Portugal dispõe de profissionais de saúde altamente qualificados para diagnosticar problemas, investigar, gerir riscos e definir prioridades. Contudo, o conhecimento produzido nem sempre chega aos locais onde se decidem políticas públicas. Entre a evidência científica e a ação política permanece, muitas vezes, um último passo por dar: transformar dados e conhecimento técnico numa mensagem clara, concreta e capaz de mobilizar quem decide.
Integrada no XXV Congresso de Nutrição e Alimentação (CNA), organizado pela Associação Portuguesa de Nutrição (APN), nos dias 28 e 29 de maio, na Alfândega do Porto, a tertúlia ‘Como contribuir para a tomada de decisão política’ reuniu representantes de três níveis de decisão: Carlos Mouta, vice-presidente da Câmara Municipal de Matosinhos; Joana Silva, deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira; e Eduardo Pinheiro, deputado à Assembleia da República.
Moderada pelo nutricionista Hugo de Sousa Lopes, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), a sessão procurou aproximar os profissionais de saúde dos centros de decisão e mostrar que a influência na decisão política não se exerce apenas nos gabinetes, nos parlamentos ou nas autarquias. Passa também pela capacidade de apresentar um problema, demonstrar a sua dimensão e propor caminhos sustentados pela ciência.
Dar o último passo
Hugo de Sousa Lopes identificou um “contínuo distanciamento” dos profissionais de saúde, particularmente da saúde pública, em relação às esferas de decisão política. Apesar da qualidade existente em áreas como o diagnóstico, a investigação, a gestão do risco, a vigilância, a observação e a priorização de intervenções, considerou que são ainda poucos os profissionais que “dão o último passo de aconselhar a governação e advogar ao nível político”.
“A profissão faz-se com todos”: O ‘superpoder’ da especialização
A tertúlia partiu também de uma ideia que o moderador classificou como “discutível”: a de que “os decisores políticos se movem em meios demasiado herméticos e inacessíveis”. Joana Silva contrariou essa perceção. “O político não é uma pessoa distante. Não é só aquela pessoa que vos vai bater à porta a pedir o voto na altura das eleições”, afirmou, garantindo que os eleitos estão disponíveis para ouvir os cidadãos e dar resposta às suas preocupações.
A deputada regional reconheceu, porém, que o nutricionista ainda está pouco presente nos centros de decisão. Essa ausência reforça a importância de uma participação ativa, capaz de aproximar a profissão de quem legisla, governa ou executa políticas no território.
Problema, dimensão, solução e pedido
Chegar ao decisor político exige preparação. Joana Silva alertou para a tendência de os profissionais ficarem demasiado presos ao seu próprio conhecimento técnico, partindo do princípio de que quem os ouve domina o mesmo vocabulário e compreende prontamente a relevância do tema. “Muitas vezes, vamos com discursos muito elaborados, muito técnicos, e esquecemo-nos de que, do outro lado, podem estar pessoas sem qualquer ligação à saúde e muito menos à Nutrição”, observou.
O risco é conhecer profundamente o assunto e, ainda assim, não conseguir transmitir a sua importância. Por isso, a nutricionista aconselhou os profissionais a chegarem com uma visão clara da mensagem, a prepararem a reunião e a adaptarem o discurso ao interlocutor. Não se trata de simplificar a ciência ao ponto de a desvirtuar, mas de a tornar compreensível para quem precisa de a transformar numa decisão.
Eduardo Pinheiro resumiu o que espera de quem procura um responsável político em quatro pontos: “Que me apresentem o problema, a dimensão desse problema, a solução que apontam e aquilo que esperam de mim enquanto decisor político”. Uma reunião pode não resolver imediatamente a questão, mas deve produzir um resultado e deixar definido o passo seguinte. O deputado sublinhou que o enquadramento não pode consumir todo o tempo disponível, nem uma apresentação cuidada terminar sem uma proposta concreta. “Para eu poder convencer os meus pares, primeiro tenho de ser convencido”, sintetizou.
A ciência num “jogo de perceções”
A qualidade da mensagem não elimina as condicionantes próprias da decisão política. Joana Silva definiu a política como “um jogo de perceções”, no qual os responsáveis avaliam não apenas a pertinência de uma medida, mas também a forma como será recebida pela população.
Perante cada proposta, elucidou, o decisor questiona como reagirão os cidadãos, que impacto terá a alteração e de que modo influenciará a perceção pública sobre quem a implementa. Todavia, rejeitou que as decisões sejam tomadas essencialmente pela emoção. “São muito pensadas”, assegurou, ciente de que o carácter popular ou impopular de uma medida pesa sempre no processo.
Carlos Mouta chamou a atenção para outra dificuldade: a adesão da população a políticas cujos resultados só serão visíveis a médio ou longo prazo. Na Nutrição, esse horizonte começa frequentemente na infância, com medidas destinadas a evitar que o excesso de peso e a obesidade se traduzam, anos mais tarde, em doença. O poder local pode dispor de dados e saber qual o caminho mais adequado, mas nem sempre consegue fazer com que os cidadãos adiram a uma visão coletiva. “Muitas vezes, as pessoas estão mais centradas em si, no seu problema e na solução para o seu problema”, constatou.
Num espaço público marcado pelas redes sociais, pelos algoritmos e pelo imediatismo, essa dificuldade agrava-se. Para o autarca, “por vezes, a minoria ruidosa quer impor-se à maioria silenciosa”. O desafio dos decisores é não confundir visibilidade com representatividade e preservar princípios e objetivos de longo prazo.
Tornar a prevenção politicamente incontornável
A capacidade de influência passa também por demonstrar o retorno das propostas. Joana Silva foi taxativa ao defender que investir na prevenção é uma das melhores decisões que um Governo pode tomar. A palestrante deu como exemplo o combate à carência de iodo na Madeira. Para transformar uma matéria conhecida pelos profissionais de saúde numa prioridade política, foi necessário explicar o problema, apresentar a evidência e sensibilizar deputados sem formação na área. O processo culminou na aprovação de legislação regional e na criação de mecanismos de monitorização.
O caso demonstra que a ciência, por si só, não chega. É preciso traduzi-la, encontrar o nível de decisão adequado e construir apoio político. Para Joana Silva, a profissão de nutricionista tem hoje uma dimensão que lhe confere “maior capacidade de negociação do que há 25 anos“. Essa força deve ser usada não apenas para defender interesses profissionais, mas para colocar a Nutrição nas decisões que influenciam a saúde da população.
Eduardo Pinheiro reforçou a urgência de investir na prevenção. Sem esse compromisso, advertiu, o aumento continuado do orçamento da Saúde será “um caminho imparável”.
Influenciar a decisão política não significa abandonar a linguagem da ciência, mas fazê-la chegar onde pode transformar-se em ação. Para os nutricionistas, o caminho passa por preparar melhor a mensagem, apresentar propostas concretas, procurar os interlocutores certos e ocupar, com maior regularidade, os espaços onde se decide.




