
Os dados mais recentes do INE mostram que mais de metade da população portuguesa ou que vive em Portugal com mais de 18 anos (57,1%) tem excesso de peso ou obesidade. Liliana Sousa, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, em entrevista ao jornal Público, diz que estes dados “não surpreendem, até porque já tínhamos a noção de que uma grande parte da nossa população estava numa situação de excesso de peso ou obesidade. Aquilo que eventualmente nos poderá surpreender pela negativa é o facto de continuarmos a assistir a este panorama de manutenção de más práticas em termos do estilo de vida”.
Para a bastonária, “há aqui uma responsabilidade maior”, a “dos nossos decisores políticos, que tem que ver com as próprias estratégias que são implementadas e não apenas ao nível da saúde”. Neste sentido, defende que “falta uma estratégia integrada, completa, holística, daquilo que são as medidas de prevenção e promoção da saúde. É preciso investir numa população que, no futuro, não apresente este tipo de indicadores. Obviamente que temos de tratar quem está doente, temos de aplicar medidas para tratar e reverter esses 57% da população que já tem excesso de peso ou obesidade, mas não nos podemos esquecer que precisamos também de investir de modo que não continuemos a ter esta situação cíclica e sustentada”.
Liliana Sousa defende, então, que “de facto, temos uma lacuna muito importante na nossa população no que diz respeito ao conhecimento sobre a saúde e sobre as escolhas alimentares mais saudáveis” e “temos de proporcionar ao cidadão condições para que isso aconteça. A questão dos ambientes alimentares saudáveis, da disponibilização de alimentação saudável de forma fácil e acessível”. Daí que ,”em termos fiscais, defendemos que a alimentação saudável, sendo um direito, deve ser tratada de outra forma do ponto de vista tributário”.
Neste ponto, a bastonária especificou, ainda ao Público, que isto poderá ser alcançado “isentando o IVA principalmente daqueles alimentos onde o reflexo em termos de impacto financeiro para as famílias é maior – por exemplo da carne, do peixe, de fornecedores proteicos importantes que muitas famílias referem não conseguir adquirir, mesmo tendo a noção de que os deveriam consumir numa quantidade mais generosa; estamos a falar de frutas e legumes e sabemos que, seja pelas tempestades que assolaram o nosso país e que afetaram muito as produções agrícolas, seja devido aos aumentos dos combustíveis, os preços aumentaram muito”.
Em suma, “deveria existir, temporariamente ou não, uma forma de se conseguir uma equidade do ponto de vista do acesso da população a estes alimentos que são absolutamente fundamentais para uma boa saúde”.
Para Liliana Sousa, “ao não tomarmos este tipo de iniciativas preventivas, vamos acabar por pagar esta fatura no tratamento destas pessoas e nas consequências de uma má alimentação, que vai levar a um excesso de peso, mas também a casos de desnutrição, que é um tema de que se fala ainda muito pouco”.




