Nutrição Infantil: “A única constante é a mudança”

A Nutrição Infantil mudou profundamente nos últimos 25 anos. Mudaram recomendações, caíram certezas e ganharam peso a evidência científica, o microbioma, os primeiros 1.000 dias de vida e a noção de que a alimentação da criança não pode ser reduzida a esquemas rígidos ou a respostas únicas. Entre mitos antigos e novos desafios, a mensagem central deixada por Jorge Amil Dias, pediatra no Hospital Lusíadas Porto, foi clara: em saúde, e em particular na Nutrição Infantil, “a única constante é a mudança”.

A conferência “Mudanças de paradigma na Nutrição Infantil em Portugal: uma análise dos últimos 25 anos”, integrada no XXV Congresso de Nutrição e Alimentação (CNA), organizado pela Associação Portuguesa de Nutrição (APN), nos dias 28 e 29 de maio, na Alfândega do Porto, foi moderada por Manuela Cardoso, nutricionista na Maternidade Dr. Alfredo da Costa, da Unidade Local de Saúde (ULS) de São José, e propôs uma viagem pelos principais temas que marcaram a evolução da alimentação infantil em Portugal.

O aleitamento e os mitos persistentes

Jorge Amil Dias enquadrou a mudança de paradigma com humor, partilhando uma breve história da medicina, feita de “avanços, recuos e contradições”. A sequência exposta serviu para mostrar que a prática clínica nem sempre evolui em linha reta e que a experiência, por si só, pode ser enganadora. O próprio orador ironizou com a definição de “experiência pessoal”: a “técnica de repetir os mesmos erros cada vez com mais confiança”.

Um dos campos onde a mudança foi mais visível é o aleitamento materno. O pediatra recuperou dúvidas que continuam a surgir na prática clínica e no contacto com as famílias: “O meu leite é fraco?”, “O leite materno é aguado” ou a ideia de que “Os bebés aumentam mais de peso com fórmula”.

“A IA pode apoiar decisões nutricionais, mas não substituir a compreensão humana”

A resposta atual passa por valorizar o leite humano e contrariar esses mitos persistentes. A passagem do colostro ao leite de transição e, depois, ao leite maduro mostra que a sua composição evolui ao longo do tempo e não deve ser comparada de modo simplista com a fórmula infantil.

Entre as conclusões, Jorge Amil Dias destacou justamente a necessidade de “promover o aleitamento materno, se possível, exclusivo até aos seis meses” e de “não fornecer biberão ou latas de leite na maternidade”.

Introdução alimentar: menos medo, mais critério

Outro domínio em que as orientações mudaram foi a diversificação alimentar. Durante muitos anos, a introdução de determinados alimentos foi rodeada de cautelas, adiamentos e receios, sobretudo quando estavam em causa alergias alimentares.

Jorge Amil Dias colocou a pergunta de forma direta: “O atraso de novos alimentos evita a alergia alimentar?”. Nos paradigmas atuais, surge a recomendação de “diversificação alimentar progressiva entre os quatro e os sete meses”, com “vigilância especial em caso de risco alérgico familiar”.

A alergia às proteínas do leite de vaca foi um dos exemplos abordados. À pergunta “Podemos prevenir a alergia às proteínas do leite de vaca?”, a resposta foi prudente: não há benefício demonstrado das fórmulas extensamente hidrolisadas, usadas por períodos curtos ou prolongados, face ao aleitamento materno exclusivo na prevenção da doença alérgica.

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A mesma lógica foi aplicada aos alimentos alergénicos. A introdução deve ser feita em formas seguras, adequadas à idade, e preferencialmente durante o período de diversificação alimentar, evitando tanto o atraso injustificado como a exposição sem critério em situações de risco.

Glúten, lactose e falsas soluções

A conferência abordou ainda temas que, nos últimos anos, ganharam grande presença na opinião pública e na prática diária, como a lactose. Jorge Amil Dias questionou: “Os leites sem lactose são úteis para a diarreia?” e “Leites com baixo teor de lactose são úteis?”. O défice de lactase pode ser secundário, do tipo adulto ou congénito, mas nem todas as situações justificam alterações alimentares automáticas. Também o glúten foi referido como exemplo de uma área em que a evidência contrariou simplificações.

No que diz respeito à eliminação de alimentos ou nutrientes, a nota dominante foi de prudência. O paradigma atual afasta-se de regras rígidas e aproxima-se de decisões individualizadas, sustentadas em evidência e acompanhadas por profissionais.

Microbioma, primeiros 1.000 dias e ultraprocessados

Nos últimos 25 anos, a Nutrição Infantil passou também a olhar de forma mais ampla para o impacto da alimentação na saúde futura. Os primeiros 1.000 dias, entre a gravidez e os dois anos de vida da criança, foram apresentados como uma etapa determinante para o crescimento, a aprendizagem e o desenvolvimento, num período em que a alimentação influencia também a microbiota e a imunidade.

O microbioma infantil é visto como uma peça central desta abordagem. Genética, exposições maternas pré-natais, modo de parto, aleitamento, nutrição, imunidade, metabolismo e função de barreira surgem como dimensões interligadas. A chamada “família biótica” – prebióticos, probióticos, pós-bióticos e simbióticos – reflete esta atenção crescente à relação entre alimentação, microrganismos e saúde.

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Ao mesmo tempo, os desafios passam pela qualidade global da dieta. A classificação NOVA, que distingue alimentos in natura ou minimamente processados, ingredientes culinários, alimentos processados e alimentos ultraprocessados, ajudou a refletir sobre o impacto dos padrões alimentares no microbioma, na barreira mucosa, na imunidade e na doença inflamatória intestinal.

Nas conclusões, Jorge Amil Dias sintetizou alguns dos paradigmas atuais: “evitar excesso de sal, açúcar e gorduras”, “limitar o consumo de alimentos ultraprocessados” e “evitar regras rígidas”. A pergunta “As crianças devem seguir esquemas fixos de alimentação?” resume bem a mudança. A orientação existe, mas deve ser ajustada à criança, à família, ao risco clínico e à evidência.

A Nutrição Infantil mudou porque a ciência obrigou a rever práticas. A principal lição talvez seja a de que a segurança profissional não está em repetir fórmulas antigas, mas em atualizar a prática sem perder sentido crítico.

 

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