Investigadores da NOVA Medical School desenvolveram um hidrogel com nanopartículas capaz de transportar e libertar de forma controlada dois fármacos utilizados no tratamento do cancro do pâncreas. Em modelo animal, o novo sistema reduziu significativamente o crescimento tumoral e a disseminação tumoral, em comparação com os mesmos fármacos na forma livre.
A investigação, publicada na revista científica ACS Nano Medicine, da American Chemical Scociety, procura responder a uma das principais dificuldades no tratamento do cancro do pâncreas: fazer chegar os fármacos às células tumorais em quantidade suficiente, protegê-los da degradação e prolongar a sua ação.
O sistema combina um hidrogel à base de ácido hialurónico com nanopartículas que transportam gemcitabina (GEM) e paclitaxel (PTX), dois fármacos utilizados no tratamento da doença. Administrado na cavidade abdominal, por via intraperitoneal, o hidrogel funciona como uma ‘caixa-forte’ protegendo as nanopartículas e libertando-as de forma prolongada. Já no interior das células, níveis elevados de glutationa funcionam como uma espécie de ‘código de abertura’, desencadeando a libertação da gemcitabina. O paclitaxel, por sua vez, é libertado gradualmente.
“É uma nova forma de encapsular dois fármacos oncológicos já conhecidos através de nanomicelas inteligentes incorporadas num hidrogel, concebidas para favorecer a libertação do medicamento no interior das células tumorais e aumentar a quantidade de medicamento disponível para atuar”, explica, em comunicado, João Conde, investigador na NOVA Medical School e líder do estudo.
Nos testes laboratoriais com células de cancro pancreático, os medicamentos mostraram maior eficácia quando administrados através deste sistema do que na sua forma livre: a concentração necessária para reduzir em 50% a atividade metabólica das células foi 2,3 vezes inferior para a gemcitabina e 61,7 vezes inferior para o paclitaxel.
O sistema foi depois avaliado num modelo animal de adenocarcinoma ductal pancreático metastático, a forma mais comum de cancro do pâncreas. Em comparação com as formulações convencionais, o tratamento reduziu significativamente o crescimento tumoral e o desenvolvimento de metástases. A combinação entre o hidrogel e as nanopartículas produziu ainda uma resposta antitumoral prolongada após uma única administração.
A equipa analisou também a atividade dos genes nas células tumorais após o tratamento e observou alterações nas vias de sinalização celular PI3K-Akt e MAPK, envolvidas no crescimento, sobrevivência e multiplicação das células cancerígenas.
Estes resultados sugerem que, além de melhorar a administração dos medicamentos, o sistema poderá também influenciar mecanismos moleculares associados à progressão da doença e contribuir, no futuro, para o desenvolvimento de terapias adaptadas às características genómicas de cada tumor.
Segundo os autores, estes resultados estabelecem uma base pré-clínica para continuar o desenvolvimento da estratégia, incluindo estudos adicionais de segurança, farmacocinética e validação em modelos mais próximos da doença humana, antes de uma eventual avaliação clínica.




