Nutrição desportiva: entre a ciência e a vida real do atleta

Dos figos secos aos hidrogéis e dos primeiros estudos sobre a glicemia aos sensores atuais, a nutrição desportiva percorreu um século de mudanças. A ciência permitiu compreender o papel dos hidratos de carbono e do glicogénio, enquanto clubes e federações criaram serviços especializados. Mas o conhecimento e a tecnologia não retiraram importância ao essencial: adaptar a evidência ao desporto, ao calendário, à cultura e ao atleta. “Interessa o conteúdo, mas também a forma”, sintetizou Vitor Hugo Teixeira no XXV Congresso de Nutrição e Alimentação (CNA).

A evolução científica e a aplicação no terreno cruzaram-se em dois momentos do evento promovido pela Associação Portuguesa de Nutrição (APN), nos dias 28 e 29 de maio, na Alfândega do Porto. Na conferência “Dos figos aos hidrogéis: a evolução da nutrição desportiva em Portugal”, moderada pela nutricionista Mónica Sousa, Vitor Hugo Teixeira, da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) e do Al-Ittihad, clube de futebol da Arábia Saudita, percorreu alguns marcos da área. A tertúlia “Como funciona o Serviço de Nutrição no desporto”, moderada pela jornalista Alexandra Paiva Oliveira, reuniu Catarina Augusto, da Federação Portuguesa de Natação, António Pedro Mendes, do Sporting Clube de Portugal (SCP), e Gonçalo Magalhães, do ZTE FC, equipa de futebol do campeonato húngaro, e do Boavista Cycling Team.

Dos figos ao glicogénio

“Como seria impossível abordar tudo, escolhi usar a história dos hidratos de carbono no desporto como fio condutor da evolução da ciência da nutrição desportiva”, avançou Vitor Hugo Teixeira. O percurso começou nos figos secos, “o primeiro alimento associado ao desporto”, e passou pela descoberta da relação entre glicemia e desempenho na Maratona de Boston de 1925.

Décadas depois, “o impacto revolucionário da biópsia muscular” permitiu compreender como a ingestão de hidratos de carbono influencia o glicogénio muscular e, consequentemente, o desempenho. “Abriu caminho para os protocolos de supercompensação”, anotou.

O glicogénio também dá sinais

Seguiu-se outra mudança de paradigma: “O glicogénio, além de um simples substrato energético, é também um sinalizador metabólico”. Esta descoberta deu origem ao conceito de periodização nutricional, através do qual a disponibilidade de hidratos de carbono pode ser ajustada ao objetivo de cada sessão e às adaptações pretendidas.

Guias alimentares: muito além dos nutrientes

Foi possível ultrapassar os putativos limites de absorção intestinal através da adição de frutose”, prosseguiu o conferencista. A combinação de glicose e frutose utiliza diferentes transportadores intestinais e permite aumentar a ingestão e a oxidação de hidratos de carbono durante esforços prolongados. Vitor Hugo Teixeira destacou ainda “o efeito ergogénico do bochecho com hidratos de carbono”, capaz de produzir pequenos benefícios físicos e cognitivos através da estimulação de recetores orais, sem exigir digestão.

O novo também precisa de prova

Nem todas as inovações, porém, confirmaram as promessas iniciais. Os hidrogéis foram associados à possível redução do desconforto gastrointestinal, mas a investigação apresentada não demonstrou vantagens consistentes nos sintomas, na oxidação exógena dos hidratos de carbono ou no desempenho. A evolução da área faz-se, por isso, tanto de avanços como da capacidade de distinguir a evidência do entusiasmo comercial.

A alimentação continua a ser a base, embora isso não exclua a suplementação quando existe uma razão concreta. Creatina, beta-alanina, vitamina D, ferro ou géis de hidratos de carbono podem ter lugar quando certas substâncias ou nutrientes são difíceis de obter em quantidades suficientes, quando é necessário corrigir uma deficiência ou quando os alimentos não são uma opção prática.

Mais dados, não necessariamente mais conhecimento

“Vivemos uma era cheia de informação, oriunda tanto de wearables quanto dos mais variados testes, mas, até agora, pouco conhecimento prático foi, de facto, acrescentado”, observou Vitor Hugo Teixeira. Monitores contínuos de glicose, anéis e relógios inteligentes, testes genéticos e análises ao microbioma prometem personalização, embora a utilidade prática continue por demonstrar em muitos casos. Os perfis de glicose podem ser difíceis de interpretar, muitos destes dispositivos não foram validados para todas as métricas que apresentam e a evidência que relaciona biomarcadores, microbiota, desempenho, recuperação e saúde permanece limitada ou inconsistente.

O desafio já não é apenas recolher dados, mas dar-lhes utilidade prática. “Vamos precisar de inteligência artificial (IA) para transformar dados em decisões. Mas será que podemos confiar na IA para tarefas rotineiras do nutricionista, como avaliar a ingestão alimentar, criar planos ou aconselhar?”, questionou.

Nutrição Infantil: “A única constante é a mudança”

A tecnologia já consegue estimar a ingestão, construir planos alimentares e responder a questões gerais. Ainda assim, perde capacidade quando precisa de compreender preferências culturais, restrições religiosas, situações clínicas, pratos mistos ou ingredientes ocultos. Também os modelos testados como conselheiros de nutrição desportiva demonstram melhor desempenho em questões básicas do que em matérias específicas, como disponibilidade energética, hidratação e suplementação.

“Acredito que, no fim, o elemento humano continuará a ser o curador da informação, e isso será sempre o que diferencia a nossa atuação”, sustentou. A competência técnica passa, cada vez mais, por avaliar a qualidade de uma resposta, compreender o contexto e decidir quando a tecnologia acrescenta valor.

Na reta final, Vitor Hugo Teixeira deixou um roteiro de qualidades e atitudes que considera essenciais num nutricionista: manter a curiosidade, pensar criticamente, manter a disciplina, adaptar-se rapidamente, definir prioridades, aprender a ouvir, tolerar a imperfeição, construir confiança, comunicar com clareza, ser humilde e ter bom senso.

Individualizar sem perder a ciência

Esta evolução foi acompanhada pela consolidação de uma escola portuguesa de nutrição desportiva, apoiada na formação, na investigação e na entrada progressiva de nutricionistas em clubes, federações e seleções. António Pedro Mendes resumiu essa influência durante a tertúlia: “Na nutrição no desporto em Portugal, ou somos filhos do professor Vitor Hugo ou somos netos”. Mais do que uma genealogia académica, a frase traduz uma cultura de exigência e atualização permanente.

No terreno, a primeira regra é que a mesma recomendação não serve todos os atletas nem todos os desportos. Na natação de alto rendimento, Catarina Augusto acompanha uma época organizada por macrociclos, microciclos, competições nacionais e internacionais e objetivos de qualificação – para os Jogos Olímpicos, por exemplo. As consultas presenciais realizam-se, em geral, a cada dois ou três meses, mas o contacto é diário, presencial ou à distância.

Catarina Augusto e António Pedro Mendes

Com cinco a seis horas de treino por dia, o desafio dos nadadores nem sempre é controlar a ingestão: muitas vezes, é encontrar tempo e disponibilidade para comer o suficiente. Antes de uma sessão matinal, um atleta pode tolerar apenas pão torrado com doce e sumo, enquanto outro bebe um batido de 700 ml a caminho da piscina. Em competição, a falta de tempo e de apetite obriga a recorrer a barras energéticas, fruta, preparados de fruta, bebidas isotónicas e estratégias ajustadas ao número de provas.

Quando o nadador disputa várias provas ou compete fora do país, os horários, os hotéis e os alimentos disponíveis complicam a estratégia. Como Catarina Augusto nem sempre está presente, os treinadores ajudam a confirmar a ingestão prevista entre esforços.

A individualização também tem de considerar a cultura. Quando chegou à Hungria, Gonçalo Magalhães encontrou uma realidade na qual os batidos de recuperação ainda eram novidade e a presença de um nutricionista numa equipa da primeira divisão estava longe de ser habitual. Teve de explicar princípios básicos, adaptar recomendações aos alimentos disponíveis e compreender hábitos diferentes, como o consumo de legumes ao pequeno-almoço. “Cada atleta é um atleta”, lembrou, sublinhando a importância de considerar diferenças fisiológicas, culturais ou religiosas e até simples preferências alimentares.

No ciclismo, o contexto muda novamente. Os atletas treinam muitas vezes longe da estrutura e encontram-se sobretudo em estágios e competições. Numa prova por etapas, a reposição de hidratos de carbono e a recuperação deixam de ser decisões isoladas: o objetivo é preparar o dia seguinte. Gonçalo Magalhães brincou que os ciclistas “ficam quase em carb-loading todos os dias”, dada a necessidade de repor sucessivamente as reservas energéticas.

Mas personalizar não significa aceitar qualquer proposta em nome da diferença individual. “Individualização, sim, mas não deixemos que ela escale para a charlatanice”, advertiu António Pedro Mendes. A ciência estabelece os limites; a experiência e o contexto ajudam a adaptar o conhecimento a cada pessoa, momento da época e sessão de treino.

O nutricionista não trabalha sozinho

Num clube, esta adaptação depende também da organização. No futebol do SCP, seis nutricionistas acompanham mais de 300 atletas de competição, das equipas jovens às formações principais masculina e feminina. O número ultrapassa os 700 quando se incluem as escolas. Existe uma linha transversal, ajustada à idade, à equipa e aos recursos disponíveis.

“A IA pode apoiar decisões nutricionais, mas não substituir a compreensão humana”

O Departamento de Nutrição integra a Unidade de Performance Física, a par do Departamento Médico, do Departamento de Reabilitação e do Departamento de Strength & Conditioning. Os coordenadores reúnem com frequência para tomar decisões comuns. “A nutrição só vai funcionar em contexto de clube se estiver devidamente articulada com os outros departamentos”, reconheceu António Pedro Mendes. Essa estrutura permite também manter uma orientação estável perante mudanças nas equipas técnicas.

Corpo, suplementação e risco

A complexidade fica evidente em temas como a composição corporal. Menos massa gorda não significa automaticamente melhor desempenho e um valor isolado não explica o rendimento de um atleta. Catarina Augusto partilhou o caso de uma nadadora de topo cuja melhor forma não coincidiu com a menor percentagem de massa gorda. A prioridade passou a ser alimentar a performance e reduzir a pressão sobre o corpo. Gonçalo Magalhães acrescentou que a adesão não deve ser avaliada apenas pelo peso ou pelas pregas cutâneas, mas igualmente pelas sensações, recuperação, qualidade do sono e evolução no treino.

Também o regresso de férias exige equilíbrio. No futebol, são definidos valores de referência para o peso ou o somatório de pregas, sem ignorar que os atletas vêm de 11 meses de elevada exigência. António Pedro Mendes descreveu a definição desses limites como um “labirinto sem saída”, porque qualquer decisão traz sempre um “mas”. O objetivo é permitir férias descontraídas, embora “não demasiado relaxadas”.

“Atualmente, o desafio é muito pouco científico”, declarou o coordenador do Departamento de Nutrição do SCP. “A parte humana é, sem dúvida, a mais desafiante”, registou. Num ambiente com atletas, treinadores e dezenas de profissionais, o nutricionista precisa de gerir conflitos, negociar sem abdicar do rigor e construir confiança. Catarina Augusto ilustrou essa proximidade com uma frase: “Não é apenas fazer um plano, é perceber o que está dentro da casa desse atleta”.

O mesmo equilíbrio aplica-se à suplementação. Importa selecionar produtos certificados, reduzir o risco de contaminação e explicar ao atleta o que é sustentado pela evidência. Entre os nadadores abrangidos pelo sistema de localização para controlos antidopagem, a informação tem de ser atualizada diariamente, o que justifica cuidados adicionais com marcas, embalagens e registos. No ciclismo e no futebol, o acompanhamento fora do clube cria outros riscos, sobretudo quando consultores externos fazem promessas difíceis de conciliar com a segurança.

IA: aliada, não substituta

A IA voltou a surgir na tertúlia como ferramenta de apoio. “É o adapta-te ou morre”, afirmou António Pedro Mendes, defendendo a aprendizagem dos princípios da engenharia de prompts e a utilização dos resultados com espírito crítico. Gonçalo Magalhães afastou a ideia de facilidade indevida: “A IA, por vezes, é vista como uma batota”, mas “tem de ser vista como um auxiliar”. Catarina Augusto concordou que a tecnologia pode contribuir para “poupar tempo”, desde que o nutricionista saiba fazer as “perguntas certas” e “detetar dados inventados”.

Gonçalo Magalhães: “Quando há trabalho, as pessoas acabam por chegar a vocês”

Para quem pretende entrar na área, os três participantes deixaram conselhos convergentes. Gonçalo Magalhães pediu perseverança: “Quando há trabalho, as pessoas acabam por chegar a vocês”. Catarina Augusto salientou a importância da formação contínua e dos contactos profissionais, recordando que uma ligação criada durante o estágio voltou a cruzar-se com o seu percurso dez anos depois. António Pedro Mendes realçou a necessidade de diferenciação: não basta criar “mais uma página de nutrição”; importa perceber o que se pode fazer “melhor e diferente”.

Entre figos, hidrogéis, folhas de cálculo e algoritmos, o princípio permanece: a inovação só é útil quando melhora uma decisão concreta. Na nutrição desportiva, o progresso não se mede apenas pela quantidade de informação disponível. Mede-se pela capacidade de a transformar numa intervenção segura, compreensível e ajustada à realidade do atleta.

 

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