Doença tiroideia: “Os nutricionistas são muito importantes na referenciação”

A cidade do Porto recebe, entre 5 e 8 de setembro, o 47.º Encontro Anual da European Thyroid Association, um congresso internacional que reúne especialistas de vários países para discutir a investigação, o diagnóstico e o tratamento das doenças da tiroide. Nos dias 2, 3 e 4 de setembro, a ADTI – Associação das Doenças da Tiroide e a SPEDM – Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, com o apoio da Merck, promovem uma ação gratuita de sensibilização e rastreio da tiroide na estação de Metro da Trindade.

Em entrevista, a presidente da SPEDM, Paula Freitas, alerta para os desafios que continuam a atrasar o diagnóstico das doenças tiroideias em Portugal, destaca o papel dos nutricionistas na referenciação de casos suspeitos e aborda os principais mitos associados à alimentação e à saúde da tiroide. A especialista antecipa ainda algumas das áreas científicas que deverão marcar o futuro da prática clínica.

VIVER SAUDÁVEL (VS) – Os dados apontam para um número significativo de portugueses com doença na tiroide por diagnosticar. Quais são os principais desafios que continuam a atrasar o reconhecimento destas patologias na prática clínica?

Paula Freitas (PF) – Os atrasos no reconhecimento da doença tiroideia resultam sobretudo da combinação entre sintomas pouco específicos, baixa literacia em saúde e uma suspeita clínica insuficiente em contextos comuns de cuidados de saúde. Muitas vezes, os sintomas são confundidos com outras situações. Por exemplo, no hipotiroidismo – fadiga, aumento de peso, obstipação, intolerância ao frio, humor deprimido, alterações da voz ou dificuldade de concentração são frequentemente atribuídos a stress, envelhecimento, menopausa, depressão, sedentarismo ou outras doenças. Esta falta de especificidade faz com que as alterações da tiroide não sejam consideradas cedo na avaliação clínica.

Também podem surgir manifestações como bradicardia, colesterol elevado ou alterações menstruais e, por isso, a pessoa pode passar por várias especialidades antes de se ponderar que se trata de disfunção tiroideia. Muitas pessoas normalizam sintomas graduais ou intermitentes e adiam a consulta, não associam estas alterações persistentes à patologia da tiroide. A SPEDM identifica o desconhecimento da população e a desvalorização dos sintomas iniciais como barreiras centrais ao diagnóstico mais precoce.

A inespecificidade clínica pode criar um percurso longo, com consultas sucessivas por sintomas isolados — cardiovasculares, metabólicos, gastrointestinais ou psicológicos — sem uma integração diagnóstica inicial. Existem relatos de que algumas pessoas consultam quatro ou cinco diferentes especialidades antes de receberem o diagnóstico correto.

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Mas, o desafio não é apenas de acesso a meios complementares e ao diagnóstico inicial; é também a continuidade dos cuidados, revisão global da medicação e comorbilidades, valorização da evolução dos sintomas e comunicação eficaz entre profissionais de diferentes especialidades.

Em suma, o maior obstáculo continua a ser reconhecer que sintomas comuns, quando persistentes ou agrupados, podem traduzir uma alteração hormonal tratável — e transformar essa suspeita numa avaliação tiroideia dirigida.

VS – Como podem os nutricionistas podem contribuir para a identificação precoce de sinais ou situações que justifiquem sugerir um acompanhamento para avaliação médica especializada?

PF – Os nutricionistas podem funcionar como uma importante “porta de alerta”. Não diagnosticam doença tiroideia, mas identificam padrões clínicos, dietéticos e de evolução ponderal que justificam encaminhamento para avaliação médica. Isto é particularmente relevante porque acompanham as pessoas ao longo do tempo e observam sintomas que muitas vezes são inicialmente atribuídos apenas à alimentação ou ao estilo de vida.

Durante a anamnese nutricional, devem além do peso e da ingestão alimentar, registar a evolução dos sintomas, antecedentes pessoais e familiares, medicação, suplementos e alterações objetivas nas medidas corporais. Uma variação de peso desproporcionada face à ingestão, atividade física e adesão ao plano alimentar merece ser explorada e, se persistente, comunicada ao médico.

É útil perguntar de forma sistemática por fadiga, sono, trânsito intestinal, intolerância ao frio ou calor, palpitações, tremor, ansiedade, humor, alterações menstruais, fertilidade, queda de cabelo e mudanças de pele. Estes sinais, isoladamente, são inespecíficos; mas, em conjunto ou associados a alterações ponderais, aumentam a necessidade de considerar disfunção tiroideia.

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O nutricionista deve questionar especificamente o consumo de suplementos “para acelerar o metabolismo”, algas, iodo, selénio e produtos de ervanária, sobretudo quando são tomados sem orientação. O iodo e alguns fármacos podem alterar a função tiroideia, pelo que essa informação deve integrar a comunicação ao médico, sem recomendar automedicação ou suplementação empírica.

Dietas muito restritivas, jejum prolongado, perturbações do comportamento alimentar ou défices energéticos importantes também podem alterar peso, trânsito intestinal, humor e marcadores laboratoriais, confundindo a interpretação dos sintomas. A avaliação deve, por isso, distinguir uma explicação nutricional plausível de sinais persistentes ou desproporcionados que exigem investigação médica.

A recomendação deve ser simples, não alarmista e baseada em factos observáveis – a combinação de alterações de peso, cansaço, obstipação e intolerância ao frio, apesar de uma ingestão alimentar compatível com o plano alimentar – sugere que será prudente falar com o médico para excluir causas clínicas, incluindo alterações da função tiroideia. Os Nutricionistas são muito importantes nesta referenciação.

VS – Qual é o papel da intervenção nutricional nas diferentes doenças da tiroide e que mitos continuam a surgir com mais frequência na consulta?

PF – A intervenção nutricional é complementar ao tratamento médico: ajuda a assegurar adequação nutricional, tratar sintomas e comorbilidades, apoiar a toma correta da medicação e evitar suplementos ou restrições sem indicação. Não há uma “dieta da tiroide” capaz de substituir levotiroxina, antitiroideus, cirurgia ou radioiodo quando estes são clinicamente necessários.

No hipotiroidismo, a prioridade é uma alimentação equilibrada, suficiente em energia e proteína, com atenção a fibra, obstipação, perfil lipídico, peso e possíveis défices de ferro, vitamina B12, vitamina D ou iodo — sempre avaliados no contexto clínico e analítico. Um padrão mediterrânico é uma opção prática e sustentável, sem presumir que alimentos isolados “ativam” a tiroide.

Em pessoas medicadas com levotiroxina, a intervenção nutricional tem um papel muito concreto na adesão: a toma deve ser consistente, idealmente 30 – 60 minutos antes do pequeno-almoço. Alimentos, café e suplementos de cálcio ou ferro podem reduzir a absorção, pelo que devem ser adequadamente separados da medicação conforme orientação médica.

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Na tiroidite de Hashimoto, o selénio não deve ser recomendado rotineiramente a todas as pessoas: a evidência é insuficiente para uma recomendação generalizada nas orientações europeias.

No hipertiroidismo e na doença de Graves, a perda de peso, a perda de massa muscular, a ansiedade, a intolerância ao calor e o trânsito intestinal acelerado podem exigir um plano alimentar mais energético, proteico e fracionado, adaptado à tolerância individual. A intervenção deve também proteger saúde óssea, assegurando ingestão adequada de cálcio e vitamina D e articulando-se com a vigilância médica, uma vez que o excesso de hormonas tiroideias afeta o osso.

É importante rever fontes concentradas de iodo, sobretudo suplementos, algas/kelp e preparados ditos “naturais”. A ingestão suplementar excessiva de iodo pode precipitar ou agravar hipertiroidismo, em particular na presença de nódulos autónomos.

Na maioria dos nódulos benignos, não há uma dieta que os faça desaparecer ou impeça, por si só, a evolução; o foco é evitar excessos de iodo e promover alimentação adequada às necessidades gerais. O diagnóstico de nódulo exige avaliação clínica e ecografia, e não testes alimentares ou exclusões empíricas.

No cancro da tiroide, o nutricionista é especialmente útil na gestão de dificuldades de deglutição após cirurgia, manutenção de peso e massa muscular, e educação temporária para dieta pobre em iodo apenas quando prescrita na preparação para determinados procedimentos com iodo radioativo. Essa restrição não é uma dieta permanente nem se destina a “tratar” a doença no dia a dia.

Mensagem na prática: a consulta deve substituir proibições por objetivos verificáveis. A regularidade alimentar, qualidade global da dieta, prevenção de carências, segurança dos suplementos e toma correta da terapêutica. Perante sintomas persistentes apesar de boa adesão, alterações ponderais inexplicadas, palpitações, diarreia, fadiga incapacitante ou suspeita de má absorção da levotiroxina, o nutricionista deve articular com o médico assistente ou endocrinologista.

VS – Nos doentes com hipotiroidismo ou outras patologias tiroideias, quais são os aspetos que mais beneficiam de uma abordagem multidisciplinar entre endocrinologistas, nutricionistas e outros profissionais de saúde?

PF – A abordagem multidisciplinar traz maior benefício quando a doença tiroideia deixa de ser tratada apenas como um valor de TSH: integra sintomas, adesão terapêutica, alimentação, comorbilidades, saúde mental e objetivos de vida. O endocrinologista define diagnóstico e estratégia terapêutica; nutricionista, médico de família, enfermeiro e, quando necessário, outras especialidades tornam esse plano exequível e seguro.

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A levotiroxina é o tratamento de base do hipotiroidismo, mas a eficácia depende de toma regular e de absorção consistente. O Endocrinologista e o médico de família ajustam a dose com base em TSH e T4 livre, revêm as possíveis interações farmacológicas, as formulações e a técnica da toma; o nutricionista identifica padrões alimentares e os suplementos que possam interferir.

Em particular, deve haver uma mensagem comum: tomar a levotiroxina de modo consistente, idealmente 30 – 60 minutos antes do pequeno-almoço; cálcio, ferro e outros interferentes devem ser separados. Esta articulação evita aumentos inadequados de dose quando o problema real é adesão, interação fármaco-alimento ou má absorção.

Sintomas persistentes, como fadiga, ganho de peso, obstipação, humor deprimido, perturbações do sono e dificuldades de concentração podem persistir mesmo com TSH dentro do intervalo de referência. Nestes casos, a equipa deve evitar atribuir automaticamente tudo à tiroide e procurar causas coexistentes, como défice de ferro ou B12, apneia do sono, depressão/ansiedade, doença cardiovascular, efeitos de medicamentos, dor crónica ou baixa ingestão energética.

O nutricionista contribui muito ao avaliar ingestão, evolução ponderal, qualidade alimentar, risco de carências e comportamento alimentar; o psicólogo ou psiquiatra pode intervir perante sofrimento emocional, depressão, ansiedade ou relação disfuncional com comida e peso. A decisão de alterar a terapêutica, porém, permanece clínica e deve evitar provocar supressão de TSH ou iatrogenia.

O ganho ponderal associado ao hipotiroidismo pode coexistir com excesso de peso, dislipidemia, hipertensão, diabetes ou menor capacidade funcional. A articulação entre endocrinologia, nutrição, cuidados de saúde primários e exercício clínico permite estabelecer metas realistas, tratar o risco cardiovascular e preservar massa muscular, sem prometer que a normalização da tiroide, isoladamente, produzirá perda de peso substancial.

O plano deve centrar-se em padrões alimentares sustentáveis, atividade física progressiva e sono, em vez de dietas restritivas, “detox” ou suplementos para acelerar o metabolismo. Alterações grandes de peso podem justificar reavaliação da dose de levotiroxina e da função tiroideia.

A colaboração entre endocrinologia, obstetrícia, cuidados primários e nutrição é particularmente importante antes da conceção e durante a gravidez. As necessidades de levotiroxina tendem a aumentar na gravidez e exigem monitorização mais frequente; a nutrição ajuda a garantir ingestão adequada.

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Alterações menstruais, infertilidade, antecedente de doença tiroideia ou sintomas sugestivos devem motivar comunicação atempada entre as equipas, pois o controlo hormonal não deve ficar dependente apenas das consultas de rotina.

VS – O 47.º Encontro Anual da European Thyroid Association reúne especialistas de toda a Europa. Que novidades científicas ou áreas emergentes deverão ter maior impacto na prática clínica nos próximos anos?

PF – O 47.º Encontro Anual da European Thyroid Association realiza-se de 5 a 8 de setembro de 2026, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, com um programa que abrange investigação básica, translacional e clínica, além de sessões multidisciplinares. O encontro destaca uma tiroideologia cada vez mais personalizada e menos invasiva.

As principais novidades com provável impacto clínico são: a inteligência artificial na ecografia, citologia e histologia dos nódulos, para melhorar a estratificação de risco e evitar exames ou cirurgias desnecessárias; a medicina de precisão no cancro da tiroide, com biópsia líquida, biomarcadores e terapêuticas dirigidas para monitorizar resposta e resistência aos tratamentos; a desintensificação terapêutica, com maior recurso à vigilância ativa, cirurgia menos extensa e uso mais seletivo de iodo radioativo em tumores de baixo risco; novos tratamentos para orbitopatia de Graves, incluindo anticorpos dirigidos e melhor seleção de doentes para terapias de segunda linha; técnicas minimamente invasivas, como termoablação de nódulos benignos e de alguns microcarcinomas e maior individualização da terapêutica hormonal, sobretudo nos doentes que continuam sintomáticos com levotiroxina, entre muitos outros temas.