo. Como olha para as medidas apresentadas e de que forma a integração de nutricionistas em equipas multidisciplinares que trabalham em situações extremas, como as que a região Centro viveu recentemente, deve ser uma prioridade nacional?

LS – Vejo o que aconteceu como uma oportunidade criada e que a Ordem fez questão de não desperdiçar. Quando soubemos que o plano estava em consulta pública, já tínhamos feito contactos nesta perspetiva, na sequência daquilo que aconteceu no início do ano, fruto da calamidade. Entendemos que era o momento de materializar, através de contributos, a nossa perspetiva.

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Independentemente de ser um plano, continuaremos a fazer este trabalho acessório que já tínhamos iniciado. É aí que os nutricionistas entram. Desde logo, percebemos que, quer ao nível da comunicação social, quer ao nível da própria estrutura autárquica, a resposta alimentar foi muito pouco valorizada. Não quer dizer que não tenha acontecido, mas não foi mediatizada nem valorizada a forma como as pessoas retiradas dos seus domicílios estavam a ser alimentadas ou como necessidades específicas estavam a ser satisfeitas. Isso apoquentou-nos. Por isso, fomos rapidamente para o terreno, junto dos municípios mais afetados, tentando perceber se aquilo que não se ouvia cá fora retratava o que não se estava a fazer no terreno. Percebemos que não. Houve capacidade de resposta alimentar a estas pessoas. Conseguimos, inclusive, reunir com a nutricionista de uma das câmaras municipais de um dos municípios mais afetados, que nos relatou a forma como foi conduzida a resposta alimentar nos abrigos temporários. E essa diferença foi possível porque existiam nutricionistas nestas autarquias. Desde logo, temos uma evidência garantida: onde houve nutricionistas, foi possível responder. Depois fomos atrás da articulação, que acabou por ser conseguida também com as escolas.

Onde é que sentimos que a atenção não esteve? Não vou dizer que falhou, porque não tenho conhecimento suficiente para tal, mas sentimos que não houve organização na resposta alimentar às famílias que ficaram isoladas nos seus domicílios. Não estava organizado, não estava planeado, não havia estratégias definidas no âmbito das respostas de emergência. Temos de pegar no que aconteceu para demonstrar aos diferentes responsáveis que não pode voltar a acontecer. As estruturas de proteção civil foram incluídas e iniciámos rapidamente um processo de proximidade com a ANMP. Queremos agora trabalhar com as equipas de catástrofe, perceber onde devem entrar orientações e recursos e garantir que a resposta alimentar em emergência integra nutricionistas.

Curiosamente, e para minha surpresa positiva, temos outros trabalhos a decorrer com autarquias, nomeadamente com o Município do Porto. Numa reunião que fizemos para apresentar um projeto diferente, que pretendemos desenvolver com esta autarquia, este assunto também foi focado. A vereadora com esse pelouro manifestou desde logo interesse em colaborar connosco neste projeto maior. Estou em crer que teremos condições para fazer crescer rapidamente a profissão numa área onde ainda não estava explorada.

VS – Por outro lado, existem desequilíbrios na ordem mundial que têm consequências diretas nas nossas carteiras e naquilo que comemos. No entanto, contrariando o apelo público da ON, a proposta de IVA zero foi rejeitada no Parlamento em novembro. Como fazer face ao aumento dos preços sem colocar em causa uma alimentação saudável? Passa pelo IVA, passa por outras medidas?

LS – O IVA zero foi chumbado em sede de Orçamento do Estado. Aliás, já antes disso, no início de 2025, tínhamos trazido este tema à discussão. Por vezes, a forma de conseguir trazer os assuntos para cima da mesa é ser-se assertivo e, de certa forma, até ambicioso naquilo que se apresenta. O IVA zero teve essa capacidade. Ao colocarmos esta proposta em cima da mesa, conseguimos fazer com que entrasse nos pontos de discussão, inclusive no Orçamento do Estado, o que nos surpreendeu.

“O rumo que pretendíamos colocar na profissão está a ser construído e está firmado. Espero que seja um caminho para continuar e para fazer crescer a profissão”

Foi chumbado, é certo. Apesar disso, e decorrente das guerras que, entretanto, surgiram, com reflexo importante no preço dos combustíveis e, consequentemente, na cadeia alimentar, e também das cheias que afetaram muitas produções agrícolas no nosso país, entendemos que este tema não podia morrer. Mas há um ponto que já nada nos tira: são vários os grupos parlamentares a insistir nesta medida e a continuar a levá-la a tentativa de aprovação no Parlamento. O facto de termos ido a jogo com esta medida mais polémica, e talvez mais difícil de concretizar, teve impacto. É mais difícil porque mexe com a receita do Estado de forma alargada e profunda. Mas conseguimos colocar a alimentação saudável na agenda do Parlamento e do Governo. E de forma enraizada e sólida, porque há meses que se fala no IVA zero, há meses que todas as semanas se fala no cabaz alimentar.

A Ordem está disponível e a trabalhar nesse sentido, para, dentro desta grande medida, poder contribuir com medidas específicas ou mais dirigidas, que não têm todas de mexer com os bolsos do Estado. Também é importante frisar que não trabalhamos apenas de forma bidirecional com o Parlamento. Trabalhamos com a DECO – Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, e temos esse canal aberto. A DECO informa-nos sobre os alimentos que sofrem maiores aumentos e o reflexo disso no consumo das famílias. A nossa ideia é alargar este trabalho a diferentes entidades. Além disso, a capacitação da população para gerir escolhas alimentares, utilização dos alimentos e desperdício também é parte da solução. Espero que, independentemente das medidas a aplicar do ponto de vista da tributação, possa ser feito muito trabalho junto do Governo, da Direção-Geral da Saúde e de outras organizações responsáveis, na perspetiva de utilizarmos este episódio desfavorável para capacitar mais a população.

VS – Para terminar, pedimos que deixe uma mensagem aos colegas.

LS – Acima de tudo, a mensagem a transmitir é garantir aos colegas que temos vindo a cumprir a missão a que nos propusemos. De forma objetiva, os nossos propósitos têm vindo a ser cumpridos, apesar das dificuldades e de alguns constrangimentos que nos são alheios. Conseguimos também, do ponto de vista da gestão, operacionalizar medidas de que a Ordem necessitava. Numa frase, diria que o rumo que pretendíamos colocar na profissão está a ser construído e está firmado. Espero que seja um caminho para continuar e para fazer crescer a profissão.