
Por Isabel Monteiro, nutricionista (0034N) e PhD, assessora superior de Nutrição na ULS Santo António (ACES Porto Ocidental), professora convidada e investigadora no 1H-TOXRUN, IUCS-CESPU. Lidera a ESDN for Primary Care da EFAD.
A profissão de nutricionista em Portugal vive um ponto de inflexão histórico. Para projetarmos o futuro, é vital reconhecermos que a nossa história é uma sucessão de conquistas que transformaram uma disciplina emergente num pilar estratégico do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
As Raízes da Afirmação: Do Passado ao Pioneirismo
A afirmação da profissão na Saúde consolidou-se com a criação da carreira de Técnico Superior de Saúde, marco que reconheceu a exigência de um corpo de conhecimentos especializado e de responsabilidade técnica autónoma. Recordo o pioneirismo no Centro de Saúde de Aldoar, onde abrir caminho significava demonstrar que a intervenção nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) era o alicerce para evitar a doença a jusante. Ali lançavam-se as sementes da Saúde Baseada em Valor (VBHC).
Esta transição rompeu com o modelo assistencialista focado quase exclusivamente no meio hospitalar ou em gabinetes de planeamento central ao nível da Sub-Região de Saúde ou da Administração Regional de Saúde (ARS). A mudança para a proximidade permitiu que a Nutrição se integrasse no quotidiano das populações. Foi neste contexto que desenvolvi os primeiros instrumentos de registo e gestão da Consulta de Nutrição e das atividades no âmbito da Nutrição Comunitária, adotados pela ARS do Norte, estabelecendo as bases da governação clínica na nossa área.
Gestão e Eficiência: A Reforma dos ACES e das ULS
Com a reforma de 2009 e a criação dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES), passámos a responder a escalas populacionais superiores. No ACES Porto Ocidental, reorganizámos processos para garantir cuidados perante limitações de recursos. Criámos a “Escola + Saúde” e implementou-se o projeto “Nutrição a Uma Só Voz”, garantindo a coesão das equipas em torno da Nutrição. Atualmente, o modelo das Unidades Locais de Saúde, como a ULS Santo António, oferece uma oportunidade única de integração vertical. A aplicação dos princípios de Saúde Baseada em Valor (VBHC) demonstra que a Nutrição é uma tecnologia de gestão capaz de reduzir a carga da doença e otimizar a fatura pública.
Atualmente, o nutricionista deixou de ser apenas um “técnico” para se tornar um arquiteto de saúde e gestor de valor. A nossa intervenção está hoje intrinsecamente ligada ao modelo Triple Bottom Line (Pessoas, Planeta e Prosperidade) e aos critérios ESG (Environmental, Social and Governance). Já não discutimos apenas a dieta, mas a Nutrição como tecnologia indispensável que gera valor económico e social mensurável. A intervenção nutricional é um investimento com retorno (ROI) direto na eficiência do sistema. Para o nutricionista, isto significa medir quanto o SNS poupou em internamentos evitados por um melhor controlo glicémico ou pela prevenção de doenças crónicas não transmissíveis nos CSP.
Sustentabilidade e o Caminho à Frente
Para um SNS sustentável, é vital reforçar a presença de nutricionistas nos CSP, priorizando a prevenção e o acompanhamento de proximidade. Este fôlego é impulsionado pela transformação digital, que permite gerar indicadores em tempo real, utilizar dados para prever riscos e personalizar intervenções. Dashboards partilhados e prescrições digitais quantificam o nosso impacto social.
O futuro está ligado ao triplo compromisso da Sustentabilidade:
- Do SNS: Através da eficiência económica e da redução da carga da doença, permitindo que os recursos públicos sejam otimizados;
- Ambiental: Promovendo padrões alimentares que respeitem os limites planetários e reduzam a pegada ecológica;
- Social: Combatendo a insegurança alimentar e promovendo a literacia para reduzir desigualdades.
Conclusão: O Caminho à Frente
O futuro exige uma liderança verde (Green Leadership) no setor da saúde, integrando a eficiência clínica com a preservação de recursos. A transformação digital, apoiada pelas estratégias globais da OMS, permite-nos gerar indicadores em tempo real e personalizar intervenções através de ecossistemas digitais e gamificação.
Onde estamos? Numa fase de maturidade técnica e científica indiscutível. Para onde vamos? Para uma era onde seremos avaliados pela nossa capacidade de gerar valor líquido, regenerar a comunidade e garantir que o SNS continue a ser um projeto viável, humano e, acima de tudo, saudável.
Entrevista: FCNAUP quer fazer do Porto um laboratório e abraçar a comunidade
O valor que entregamos à sociedade é imenso; a nossa missão agora é medi-lo, prová-lo e torná-lo a norma de toda a prestação de cuidados.
Este artigo de opinião foi originalmente publicado na edição n.º 100 (maio, 2026) da Revista VIVER SAUDÁVEL.




