Muito para além do prato: a relação que temos com a alimentação

Por Helena Paixão, Psicóloga Clínica, CEO & Founder da Clínica Helena Paixão – Psicologia, Mindfulness e Desenvolvimento Pessoal

Quando pensamos em alimentação saudável, é natural que a nossa atenção se volte para os alimentos: aquilo que devemos comer, as quantidades, os nutrientes, as calorias, as dietas da moda ou os planos alimentares mais adequados. Procuramos a combinação perfeita para cuidar do corpo e prevenir a doença. No entanto, existe uma pergunta que fazemos muito menos vezes e que pode ser uma das mais importantes: como é a nossa relação com a alimentação?

Porque comer nunca foi apenas um ato biológico.

A alimentação faz parte da nossa história, das nossas emoções e das nossas relações. Celebramos acontecimentos importantes à volta da mesa, confortamo-nos com determinados sabores, mantemos tradições familiares através das receitas que passam de geração em geração e recordamos pessoas queridas através dos pratos que preparavam. Existem alimentos que nos fazem sentir em casa, outros que nos recordam a infância e outros que escolhemos para celebrar momentos felizes.

Os alimentos carregam significado e é, precisamente, por isso que a nossa relação com a alimentação precisa ser olhada com maior profundidade. Pode constituir um problema quando a comida deixa de ser uma fonte de nutrição, prazer e convívio para passar a assumir um papel de reguladora emocional. Há quem procure comida para aliviar a ansiedade depois de um dia particularmente exigente. Há quem coma para preencher um sentimento de vazio, para diminuir a tristeza ou para encontrar conforto. Outras pessoas vivem exatamente o extremo oposto, passam grande parte do tempo a controlar aquilo que comem, com medo de engordar, sentindo culpa sempre que acreditam ter falhado. Em qualquer uma destas situações, a alimentação deixa de responder apenas às necessidades do organismo e passa a responder a necessidades emocionais.

É por isso mesmo que falar de alimentação saudável implica, inevitavelmente, falar também de saúde mental. Vivemos numa época em que nunca foi tão fácil comparar o nosso corpo com o dos outros. As redes sociais mostram-nos diariamente fotografias cuidadosamente selecionadas, corpos aparentemente perfeitos, rotinas alimentares irrepreensíveis e estilos de vida que parecem não admitir imperfeições. Entre receitas milagrosas, desafios de perda de peso e tendências alimentares que mudam quase semanalmente, é fácil acreditar que existe uma forma “certa” de ter um corpo saudável. Porém, a realidade é bem diferente. Aquilo que vemos representa apenas pequenos recortes da vida das pessoas e não a sua realidade completa. Muitas vezes, esquecemo-nos de que cada organismo é único, cada história é diferente e cada pessoa tem necessidades físicas, emocionais e sociais próprias.

Quando a comparação passa a fazer parte do nosso dia a dia, a autoestima torna-se cada vez mais dependente da imagem refletida ao espelho ou do número apresentado pela balança. O corpo deixa de ser um lugar onde habitamos para passar a ser um projeto permanente de melhoria. E quando isso acontece deixamos, frequentemente, de cuidar da saúde para começarmos apenas a perseguir um ideal de aparência.

A verdadeira saúde não se mede apenas pelo peso corporal, mede-se também pela qualidade da relação que estabelecemos connosco próprios.

É por isso que condições como a obesidade ou as perturbações do comportamento alimentar, entre elas a anorexia nervosa, não podem ser compreendidas apenas através da alimentação ou do peso. São situações complexas, influenciadas por fatores biológicos, psicológicos, familiares, sociais e culturais. Subjacente a muitos comportamentos alimentares existem emoções difíceis de gerir, experiências de vida, crenças sobre o próprio valor, vergonha, ansiedade ou um profundo sentimento de rejeição ou inadequação.

Reduzir estas realidades à falta de força de vontade ou à ideia simplista de que basta “comer menos” ou “comer mais” é ignorar toda esta complexidade humana. É aqui que o trabalho multidisciplinar assume um papel fundamental. Os nutricionistas desempenham uma função determinante na promoção da saúde, da literacia alimentar e da prevenção da doença. O seu conhecimento científico é indispensável para ajudar cada pessoa a construir hábitos alimentares ajustados às suas necessidades. Contudo, mudar comportamentos nem sempre depende apenas de saber o que devemos comer. Muitas pessoas conhecem perfeitamente as recomendações nutricionais, sabem aquilo que lhes faria bem, ainda assim, podem sentir dificuldade em manter essas mudanças ao longo do tempo.

E a questão deixa de ser “o que falta saber?” para passar a ser “o que está a dificultar esta mudança?”. Será ansiedade? Será perfeccionismo? Será uma autoestima demasiado dependente da imagem corporal? Será a utilização da comida como estratégia para regular emoções?

Explorar este caminho e ir ao encontro destas respostas pertencem também ao domínio da Psicologia. Quando nutricionistas, psicólogos e outras áreas da saúde trabalham em conjunto, a intervenção torna-se mais completa. Enquanto o nutricionista ajuda a estruturar hábitos alimentares saudáveis, o psicólogo ajuda a compreender os padrões emocionais que influenciam esses comportamentos, promovendo estratégias de regulação emocional, autoestima, aceitação corporal e mudança sustentável. Sendo o papel do médico também absolutamente fundamental nestes processos. Mais do que mudar aquilo que está no prato, procura-se transformar a relação que a pessoa estabelece consigo própria. Também a forma como os profissionais comunicam faz toda a diferença. Uma abordagem verdadeiramente humana implica escutar antes de aconselhar, compreender antes de julgar e reconhecer que cada pessoa chega à consulta com uma história diferente. A empatia não substitui o conhecimento técnico, complementa-o. E é esta combinação que aumenta a adesão às recomendações e promove mudanças mais consistentes.

Nos últimos anos, o mindfulness tem vindo a oferecer um contributo importante para esta área através da alimentação consciente, ou mindful eating. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, não se trata de uma dieta nem de um conjunto de regras alimentares. Trata-se de aprender a estar presente no momento da refeição, observando a experiência com curiosidade e sem julgamento.

Significa reconhecer os sinais de fome e de saciedade, distinguir a fome física da fome emocional, comer com maior atenção aos sabores, aos cheiros e às sensações do corpo, reduzindo o automatismo que tantas vezes caracteriza a forma como nos alimentamos.

Quantas refeições fazemos enquanto respondemos a emails, percorremos as redes sociais ou vemos televisão? Quantas vezes terminamos um prato sem verdadeiramente nos lembrarmos do seu sabor?

Quando voltamos a estar presentes durante as refeições, recuperamos a capacidade de ouvir o corpo em vez de viver exclusivamente orientados por regras externas.

O mindfulness ajuda-nos igualmente a desenvolver uma atitude mais compassiva perante nós próprios. Em vez de encararmos cada refeição como um teste ao nosso valor pessoal, aprendemos a olhar para os nossos comportamentos com maior compreensão e menor crítica. Esta mudança pode parecer subtil, mas tem um impacto profundo na forma como cuidamos da nossa saúde.

Num mundo onde somos constantemente convidados a comparar-nos, uma das maiores formas de resiliência pode passar por aprender a fazer silêncio perante esse ruído.

Silenciar a ideia de que existe um corpo ideal. Silenciar a crença de que o nosso valor depende da aparência. Silenciar a culpa que tantas vezes acompanha aquilo que comemos. E lembrar que o nosso corpo não tem de corresponder às tendências do momento para merecer respeito.

E a nossa alimentação não precisa de ser perfeita para ser saudável.

Viver saudável é muito mais do que seguir um plano alimentar. É construir uma relação equilibrada com a comida, com o corpo e com a mente. É cuidar da saúde física sem esquecer a saúde mental e emocional. É compreender que a alimentação pode continuar a ser uma fonte de prazer, de convívio e de bem-estar, sem deixar de ser um ato de autocuidado.

Para contribuirmos para uma mudança de paradigma precisamos deixar de questionar apenas “o que devo comer?” e começar, também, a colocar no centro a questão “como escolho relacionar-me com a alimentação?”. A resposta a essa pergunta pode dizer muito sobre a forma como nos tratamos. E cuidar verdadeiramente da saúde começa, muitas vezes, exatamente aí.