Por Diana Teixeira, nutricionista especialista em Nutrição Clínica (1230N) e professora auxiliar na Faculdade de Ciências Medicas | NOVA Medical School, da Universidade NOVA de Lisboa.
A introdução dos agonistas do recetor GLP-1 e dos agonistas duplos GLP-1/GIP representa um dos avanços mais significativos no tratamento da obesidade das últimas décadas. Pela primeira vez, dispomos de terapêuticas farmacológicas capazes de induzir perdas de peso superiores a 15% do peso corporal inicial. Perante estes resultados, muitos questionam: será que a alimentação, a atividade física e a mudança comportamental continuam a ser tão importantes no tratamento da obesidade?
Curiosamente, o enorme destaque dado a estes fármacos teve um efeito inesperadamente útil: trouxe para o centro da discussão pública benefícios do tratamento da obesidade que a ciência documenta há décadas. A redução do risco cardiovascular, a melhoria do controlo glicémico, a diminuição da inflamação sistémica e a melhoria de múltiplos parâmetros metabólicos são hoje amplamente divulgadas como resultados clínicos associados ao tratamento com agonistas do recetor GLP-1 e dos agonistas duplos GLP-1/GIP. No entanto, estes resultados não são novos. Benefícios semelhantes têm sido consistentemente demonstrados ao longo das últimas décadas em estudos que avaliam intervenções nutricionais, promoção da atividade física e estratégias de mudança comportamental no tratamento da obesidade.
Durante muitos anos, a mudança comportamental conduziu a resultados clinicamente relevantes que raramente mereciam destaque na comunicação social ou no debate público. Estes novos fármacos vieram, de certa forma, validar publicamente aquilo que a evidência científica já demonstrava: reduzir a adiposidade excessiva melhora a saúde. E este reconhecimento não é irrelevante, desde que não conduza à conclusão errada de que o benefício resulta exclusivamente do fármaco e não da perda de peso e das alterações metabólicas que a acompanham.
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Perante estes resultados, é compreensível que grande parte da atenção científica e mediática se tenha centrado nos fármacos. No entanto, à medida que se acumula a evidência, emerge uma questão relevante: estaremos a subvalorizar o papel dos comportamentos no tratamento da obesidade?
Apesar da obesidade apresentar uma importante componente genética, muitos dos genes associados à doença influenciam sobretudo mecanismos relacionados com o apetite, a saciedade e o comportamento alimentar. Em larga medida, a predisposição genética manifesta-se através da forma como cada indivíduo interage com o ambiente alimentar.
Esta perspetiva ajuda a compreender porque motivo a intervenção para a mudança comportamental continua a constituir a base do tratamento da obesidade. Este princípio mantém-se inalterado e está refletido em todas as recomendações clínicas internacionais, independentemente de a abordagem ser não farmacológica, farmacológica ou cirúrgica. A alimentação, a atividade física, o sono e outras dimensões do estilo de vida continuam a ser os principais mediadores através dos quais fatores biológicos, psicológicos e ambientais influenciam o peso corporal e a saúde metabólica ao longo do ciclo de vida.
E apesar destes novos fármacos atuarem precisamente sobre alguns dos mecanismos biológicos envolvidos na regulação da fome e da saciedade, não substituem os comportamentos que sustentam a saúde a longo prazo. Não aumentam a aptidão física, não promovem a prática regular de atividade física, não melhoram a literacia alimentar nem alteram os contextos sociais e ambientais que favorecem o ganho de peso.
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Por essa razão, a perda de peso induzida pela terapêutica farmacológica deve ser encarada como uma oportunidade terapêutica. A redução do apetite e a melhoria do controlo do consumo alimentar podem criar condições mais favoráveis para a adoção de novos comportamentos, potenciando a implementação de estratégias nutricionais e de atividade física que anteriormente eram mais difíceis de sustentar.
A importância dos comportamentos torna-se ainda mais evidente quando analisamos a manutenção dos resultados após a interrupção da terapêutica farmacológica. Uma revisão recente publicada na eClinicalMedicine demonstrou que uma proporção relevante dos indivíduos recupera parte significativa do peso perdido após a suspensão dos agonistas do recetor GLP-1, frequentemente acompanhada pela deterioração de parâmetros cardiometabólicos como a glicemia, a pressão arterial, o perímetro da cintura e o perfil lipídico.
Este resultado não representa uma falha terapêutica. Pelo contrário, reflete a complexidade dos mecanismos biológicos envolvidos na regulação do peso corporal. Após uma perda de peso significativa, o organismo desencadeia um conjunto de adaptações neuroendócrinas que ajudam a recuperar as reservas energéticas, incluindo aumento dos sinais de fome, diminuição da saciedade, redução do gasto energético e maior eficiência metabólica. Estas respostas fisiológicas tendem a favorecer a recuperação do peso perdido, tornando a manutenção dos resultados um desafio biológico complexo e não apenas uma questão de motivação ou força de vontade.
A discussão atual já não deve centrar-se apenas em quanto peso é possível perder com estes fármacos. A questão mais importante é quanto desse benefício conseguimos preservar ao longo dos anos. E é precisamente aqui que a intervenção para a mudança comportamental assume um papel determinante.
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Apesar dos avanços farmacológicos, a promoção da alimentação saudável, a atividade física e a mudança comportamental continuam a constituir a base do tratamento da obesidade e a estratégia mais custo-efetiva para o tratamento da obesidade. Os agonistas do recetor GLP-1 representam uma estratégia terapêutica, mas não substituem a mudança comportamental que sustenta os resultados a longo prazo.
Mais do que uma alternativa à intervenção nos estilos de vida, estes fármacos vieram reforçar uma mensagem que a ciência conhece há décadas: a perda de peso pode iniciar a mudança, mas são os comportamentos que permitem mantê-la.
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