Grande Entrevista: “Há comboios que não passam duas vezes na vida”

Nutricionista, investigadora, formadora e docente universitária, Liliana Ferreira abriu-nos as portas da Associação Portuguesa de Nutrição (APN) para partilhar um percurso marcado pela diversidade de experiências, que teve como ponto de partida inesperado um lar de idosos. Em entrevista, sublinha que “há comboios que não passam duas vezes na vida” e afirma a intenção de honrar e dar continuidade ao legado de Célia Craveiro.

VIVER SAUDÁVEL (VS) – Robustecida, reconhecida e, sobretudo, unida: assim se apresentou a APN a 14 de março, na cerimónia de tomada de posse dos seus novos órgãos sociais. Que associação herdou e como tem sido este arranque de mandato?

Liliana Ferreira (LF) – Partíamos com uma vantagem que muitos antecessores não tiveram: uma APN com vários anos de percurso, uma estrutura sólida, sede própria e finanças orientadas. O nosso objetivo, como digo sempre, é continuar responsavelmente a caminhada que fizemos até então.

Este processo inicial é exigente, porque queremos estar mais presentes. Pessoalmente, tenho tentado estar mais presente em solicitações e representações oficiais, para que se consiga associar a esta nova equipa. Tem sido intenso, pois há muita coisa a acontecer e tomamos posse numa época com muitos congressos, em que tínhamos a organização do CNA a decorrer. É uma mudança agitada, ainda que auxiliada pela estruturação de 12 anos da Célia Craveiro que, por insistência nossa, com base no seu legado, acabou por ficar na mesa da Assembleia Geral.

VS – E como descreve a sua equipa?

LF – É uma equipa com pessoas de muitas áreas, não só de trabalho, mas também geográficas. Neste momento, ainda só não conseguimos abarcar as ilhas, mas foi pensado. Toda a gente dizia: “vamos buscar pessoas que efetivamente já estão em muitas coisas ao mesmo tempo”. É verdade, mas normalmente são essas as pessoas que conseguem dar resposta – é quase uma regra no associativismo. Fomos buscar algumas pessoas que já tinham experiência associativa e que, por serem máquinas de trabalho, nos vão dar resposta no que é necessário. Também tentamos manter alguma paridade, porque tivemos quase todos os homens da Direção anterior a irem embora.

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O objetivo era trazer a diversidade do que já tínhamos, combinando com aquilo que fomos buscar. Fizemos a abordagem à Direção anterior para saber quem é que queria continuar e todos os que manifestaram essa intenção ficaram na equipa, até porque não nos faria sentido que fosse diferente. Foi conversado entre mim e a Joana Araújo, que contactei logo para vice-presidente.

VS – “Nunca escondi que um dia gostaria de assumir maiores responsabilidades na associação, muito embora estivesse longe de imaginar que o caminho me traria aqui tão rapidamente”, confessou, na referida cerimónia. A culpa foi, como disse, de Célia Craveiro?

LF – Não, disse-o em tom de brincadeira, até para aligeirar o ambiente na tomada de posse, que estava a ser um bocadinho mais formal — e eu gosto de quebrar o gelo. Nunca escondi que gostava, um dia, de assumir maiores responsabilidades, porque sempre estive ligada ao associativismo, tinha a perceção do que podia dar à minha área de estudo e de trabalho e porque a APN se alinha, em vários pontos, com a minha visão profissional e até pessoal.

No Congresso [CNA] do ano passado, a Helena Real perguntou-me se achava que a Direção se ia manter. Não estava nada previsto, e eu disse que queria continuar e que, um dia, gostaria mesmo de me candidatar — mas mais lá para a frente, porque tendemos sempre a ver nos mais pequenos do que somos. Tanto assim que, quando a Célia me abordou, respondi que era uma caçula no meio de todos. E ela até brincou: “quando assumi a pasta era mais nova do que tu”. E era mesmo, mas parece que nunca temos essa perceção. O meu raciocínio foi simples: há comboios que não passam duas vezes na vida, ponto.

A partir daí, as coisas começaram a encaminhar-se e, nos contactos que fui tendo, também senti esse apoio por parte do grupo. Depois de esclarecer tudo comigo mesma, acabámos por decidir avançar em equipa — e cá estamos.

VS – Quais são seus desígnios para este mandato?

LF – O nosso objetivo é perceber o que é que a área precisa nos próximos anos. É clichê falar disto, mas é certo que temos um arranque da Inteligência Artificial, que vem substituir várias das nossas tarefas técnicas – e isto é preciso ser dito desta maneira. Sabemos que a desinformação vai continuar a ser um desafio, sem sombra de dúvida. O facto de haver cada vez mais pessoas interessadas na área é benéfico, porque estão mais alertas, mais preocupadas e vão pesquisar, mas muitas vezes é-lhes devolvida uma quantidade de informação errónea, sem evidência.

“Eu venho de uma aldeia muito pequena da região Centro do país e, na altura, as pessoas não sabiam propriamente o que era um nutricionista – não havia”.

Temos um setor de formação que funciona, que tem muita procura, mas sabemos que há uns anos dávamos uma formação sobre nutrição no desporto e, neste momento, os colegas procuram algo mais avançado, para várias modalidades. Há dez anos não necessitaríamos de programar formação especializada para crossfit ou para padel, mas é uma realidade.

Temos ainda uma Ata Portuguesa de Nutrição que está cimentada e é um dos nossos grandes pilares, mas queremos perceber se conseguimos indexá-la noutros locais, fazê-la evoluir e torná-la mais internacional.

VS – No 8.º ano de escolaridade, com apenas 12 anos, estava já certa de que queria ser nutricionista – uma profissão pouco óbvia. Porquê?

LF – Às vezes pensam que é romantizado, mas não. Encontrei há uns anos um daqueles questionários que respondíamos no início de cada ano letivo, [onde já o dizia].

Eu venho de uma aldeia muito pequena da região Centro do país e, na altura, as pessoas não sabiam propriamente o que era um nutricionista – não havia. Havia uma dimensão pessoal, porque a minha mãe era cozinheira num lar de idosos e isso acabou por cruzar-se com aquilo que foi, e continua a ser, o meu percurso.

Recordo-me de um primeiro contacto quando fui para o secundário. Já tinha a decisão mais ou menos tomada: já tinha ido visitar a faculdade que, na altura, era a única pública, no Porto. Depois, fui à FIL, a uma feira das profissões, e vi um stand da FCNAUP com a professora Cláudia Afonso, que hoje é minha orientadora de doutoramento. Lembro-me de ler todos os materiais e pensar: “é isto”. Eu vivi zero do secundário – não ia a festas, a nada – porque aquele era o meu objetivo. Tinha uma média boa e a minha mãe até dizia que devia tentar medicina, mas não era isso que pretendia.

Eu vivi sempre no meio da alimentação. A minha mãe trabalhava [na preparação de] cestos de apoio domiciliário para idosos e a minha brincadeira, na altura em que estas coisas eram possíveis, era ajudá-la – “vais pôr uma laranja, agora vais pôr o pão”. E isto, quer queiramos quer não, acaba por moldar uma criança.

VS – O trabalho no âmbito da terceira idade destaca-se no seu currículo. Esta é ainda uma franja da população negligenciada do ponto de vista nutricional?

LF – Eu cresci ali, num pequeno lar de idosos, numa pequena aldeia. Era a primeira filha, os meus pais trabalhavam e, portanto, saía da escola e ia para ali. Era uma idosa que me ia levar à escola e era um idoso que me ia buscar ao final do dia. Aprendi a jogar dominó e às cartas ali. Cresci no meio deles e sou responsável pelas suas ementas praticamente desde que terminei o curso. Mantive essa ligação e isso acabou por estimular este meu interesse pela população idosa.

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Quando fui à procura de estágio, os meus colegas queriam todos [a área] hospitalar e eu fui à procura numa IPSS. Recebi “500 mil nãos”, até que depois consegui um “sim” na Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde, onde comecei o meu percurso e percebi que gostava muito desta área.

Respondendo à pergunta, não vou dizer que seja negligenciada, mas é uma área menos catchy, ou seja, é mais chamativo trabalharmos com crianças, com uma equipa de futebol. Eu costumo brincar e dizer que “gosto” de ter idosos com 35kg, três feridas e que me digam que é para intervir e fazer o melhor pela pessoa. O desafio para mim é esse, para outros colegas é outro, e está tudo bem.

A primeira formação que dei na área foi precisamente a convite da APN, isto já em 2020, e, entretanto, fiz mestrado em História da Alimentação, mas com idosos. O meu doutoramento é, precisamente, na área da pessoa idosa.

VS – Conta hoje com uma experiência muito vasta, que passa pelo consultório, pela investigação, pelo hospital e também pelas escolas, em várias geografias. É uma profissional inquieta, sempre em busca de novos desafios?

LF – Costumo brincar que sou nómada, fui sempre assim. Aos 17 anos, vou estudar para o Porto porque não havia oferta lá em baixo, e a partir daí estive sempre de mala às costas. Neste momento mantém-se, mas consigo ultrapassar esse desafio. Foi uma conjugação: surgiram coisas e outras fui procurando. No fim do curso, fiquei a trabalhar na zona Norte: faço dois anos em Vila do Conde, fiz um pequeno trabalho em Braga e depois fui para o Hospital de Santo António, no Porto. Após um acidente de carro que me deixou de baixa, surge a vaga na Cáritas de Coimbra, onde fiquei alguns anos. Entretanto, na FCNAUP, surge uma oportunidade para um projeto de investigação, fico um ano e seguiu-se um mix de trabalhos.

Neste momento, assentei na zona Centro porque me permite chegar muito facilmente a todo lado e estar mais perto dos meus pais. Sobre a APN, não viver no Porto [onde se situa a sede] não iria ser um problema, pois sempre estive habituada a fazer esta gestão de ir e vir. De alguma forma, também me dá um pouco de estofo para estas questões associativas, porque uma associação não se faz estando parada. Se cansa? Às vezes, cansa. Mas faz parte.

VS – Como docente universitária e formadora, tem hoje a responsabilidade de ajudar a construir a profissão do futuro. Como é estar desse lado da sala de aula? Como são hoje os alunos e quais as principais diferenças relativamente à sua própria formação superior?

LF – Há colegas que tinham essa pretensão [de dar aulas], mas eu não, até porque, na altura, podia ter seguido diretamente para doutoramento, mas não havia possibilidade a nível económico e queria ir para o mercado de trabalho. Dou algumas aulas na FCNAUP desde 2022 e na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra desde 2023, com uma carga de aulas ligeiramente maior. Já tinha esse gosto quando comecei a dar formação e aumentei-o ainda mais por poder transmitir, quer aos alunos, quer no caso da formação, a colegas, uma abordagem de experiência no terreno e poder juntar aquilo que são as orientações técnico-científicas com a sua aplicação prática.

“Dou por mim, muitas vezes, a parar a aula, a desligar o projetor e a dizer: Vamos pensar em conjunto”.

É um pouco essa abordagem que tento passar aos meus estudantes: que agora temos um acesso muito facilitado ao conhecimento teórico com as suas devidas verificações de veracidade, mas é preciso esta ligação ao terreno. Existem guidelines de orientação da intervenção nutricional no idoso, mas saber onde elas facilmente não funcionam e como é que as posso ultrapassar acaba, muitas das vezes, por ser uma mais-valia. Nas disciplinas direcionadas à profissão, essa ligação faz muita diferença e aproxima os estudantes do que possa ser uma futura realidade humana. Fá-los imaginar o que podem vir a fazer, e, de alguma forma, isso estimula-os.

Nos estudantes, noto uma geração que passou muito tempo fechada em casa, às vezes com algumas dificuldades em trabalhos de grupo, e tento estimulá-los ao máximo. Recentemente, estava a dar aula e disse: “Não quero que decorem, quero que pensem porque é que isto faz sentido ou não”, porque, de outra forma, não se consegue aplicar nenhum conhecimento. Neste momento, o que sentimos é uma necessidade de trabalhar o espírito crítico com eles. Dou por mim, muitas vezes, a parar a aula, a desligar o projetor e a dizer: “Vamos pensar em conjunto”. Uma vez lá fora, essa análise crítica faz diferença, independentemente da área. Sem espírito crítico na análise da pessoa à minha frente, não consigo fazer o meu trabalho de forma mais profícua.

VS – Os Conselhos de Especialidade da Ordem dos Nutricionistas vão a votos no dia 27 de junho. Como especialista em Alimentação Coletiva e Restauração, como olha para esta valência profissional?

LF – Sou uma das suplentes do Conselho, mas nunca foi necessário efetivar essa função, porque os restantes colegas se mantiveram. Foi uma experiência muito enriquecedora, não só pelo trabalho com aquele grupo, mas também pela compreensão de todo o processo — até porque o meu ano e o anterior foram os últimos com possibilidade de acesso à especialidade por equiparação.

Esta é a especialidade que continuo a sentir que as pessoas menos associam à profissão de nutricionista, no sentido em que consideram, erradamente, que não exercemos funções de promoção da saúde. E quem pensa assim não está a olhar para a questão de forma abrangente nem a fazer um raciocínio completo. A partir do momento em que eu, enquanto especialista, trabalho numa IPSS onde tenho centenas — para não dizer milhares — de pessoas a consumir refeições que fui eu que defini, como é que não estou a intervir na saúde? Quem trabalha numa IPSS, numa autarquia, numa empresa de restauração coletiva ou na restauração pública está, efetivamente, a trabalhar saúde.

Dou muitas vezes este exemplo: há a ideia de que um nutricionista é “menos nutricionista” se trabalhar em alimentação coletiva, só porque tem de saber para que servem determinados produtos de limpeza numa cozinha. Mas, se eu não souber que produtos tenho e como os utilizar, não consigo garantir a segurança microbiológica das refeições. E, se trabalho com populações vulneráveis, que reagem de forma muito diferente a uma pequena contaminação — algo que a nós poderia não fazer nada, mas que pode colocar um idoso no hospital — como é que isso não é trabalhar para a saúde? Isto é algo que precisamos de explicar melhor às pessoas.

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Enerva-me um bocado porque, efetivamente, sentimos essa desvalorização. E trabalhamos para que não se acentue, explicando isso também aos alunos. Porque continuamos a ouvir: “não, eu não tenho interesse nessa área”. Depois chegam às disciplinas, têm o primeiro contacto e pensam: “afinal isto é interessante e nós também trabalhamos para a saúde das pessoas”. Claro que trabalhamos — senão, íamos tirar Hotelaria.

VS – Pode haver aqui alguma confusão ou desvalorização relativamente à nutrição comunitária e saúde pública?

LF – Mais na área da nutrição clínica. Na nutrição comunitária e saúde pública, de todo. Durante muitos anos, a sociedade olhou para o nutricionista como o profissional que dá consultas para emagrecer — era essa a ideia. Felizmente, 18 anos depois de ter entrado na faculdade, as coisas já são vistas de forma diferente. Ainda assim, sinto que esta continua a ser uma batalha.

As especialidades vieram ajudar. No início, confesso que era bastante reticente em relação a este processo, porque, na altura em que surgiram, trabalhava numa IPSS onde fazia um pouco de tudo. Sentia que, de alguma forma, nos estavam a obrigar a “encaixar” numa gaveta. Com o tempo, percebi que o objetivo da especialidade não é restringir, mas antes reconhecer competências mais aprofundadas numa determinada área — até porque ter uma especialidade não nos impede de vir a ter outra.

VS – Onde estamos e para onde vamos?. Que radiografia faz da profissão?

LF – Não posso deixar de destacar a desinformação, os veículos pelos quais comunicamos e a forma como comunicamos. Temos uma responsabilidade acrescida e isso não pode nunca ser esquecido. Quando entrei na faculdade, havia coisas que nem eram faladas e passamos literalmente para o extremo oposto.

Continua a ser um desafio que vai moldar o caminho nos próximos anos. Ou seja, o que é que sabemos, como é que explicamos isso ao público, como é que pomos as pessoas a perceber que nem tudo é verdade, a aplicar aquilo que sabem, a não se deixarem enredar por uma teia onde toda a gente parece saber falar sobre nutrição e alimentação, quando isso não é verdade.

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Algo que também vai marcar [a profissão] é um progressivo afunilamento de algumas áreas. Temos cada vez mais áreas de estudo e atuação específicas, mais de nicho, o que é um desafio para todos nós. Há 15 anos, tínhamos um curso sobre nutrição gastrointestinal. Neste momento, conseguimos abrir várias formações, uma em FODMAPs, uma em SIBO, outra em doença de Crohn. Porquê? Porque a comunidade procura esses cuidados e os colegas também querem especificar o seu conhecimento.

Essa rapidez também veio a par com o crescimento do número de cursos, com mais colegas. Mas agora, numa altura em que temos a profissão regulada, é mais fácil conseguirmos gerir essa parte.

 

Esta Grande Entrevista foi originalmente publicada na edição n.º 100 (maio, 2026) da Revista VIVER SAUDÁVEL