Depois do sal e do açúcar, é o tempo da fibra alimentar

Por Mariana Coelho Santos, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA)

 

Ao longo da última década, as políticas de promoção da alimentação saudável centraram-se na redução da ingestão de determinados nutrientes, nomeadamente o sódio (sal), o açúcar e as gorduras saturadas. Esta estratégia traduziu-se na implementação de diversas medidas de saúde pública, como a reformulação de produtos alimentares, a melhoria da rotulagem nutricional, a introdução de medidas fiscais e o desenvolvimento de campanhas de educação alimentar. Estas intervenções têm contribuído para aumentar a literacia dos consumidores, prevenir as doenças crónicas não transmissíveis e melhorar a qualidade da alimentação da população.

Em Portugal, os resultados desta abordagem são evidentes.

A redução gradual do teor de sal no pão e a reformulação de diversas categorias de alimentos demonstram que é possível melhorar o perfil nutricional dos produtos disponíveis no mercado. Paralelamente, a redução dos açúcares adicionados, impulsionada pela crescente preocupação com o excesso de peso e a obesidade, sobretudo entre crianças e adolescentes, mostra que políticas públicas consistentes conseguem transformar a oferta alimentar e promover escolhas mais saudáveis.

Contudo, uma alimentação saudável não se constrói, apenas, reduzindo o que consumimos em excesso. É igualmente importante promover o consumo de nutrientes que protegem a saúde. Entre eles, a fibra alimentar destaca-se pela robustez da evidência científica e, simultaneamente, pela persistente inadequação na ingestão de fibra alimentar pela população portuguesa.

O que dizem os novos estudos sobre a profissão de nutricionista?

Mas, afinal, o que é a fibra alimentar?

A fibra alimentar corresponde a um conjunto de substâncias de origem vegetal que não são digeridas nem absorvidas no intestino delgado e que podem ser parcial ou totalmente fermentadas no intestino grosso, onde podem desempenhar diferentes funções e interagir com a microbiota intestinal.

Nem toda a fibra é igual. Esta pode ser classificada em duas categorias, de acordo com a sua capacidade de se dissolver na água: fibras solúveis e fibras insolúveis. Os alimentos mais ricos em fibras solúveis são a aveia, a cevada, as verduras, as leguminosas, as maçãs e os citrinos. A fibra insolúvel é encontrada, sobretudo, nos vegetais de folha verde, nos cereais integrais e no farelo de trigo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) recomendam uma ingestão diária mínima de 25 g de fibra para adultos, devido aos seus benefícios comprovados para a saúde intestinal e para a prevenção de doenças crónicas. No entanto, a realidade está longe destas recomendações. Em Portugal, os dados do Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física (IAN-AF 2015–2016) mostram que a ingestão média é de apenas 17,8 g/dia, o que corresponde a cerca de 70% da recomendação. As mulheres apresentam uma ingestão média de 16,3 g/dia e os homens de 19,4 g/dia, evidenciando que o défice de consumo é transversal à população.

A fibra alimentar está associada a diversos benefícios para a saúde. Para além de promover o bom funcionamento intestinal, a fibra aumenta a saciedade, melhora o controlo da glicemia e do metabolismo lipídico, favorece uma microbiota intestinal saudável, reforça a barreira intestinal e contribui para reduzir a inflamação. Uma alimentação rica em fibra está, também, associada a um menor risco de várias doenças crónicas, incluindo obesidade, diabetes tipo 2, alguns tipos de cancro e doenças cardiovasculares.

Insegurança Alimentar: propostas para uma avaliação integrada

Se, durante anos, a prioridade foi reduzir determinados componentes na alimentação, é agora tempo de alargar o foco e perguntar: o que devemos incentivar mais?

A fibra alimentar pode ser uma das respostas a esta nova prioridade e merece, por isso, um papel de maior destaque na alimentação. Isso significa valorizar os alimentos que naturalmente contribuem para o seu consumo, como leguminosas, hortícolas, fruta, frutos oleaginosos e cereais integrais. Significa, também, conhecer melhor a quantidade de fibra presente nos alimentos disponíveis no mercado, acompanhar a ingestão de fibra pela população e avaliar as iniciativas que possam contribuir para aumentar a sua presença na alimentação dos portugueses.

A experiência do Departamento de Alimentação e Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge relativamente à monitorização do sal, do açúcar e de outros componentes dos alimentos demonstra que a produção sistemática de evidência científica é essencial para apoiar políticas públicas eficazes. A fibra alimentar pode beneficiar da mesma abordagem: conhecer melhor a realidade, identificar as principais lacunas e acompanhar a evolução ao longo do tempo.

As políticas públicas de alimentação saudável devem manter o foco na redução do consumo de sal, de açúcar e de gorduras saturadas. Esse caminho deve continuar, mas chegou o momento de dar um novo passo: promover ativamente os nutrientes que mais contribuem para a saúde da população.

FMUP volta a receber MetBalance para debater relação entre peso, magreza e saúde

Afinal, uma alimentação verdadeiramente saudável não depende apenas daquilo que conseguimos reduzir, mas também daquilo que conseguimos incentivar. Depois do sal e do açúcar, chegou o momento de colocar a fibra alimentar no centro das políticas públicas para uma alimentação mais saudável.

 

Aceda a todos os artigos de opinião do Departamento de Alimentação e Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge aqui.