Por Tiago Noronha (investigador júnior) e Diogo Pestana (professor auxiliar), do Centro de Investigação Integrada em Saúde (CHRC, Metabolismo e Nutrição) da Nova Medical School, Universidade Nova de Lisboa.
A produção global de plásticos tem aumentado de uma forma exponencial nas últimas décadas com projeções de atingir mais de 700 milhões de toneladas até 2040. Apesar dos inúmeros benefícios que este material trouxe à sociedade moderna, a sua persistência no ambiente transformou a poluição por plástico num dos maiores desafios ambientais do século XXI.
Os microplásticos, definidos como partículas de plástico com menos de 5 mm de diâmetro, são produzidos intencionalmente com pequenas dimensões para utilização em produtos industriais ou de consumo, como fibras de roupa, ou podem resultar da fragmentação de plásticos maiores por ação do ambiente e animais. Dado o tamanho reduzido destas partículas, a exposição humana tornou-se praticamente inevitável. Atualmente, os microplásticos são considerados contaminantes omnipresentes, tendo sido identificados na atmosfera, nos oceanos, nos rios, nos solos agrícolas e até em regiões remotas do planeta.
A exposição aos microplásticos ocorre essencialmente por inalação e ingestão. Fibras provenientes de têxteis sintéticos, desgaste de pneus, poeiras domésticas e partículas suspensas no ar fazem parte do ambiente que respiramos diariamente, tanto em espaços interiores como exteriores. Por outro lado, o consumo de alimentos e bebidas contaminados, incluindo água engarrafada e da rede pública, sal, açúcar, mel, pescado, moluscos e outros produtos alimentares contribuem para a ingestão destas partículas.
É importante compreender que o potencial risco dos microplásticos não resulta apenas da presença da partícula em si. À medida que permanecem no ambiente, os microplásticos sofrem alterações físicas e químicas que aumentam a sua superfície, favorecendo a adsorção de diferentes contaminantes ambientais. Entre estes encontram-se metais pesados, pesticidas, poluentes orgânicos persistentes e até microrganismos potencialmente patogénicos. Além disso, muitos plásticos contêm aditivos químicos, como bisfenóis e ftalatos, incorporados durante o seu processo de fabrico, substâncias já associadas a potenciais efeitos prejudiciais na saúde humana. Nesta perspetiva, os microplásticos podem atuar como “cavalos de Tróia”, ou seja, veículos de transporte de contaminantes, aumentando a complexidade da sua exposição. Em vez de uma exposição isolada a uma partícula plástica, estamos frequentemente perante uma exposição combinada a múltiplos agentes físicos e químicos.
O conhecimento sobre os efeitos dos microplásticos na saúde humana está a crescer, mas ainda apresenta importantes limitações, em particular relativamente aos modelos utilizados. Ainda assim, a associação da exposição aos microplásticos com o aumento do stress oxidativo, processos inflamatórios, alterações da barreira intestinal, perturbações endócrinas está cada vez mais evidente.
Entre os potenciais alvos da exposição aos microplásticos encontra-se também a microbiota intestinal. Estas partículas podem alterar a composição das comunidades microbianas, e consequentemente a sua função bacteriana, induzindo um quadro de disbiose. Estas alterações poderão, por sua vez, influenciar processos fisiológicos importantes relacionados com a resposta imunitária, a integridade da barreira intestinal e o metabolismo do hospedeiro.
É de realçar que esta relação parece ser bidirecional. Há microrganismos que possuem enzimas capazes de degradar alguns polímeros plásticos, levantando novas questões sobre o potencial papel da microbiota na transformação destas partículas após a exposição.
Embora estes resultados sejam promissores, a evidência em humanos permanece limitada, particularmente considerando a complexidade da exposição combinada, pelo que esta relação merece ser explorada para compreender a relevância clínica destas interações. À medida que o conhecimento e a sensibilização ao tema evoluem, os nutricionistas poderão assumir um papel central na definição de estratégias alimentares destinadas não só a reduzir a exposição aos microplásticos, mas também a aumentar a resiliência do organismo através da modulação da microbiota intestinal e da inflamação.
A realidade é que vivemos rodeados de plástico e a exposição aos microplásticos dificilmente poderá ser totalmente evitada. Ainda assim, reduzir a utilização desnecessária de plásticos descartáveis, privilegiar alternativas reutilizáveis e promover uma gestão adequada dos resíduos constituem medidas importantes para diminuir a libertação destas partículas para o ambiente com um potencial impacto na saúde humana.
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