Estamos a desaprender a reconhecer a fome e a saciedade?

Por Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS)

 

A educação alimentar centra-se ainda muito no que devemos comer. Falamos de nutrientes e dos alimentos que devemos consumir mais ou menos, como o açúcar, o sal ou os alimentos ultraprocessados. Mas existe uma dimensão da alimentação a que prestamos menos atenção e que pode ser igualmente importante para a nossa saúde: como aprendemos a comer.

Na realidade, aprendemos a comer muito antes de conhecermos os nutrientes dos alimentos. Aprendemos quando um bebé chora e alguém procura compreender se tem fome ou sono. Aprendemos quando uma criança experimenta um alimento novo sem ser pressionada a comê-lo. Aprendemos quando um adulto respeita o momento em que a criança diz que já não quer mais.

Estas experiências, aparentemente simples, ajudam a construir a relação que teremos com a comida ao longo da vida.

Hoje sabemos que as crianças nascem com uma extraordinária capacidade para reconhecer os sinais de fome e de saciedade. Esta capacidade de autorregular a ingestão alimentar é um dos mecanismos mais sofisticados do nosso organismo e desempenha um papel essencial na regulação do apetite e na manutenção de um peso saudável.

Para que esta autorregulação se desenvolva, é necessário que a criança tenha oportunidade de experienciar tanto a fome como a saciedade. A fome fisiológica, ligeira e transitória que surge antes de uma refeição, não é, por si só, um problema a evitar. É um sinal biológico normal do organismo, tal como a saciedade que nos diz que já comemos o suficiente.

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Esta competência, contudo, não se desenvolve sozinha nem é imutável. Desenvolve-se na interação entre características biológicas individuais e as múltiplas experiências alimentares vividas desde os primeiros anos de vida.

Quando insistimos para que uma criança “coma mais um bocadinho”, quando oferecemos um alimento para acalmar uma birra, quando usamos um doce como recompensa ou quando oferecemos constantemente alimentos entre as refeições, mesmo sem sinais de fome, estamos, muitas vezes sem nos apercebermos, a tornar mais difícil a aprendizagem destes sinais internos e inatos do corpo.

E o desafio não termina na infância. Vivemos num contexto em que comer deixou há muito de depender apenas da existência de fome. Ao longo do dia, somos confrontados com inúmeras oportunidades e estímulos para comer. Somos permanentemente expostos à publicidade alimentar, a porções cada vez maiores e a produtos concebidos para serem extremamente saborosos e apelativos. Muitas vezes comemos porque estamos ansiosos, porque estamos cansados ou simplesmente porque a comida faz parte do contexto, como acontece frequentemente quando vamos ao cinema.

Neste ambiente, distinguir “tenho fome” de “apetece-me comer” pode tornar-se ainda mais difícil. E essa distinção é importante, porque comer em resposta à fome e parar em resposta à saciedade implica conseguir reconhecer e interpretar os sinais que o nosso organismo nos transmite.

Ao longo do tempo, a menor atenção aos sinais de fome e de saciedade, combinada com uma maior resposta a estímulos externos, pode contribuir para alterações na regulação da ingestão alimentar. A autorregulação do apetite é apenas uma das muitas dimensões envolvidas na obesidade, uma doença complexa e multifatorial, mas compreender estes mecanismos ajuda também a perceber por que razão regular a ingestão alimentar pode ser tão difícil.

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Não é por acaso que alguns dos avanços mais importantes no tratamento da obesidade, como os fármacos agonistas do recetor GLP-1, atuam, entre outros mecanismos, sobre as vias biológicas envolvidas na regulação do apetite, contribuindo para reduzir a fome e aumentar a saciedade.

Mas talvez a melhor forma de proteger estes mecanismos não seja esperar que a sua desregulação já esteja instalada, como acontece na obesidade. Começa muito antes, nas primeiras experiências alimentares de uma criança. Por isso, preservar a capacidade de reconhecer a fome e a saciedade deve constituir um objetivo explícito da educação alimentar e da intervenção dos nutricionistas nas consultas de vigilância infantil.

É precisamente essa a mensagem do guia da Direção-Geral da Saúde, “Como educar para uma alimentação saudável – Guia de boas práticas para pais e educadores”, que coloca as práticas educativas alimentares responsivas no centro da educação alimentar. Respeitar os sinais de fome e de saciedade, incentivar a autonomia, proporcionar experiências positivas durante as refeições e evitar práticas de pressão são pilares fundamentais para o desenvolvimento de hábitos alimentares saudáveis.

Na prática, isto traduz-se muitas vezes, em pequenos gestos. Quando não recorreremos constantemente a alimentos entre as refeições para darmos espaço à criança sentir fome. Quando respeitamos o momento em que diz que já está satisfeita. Quando não usamos a comida como recompensa, castigo ou forma de consolo. Quando transformamos a refeição num momento tranquilo, de descoberta e de prazer, em vez de um espaço de negociação ou conflito. Quando permitimos que a criança coma sem distrações, evitando, por exemplo, a utilização de ecrãs durante as refeições.

Não se trata de deixar uma criança “passar fome”, mas de reconhecer que sentir fome antes de uma refeição faz parte do funcionamento normal do organismo. Se oferecermos sistematicamente snacks ou outros alimentos entre as refeições para evitar que a criança sinta fome, retiramos-lhe a oportunidade de aprender a reconhecer um dos sinais mais importantes do seu corpo.

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Uma alimentação saudável não se constrói apenas pela escolha dos alimentos. Constrói-se também pela forma como aprendemos a relacionar-nos com a comida, a reconhecer a forma e a respeitar a saciedade.

Talvez esta seja uma das aprendizagens mais importantes que podemos oferecer às próximas gerações. Porque a forma como aprendemos a comer pode ser tão importante como aquilo que escolhemos comer.

 

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