Presente e futuro da Nutrição em Portugal – Uma reflexão

Por Flora Correia, professora catedrática em Nutrição Clínica – docente da Licenciatura em Ciências da Nutrição da Universidade Lusófona Lisboa.

 

O estado atual da profissão de nutricionista revela um cenário complexo, marcado por crescimento, mas também por desafios que colocam em evidência a necessidade de reforçar a sua valorização e identidade. Por um lado, a nutrição nunca teve tanta visibilidade e relevância social; por outro, essa exposição trouxe consigo alguma simplificação da sua perceção e prática. A proliferação de cursos e o aumento do número de profissionais contribuíram para um mercado mais competitivo, onde a qualidade pode nem sempre acompanhar a quantidade. Neste contexto, observa-se que, em alguns casos, a intervenção nutricional é comunicada de forma mais simplificada, privilegiando formatos rápidos que nem sempre refletem toda a complexidade e fundamentação científica da área. Esta tendência pode fragilizar a perceção pública da profissão e contribuir para a ideia de que “qualquer um pode falar de nutrição”. 

Paralelamente, verifica-se que o aconselhamento alimentar surge, por vezes, integrado na prática de outros profissionais de saúde que, embora possuam formação relevante nas suas áreas, não têm necessariamente formação aprofundada em nutrição. Este enquadramento não só não invalida, como reforça a importância da colaboração interdisciplinar, essencial para uma abordagem integrada e centrada na pessoa. No entanto, torna-se importante assegurar uma clara definição de papéis, de modo a valorizar o contributo específico de cada profissional e a garantir a qualidade da intervenção prestada. 

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Perante este cenário, a profissão encontra-se num momento importante de afirmação. Por um lado, é fundamental continuar a promover elevados padrões de exigência interna, assentes numa prática rigorosa, ética e baseada na evidência científica. Os nutricionistas têm, neste processo, um papel central, investindo numa atuação diferenciada, consistente e cientificamente sustentada. Por outro lado, importa reforçar a identidade profissional e clarificar o âmbito de atuação, contribuindo para uma melhor articulação entre diferentes áreas da saúde. 

Olhando para o futuro, a valorização da profissão passará por três eixos principais: regulação, diferenciação e afirmação. Regulação, no sentido de garantir padrões de formação exigentes e uma adequada supervisão da prática profissional. Diferenciação, através da especialização e do desenvolvimento de competências avançadas que reforcem o papel específico do nutricionista. E afirmação, não apenas junto do público, mas também no contexto das equipas de saúde, promovendo o reconhecimento do nutricionista como elemento essencial na área da alimentação e nutrição. 

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Em suma, a profissão de nutricionista tem um papel cada vez mais relevante na promoção da saúde e bem-estar. A sua valorização dependerá da capacidade de continuar a elevar os padrões de prática, clarificar funções e fortalecer a colaboração entre profissionais. Desta forma, será possível consolidar um futuro mais integrado, reconhecido e sustentável para a profissão. 

 

Este artigo de opinião foi originalmente publicado na edição n.º 100 (maio, 2026) da Revista VIVER SAUDÁVEL