Da fertilidade à menopausa: O papel da nutrição na saúde da mulher

A alimentação pode fazer a diferença na fertilidade, na gestão dos sintomas da menopausa e na qualidade de vida das mulheres com endometriose. Especialistas discutiram, na Madeira, o contributo da nutrição ao longo das diferentes fases da vida da mulher.

A relação entre alimentação, peso corporal e saúde da mulher esteve em destaque nas III Jornadas organizadas pelo Serviço de Nutrição do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM), que decorreram a 19 de junho, no Hospital Dr. Nélio Mendonça, no Funchal.

A infertilidade afeta cerca de 15% dos casais em todo o mundo e o estado nutricional é um dos fatores que pode influenciar a fertilidade. O peso corporal pode ser um fator de risco e não apenas quando existe um diagnóstico de obesidade.

“Por um lado, a obesidade vai comprometer a fertilidade, uma vez que está associada a uma maior resistência da insulina, mas também a magreza com a ausência da ovulação vão ter impacto direto na fertilidade. Cada vez mais percebemos que o tecido adiposo não é uma mera reserva energética, é um órgão que tem uma influência direta na produção hormonal”, disse Alison Karina de Jesus, do SESARAM.

Nutricionistas: Precisamos de um sindicato?

A nutricionista alertou, no entanto, que o foco não deve ser colocado exclusivamente no peso corporal. “As dietas restritivas muitas vezes podem promover défices nutricionais”. Ainda que admita que o tratamento farmacológico com análogos do GLP-1 possa ser útil em casos de obesidade ou em mulheres com Síndrome de Ovário Policístico, Alison Karina de Jesus sublinha que esta não é “uma tábua de salvação e tem de existir uma monitorização nutricional de vida”, ressalva.

A dieta e a fertilidade

Não há uma dieta específica para a fertilidade feminina, mas a evidência científica mostra que uma alimentação pobre em fibra e onde predominam gorduras aumenta o risco de causar distúrbios hormonais.

Já a dieta mediterrânica, com o consumo de alimentos com baixo índice glicémico, rica em vegetais, menos proteínas de origem animal, como é o caso das carnes vermelhas, “parece diminuir a resistência à insulina, os distúrbios metabólicos, menor risco de obesidade e vai ter aqui um efeito positivo na fertilidade”, refere a nutricionista Alison Karina de Jesus.

O ácido fólico, ferro e iodo reúnem o maior consenso nas recomendações nutricionais dos especialistas que continuam a alertar para os riscos que acarretam substâncias como bebidas alcoólicas ou a cafeína. “Encontramos em consulta mulheres que têm um ritmo muito acelerado e que acabam por consumir muitos cafés por dia. Daí a importância de as sensibilizarmos para um consumo mais moderado, estamos a falar mais ou menos de 200 mg por dia, à volta das duas bicas por dia”.

Alimentação durante a menopausa

Depois de uma intervenção inicial sobre alimentação e fertilidade, foi a vez do tema abordado ser a menopausa.

Numa fase da vida da mulher em que existem várias alterações fisiológicas e hormonais, que podem comprometer a saúde cardiometabólica, a saúde óssea e a saúde muscular, a alimentação assume também um papel fundamental. “Vai ser muito importante, não só do ponto de vista terapêutico, ou seja, da gestão de sintomas, mas principalmente do ponto de vista preventivo”, afirmou a nutricionista Beatriz Azevedo.

Uma das queixas mais relatadas nas consultas de nutrição tem a ver com a dificuldade na perda de peso. “A mulher acaba por ter uma alteração no padrão de acumulação da gordura e há também uma redução da massa magra e é precisamente esta redução da massa magra que vai impactar mais na redução da taxa metabólica basal que depois irá influenciar então a dificuldade na gestão de peso”, explicou.

Suplementação na menopausa

Os nutricionistas alertam que as mulheres só devem iniciar a toma de suplementos, como é o caso da vitamina D, depois de consultarem o médico. Nesta fase, as necessidades de cálcio também aumentam, cerca de 20 por cento, mas “são valores que nós conseguimos facilmente atingir através da alimentação”, afirmou Beatriz Azevedo.

A nutricionista sublinhou que é cada vez mais importante que as mulheres, nos anos que antecedem a fase da perimenopausa, façam mais exercício e trabalho de força para ganharem massa muscular.

Os profissionais de saúde alertam para a importância do exercício físico, aliado a uma alimentação saudável, ser uma prática regular antes desta fase da vida da mulher. Muitas das pessoas que chegam às consultas de nutrição comprovam isto mesmo. “Verificamos que as mulheres referem que, durante esta fase, tiveram um aumento de peso muitas vezes de 10 a 15 quilos. A maioria dos estudos referem que o aumento de peso na menopausa será apenas de dois a três quilos, por isso os restantes quilos tendem a ser muitas das vezes as alterações de estilo de vida”.

Beatriz Azevedo destacou o aumento das necessidades proteicas durante a menopausa (0,8 gramas por quilograma de peso), na menopausa os valores aumentam (até 1, 5 gramas), também para que se obtenha maior saciedade com as refeições.

A especialista referiu igualmente a importância dos ácidos gordos Ómega 3, com importância não só do ponto de vista inflamatório, como também de “perfil lipídico, uma vez que a mulher nesta fase corre maior risco de ter dislipidemia”.

Endometriose e nutrição

A nutrição também tem um papel essencial na vida das mulheres que sofrem de endometriose – uma doença inflamatória, metabólica, intestinal e neurológica – ao ajudar a gerir sintomas como a dor e fadiga.

Madeira lança estratégia alimentar para travar obesidade

Tal como no caso da fertilidade e menopausa, também aqui a dieta mediterrânica apresenta benefícios. Revisões recentes destacam este padrão alimentar com potencial anti-inflamatório e modelador da dor.

Mafalda Esteves, nutricionista, responsável pela apresentação do tema “Endometriose: como a nutrição pode fazer a diferença”, defendeu a importância de ser avaliada simultaneamente a saúde e a questão alimentar. “É preciso perceber que dor é que a mulher tem, se é só dor menstrual, se é dor na relação, se são sintomas gastrointestinais, como é que está o sono, como é que está a prática da atividade física e a relação com a alimentação”, disse.

Depois de analisado o estado nutricional das mulheres – muitas vezes prejudicado não só pela componente intestinal como pelo fator inflamatório da própria doença – é preciso fazer um trabalho de educação alimentar. “É necessário personalizar mediante a sintomatologia apresentada por cada mulher, perceber se há dor e se faz sentido utilizar ou não suplementação”, exemplificou.

A especialista sublinhou que a nutrição não é a resolução do problema, mas pode ajudar, e o papel do nutricionista é crucial. “A endometriose é uma doença que é sistémica, não é só ginecológica, temos um papel nesse sentido, a dor e os sintomas não vão depender do local das lesões, e, portanto, temos de olhar para o que mulher está a sentir”.

Embora as necessidades nutricionais mudem ao longo das diferentes fases da vida, a evidência científica é clara quanto à importância de uma intervenção precoce, individualizada e sustentada na promoção da saúde da mulher. Da fertilidade à menopausa, passando pela endometriose, a alimentação pode influenciar a prevenção da doença, a gestão de sintomas e a qualidade de vida.

Já se pode inscrever na VS – Nutrition Summit & Exhibition

Neste contexto, o nutricionista assume um papel determinante na educação alimentar, na avaliação do estado nutricional e na definição de estratégias adaptadas a cada fase da vida, contribuindo para melhores resultados em saúde e para uma maior autonomia das mulheres nas suas escolhas alimentares