“Não somos a doença”: Bárbara reaprendeu a encontrar prazer na alimentação face à anorexia

“O RIPA [Resposta Integrada para as Perturbações Alimentares] foi o meu ponto de mudança. Não sei se estaria cá hoje para estarmos a ter esta entrevista“. Há frases que não precisam de explicação. Bárbara Batista não está apenas a falar de um tratamento, está a falar de um momento em que a vida podia ter seguido outro rumo.

Durante anos, acreditou que controlar a comida era a única forma de controlar tudo o resto. “Tenho anorexia nervosa desde os 13 anos. Neste momento tenho 28 anos e isto é mais de metade da minha vida”, conta ao portal VIVER SAUDÁVEL (VS).

As refeições deixaram de ser encontros. Tornaram-se ameaças. Comer em frente de outras pessoas era quase impossível. O corpo emagrecia, mas a doença crescia.

Em 2023, quando chegou ao Projeto RIPA, criado pelas Irmãs Hospitaleiras da Clínica de São José, em Lisboa, Bárbara pesava 36 quilos. Hoje pesa 53. “Foi este projeto que me fez perceber que eu não sou a doença e que a doença não é mais forte do que eu“, desabafa.

A recuperação começou com um internamento nada tradicional, de três meses e meio, no RIPA. Neste espaço, para além das refeições que faziam parte do tratamento, havia também psicoterapia individual e de grupo, nutrição, enfermagem, ioga, tai chi, pintura, teatro e atividades que ajudavam os doentes a recuperar algo que a doença lhes tinha roubado: o interesse pela vida.

Grande Entrevista: “Estamos num ponto sem retorno relativamente à profissão de nutricionista”

O caminho desta paciente não foi linear. Houve um momento em que “bateu mesmo lá no fundo” e o seu “estado muito debilitado” levou a equipa médica a ponderar um internamento no Hospital de Santa Maria. Mas essa possibilidade obrigou-a a confrontar algo que durante muito tempo recusou aceitar, a promessa interna de que “nunca iria ser internada”.

O RIPA tornou-se a alternativa: exigente, estruturada, mas mantendo aberta a ligação à vida fora da instituição.

Um hospital de dia onde se aprendia a viver

No total, passaram pelo RIPA 61 pessoas. Ali, os doentes chegavam de manhã e regressavam a casa ao final da tarde.

Pelo espaço havia também aquilo que raramente aparece nas descrições formais dos hospitais: tempo para conversar, rir, criar relações e descobrir interesses. “As atividades faziam-nos despertar interesses que, ao longo da anorexia, acabámos por esquecer. Ajudavam-nos a focar a atenção em coisas que não eram a doença, nem aquilo que sentíamos em relação ao nosso corpo”, conta Bárbara Batista.

Também as refeições eram diferentes. A equipa sentava-se à mesa com os utentes. Conversava. Observava. Escutava. “Aproveitávamos muito para estarmos, sem sermos técnicos, mas simplesmente como pessoas”, explica a psicóloga Carla Costa. “Era um momento em que falávamos das dificuldades, da angústia que podia provocar uma fatia de pão ou uma peça de fruta, mas sempre numa perspetiva leve, nunca punitiva. Queríamos mostrar que, para nós, portugueses, uma refeição vai muito além da comida. Vai muito para o lado emocional, da partilha, das boas memórias que podemos ter à volta de uma mesa”, continua a profissional que acompanha esta área há vários anos nas Irmãs Hospitaleiras e que integrou a criação do projeto desde o início.

A rotina alimentar era estruturada. Havia lanche a meio da manhã, à tarde, almoço, acompanhamento e supervisão. A nutrição é uma das peças centrais do tratamento, mas por razões que vão muito além da alimentação. Nas perturbações do comportamento alimentar, explicam os especialistas, o problema não está apenas no que se come, mas na relação construída com a comida. “Há ideias erróneas sobre alimentos bons e maus, sobre aquilo que se pode ou não comer, e é preciso desconstruir tudo isso“, explica Carla Costa.

Também o diretor clínico das Irmãs Hospitaleiras, Pedro Varandas, conversou com o portal VS. Um dos fundadores do projeto sublinha que, no campo da nutrição, o maior desafio não é calcular calorias ou elaborar planos alimentares, que é “a parte mais fácil”.

Carla Costa: “Queremos um foco na vida, nas sensações que o corpo pode viver, nas experiências que podemos ter”

A verdadeira dificuldade está na relação terapêutica: acompanhar pessoas que vivem cada refeição como uma negociação, discutem “grão a grão de arroz” e lutam contra a própria necessidade de comer. “Numa anorética está tudo ao contrário: eu estou ali para ajudar a pessoa a comer e ela está ali a lutar para não engordar“, lamenta.

A recuperação de Bárbara não aconteceu do dia para a noite. “A doença começa a tomar conta de nós e perdemos completamente o controlo daquilo que fazemos contra nós próprias. O momento de viragem aconteceu quando ouvi outras pessoas que tinham passado pelo RIPA darem o seu testemunho e dizerem que era possível recuperar. E eu não quis permitir que a anorexia assolasse a minha vida e que eu vivesse dependente e refém desta doença, da minha mente, porque a mente acaba por ser uma jaula”, afirma.

Os primeiros dias foram difíceis. O salto entre a restrição extrema e uma alimentação adequada parecia impossível. “Na altura achava que era um terror aquilo que elas nos mandavam comer porque, para quem não come nada, passar a comer uma certa quantidade que uma nutricionista recomenda é um passo gigante e é como enfrentar um demónio”.

Mas, aos poucos, o corpo começou a reaprender. “Eles estavam lá connosco durante os momentos de refeição, para garantir que comíamos, que não fazíamos nada com a comida. Hoje em dia olho para trás e percebo que aquilo que fazíamos no RIPA era uma reeducação alimentar. Nós estávamos completamente desnutridas. O nosso corpo precisava novamente de aprender”, relembra Bárbara.

Antes do projeto, a sua alimentação era insuficiente para as necessidades do seu corpo. “Eu tomava o pequeno-almoço, mas não comia nada a meio da manhã. O almoço, se fosse preciso, era só uma sopa. Não lanchava e ao jantar comia qualquer coisa muito leve”, detalha.

Uma rotina alimentar estruturada

  • Antes da chegada ao RIPA: pequeno-almoço em casa;
  • Meio da manhã: iogurte com uma peça de fruta ou uma fatia de pão (alguns utentes tinham suplementação alimentar, de acordo com o plano individual);
  • Almoço: sopa, prato principal e fruta;
  • Lanche da tarde: semelhante ao lanche da manhã, com fruta, pão e iogurte, ajustado às necessidades de cada pessoa;
  • Após a saída: jantar e ceia em casa, seguindo o plano alimentar definido pela equipa.

As refeições eram supervisionadas por enfermeiros, que acompanhavam os utentes durante todo o processo, ajudando a gerir a ansiedade, as dificuldades e os comportamentos associados à doença.

A melhor relação com a comida, apesar de ser o propósito, não veio só. O RIPA trouxe, também, companhia. “Mesmo quando não queríamos recuperar, elas nunca desistiram de nós. Nunca. Lutavam por nós, mesmo quando já não estávamos a lutar por nós próprias“, confessa.

Muito mais do que recuperar peso

À primeira vista, pode parecer que o tratamento de uma perturbação alimentar passa sobretudo por voltar a comer. Mas quem trabalha nesta área garante que essa é apenas uma pequena parte da recuperação.

“Queremos que não haja um foco só na quantidade de comida que ingerem ou não. Queremos um foco na vida, naquilo que são as sensações que o corpo pode viver, nas experiências que podemos ter, voltar a ganhar o gosto por estar com pessoas“, sublinha Carla Costa.

Para a psicóloga, uma das maiores dificuldades destas doenças está precisamente no facto de a relação com a comida ser apenas uma expressão de algo mais profundo. “Muitas usam a expressão de que têm uma relação com a comida, mas os alimentos são para comer. Os alimentos não se riem connosco, não se zangam connosco, não têm nenhuma interação. Há um trabalho muito intenso para que elas percebam que existe uma escolha diária: voltar a escolher a vida“, aponta.

É precisamente nesta ideia que Pedro Varandas encontra um dos maiores equívocos sobre estas doenças. “Se eu pensar que o meu problema não é tanto a imagem corporal, mas sim a vivência do meu corpo, então aquilo que tenho de corrigir é dirigir-me, em particular, para esse mal-estar. Pensar que tenho de trabalhar aquele corpo de uma maneira que ele possa sentir-se bem. Passar a dar àquele corpo coisas que o façam sentir bem, uma outra perspetiva de que aquele corpo é uma coisa boa, que nos faz sentir bem”, sublinha.

Pedro Varandas: “A anorexia continua a ser uma doença profundamente misteriosa ainda hoje”

Para o psiquiatra e diretor clínico, o objetivo não é apenas alterar aquilo que a pessoa vê ao espelho, mas também aquilo que sente quando habita o próprio corpo. Esta visão é essencial para compreender porque é que estas doenças podem tornar-se tão difíceis de ultrapassar. A anorexia não é apenas uma tentativa de emagrecer, é uma doença onde o controlo pode transformar-se numa prisão.

“A anorexia continua a ser uma doença profundamente misteriosa ainda hoje”, explica Pedro Varandas. “Estas doenças são muito mais do que uma questão de imagem. Há uma sensação de poder neste controlo. Em determinada altura, o mecanismo torna-se muito semelhante ao das dependências. Há aqui uma noção de risco de vida, há uma noção perfeita, não estão ausentes de consciência, mas continuam neste caminho de mais um quilo abaixo”.

A pessoa sabe que está em sofrimento, sabe que existe um risco mas, ao mesmo tempo, sente dificuldade em abandonar aquilo que, durante muito tempo, lhe deu uma falsa sensação de segurança. “Uma pessoa que está doente quer melhorar. A pessoa com anorexia também quer melhorar, mas não resiste a continuar doente para poder continuar naquele nível de magreza, para poder sentir o bem-estar que aquele corpo, daquela maneira, lhe reconhece“, explica. É uma contradição difícil de explicar e é exatamente nela que o tratamento trabalha.

Pintar o corpo para o voltar a sentir

Uma das atividades mais marcantes do Projeto RIPA começava de forma simples: os utentes deitavam-se no chão enquanto um colega desenhava o contorno do seu corpo numa folha de papel de grandes dimensões. A partir dessa silhueta, cada um era convidado a preencher o desenho com cores, palavras ou símbolos que traduzissem a forma como vivia o próprio corpo.

Mais do que representar a aparência física, o desafio procurava dar forma às emoções, aos medos e aos conflitos que a doença tantas vezes torna difíceis de expressar.

Bárbara chegou a pesar 36 quilos e viu a sua silhueta desenhada em papel

Para Bárbara, foi uma das experiências mais intensas do tratamento. “Recordo-me bastante bem dessa atividade. Para mim foi um choque. Olhava-me ao espelho e via-me muito gorda. Ver aquele desenho criou aqui algum impacto“, lembra.

Em vez de desenhar imagens, escolheu palavras, “sentimentos que tinha em relação ao próprio corpo”. De seguida, Bárbara associava cada sentimento a uma cor. “Acho que foi uma atividade muito intensa. Muito, muito intensa”, insiste.

Segundo a equipa clínica, este tipo de exercício permitia trabalhar aquilo que está para além da imagem corporal: a forma como cada pessoa sente e experiencia o próprio corpo.

Uma resposta única em Portugal

Criado com financiamento da Fundação «la Caixa», o RIPA acompanhou cerca de seis dezenas de pessoas e monitorizou os resultados desde o primeiro dia.

A equipa observou melhorias na ansiedade, na depressão, na estabilização clínica e, sobretudo, na recuperação da autonomia. O diretor clínico, Pedro Varandas, acrescenta que “os resultados ficaram muito acima do que é habitual“.

Apesar disso, o financiamento terminou. O último apoio veio após uma candidatura ao PRR, através do Portugal Inovação Social, que não chegou a ver a luz do dia. Uma “inabilidade” relacionada com a falha de prazos na apresentação da candidatura e porque, a certa altura, a equipa sentiu que “já não conseguia comunicar o benefício do modelo”, o que fez com que “perdesse dezenas de milhares de euros”.

“As nossas instâncias mais altas diziam que o projeto era lindíssimo e que iam cultivá-lo. Mas ele tem que ser sustentável“, lamenta Pedro Varandas.

Para a equipa, perder esta resposta significa perder um modelo terapêutico que ia muito além da consulta tradicional. “O hospital de dia permitia trabalhar a relação com a casa, a família, a escola, o trabalho e a comunidade. É uma resposta única em Portugal e só será possível mantê-la se existir um financiamento estável“, defende o psiquiatra.

O hospital de dia encerrou, mantendo-se apenas a consulta especializada de psiquiatria, psicologia e nutrição. A equipa acredita que uma resposta desta natureza deveria integrar a rede pública de cuidados.

O caso Lady Di

Em 1993, durante um congresso internacional sobre perturbações do comportamento alimentar, Diana, princesa de Gales, falou publicamente sobre a sua experiência com a bulimia nervosa. Para o diretor clínico do Projeto RIPA, que assistiu à sessão, foi um momento marcante.

“Lembro-me de pensar que isto seria impossível em Portugal. Era uma princesa a dizer, em público, que estava ali para falar da sua doença. Aquilo teve um impacto enorme” lembra Pedro Varandas.

A bulimia nervosa tinha sido descrita poucos anos antes pelo psiquiatra britânico Gerald Russell, cujo trabalho foi decisivo para o reconhecimento clínico da doença. O médico identificou um sinal físico característico em muitos doentes que provocavam o vómito de forma repetida: o chamado “sinal” ou “calo de Russell“, uma calosidade que surge nos nós dos dedos devido ao contacto frequente com os dentes durante a indução do vómito.

“Tivemos pessoas doentes desde os 12 ou 13 anos que conseguiram melhorar, emigrar, construir relações e fazer projetos de vida que antes pareciam impossíveis”, conta ao portal VS a psicóloga Carla Costa.

Porque, como demonstra a história de Bárbara, recuperar não significa apenas ganhar peso. Significa voltar a viver. Hoje, vive nos Países Baixos. Trabalha, cozinha, faz compras sem fugir dos corredores onde antes via apenas medo. Continua a ser acompanhada porque a recuperação não acontece num dia nem termina quando o peso estabiliza.

Diz-nos que recuperou muito mais do que 17 quilos. Recuperou a capacidade de sentir fome, de jantar com outras pessoas, fazer planos e de cuidar de si. “Quero mostrar aos meus pais e ao meu irmão que sou capaz de tomar conta de mim. Sei que preciso de comer para ter energia e para estar saudável. Cozinho para mim todos os dias“, partilha.

 

Quem lê esta frase pode pensar que fala apenas de alimentação, mas na verdade, fala de liberdade, que pode começar, como resume Bárbara Batista, “quando reconhecemos que não estamos bem e que precisamos de ajuda”.