
Por Marta P. Silvestre, PhD, professora auxiliar na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA Medical School) – marta.silvestre@nms.unl.pt
Imagine-se uma pessoa sem diabetes que chega à consulta de nutrição com um gráfico no telemóvel e uma preocupação: depois de comer uma banana, a glicemia subiu. A aplicação assinalou a subida, a pessoa interpretou-a como um problema e decidiu deixar de comer fruta.
O exemplo ilustra um desafio que merece a atenção dos nutricionistas. As tecnologias de monitorização permitem observar respostas fisiológicas com um detalhe anteriormente reservado à investigação ou a contextos clínicos específicos. No entanto, a facilidade com que conseguimos medir uma resposta nem sempre é acompanhada pelo conhecimento necessário para interpretar o seu significado clínico.
As aplicações de registo alimentar, os dispositivos que monitorizam a atividade física e os sistemas de monitorização contínua da glicose, conhecidos pela sigla inglesa CGM (Continuous Glucose Monitoring), podem enriquecer a avaliação e o acompanhamento nutricional. Permitem explorar padrões do quotidiano e alterações significativas a esses padrões, discutir dificuldades e avaliar a resposta às intervenções. O seu interesse clínico depende, contudo, da qualidade dos dados e das decisões que estes permitem fundamentar.
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No caso dos CGMs, o ponto de partida deve ser o reconhecimento do seu valor na diabetes, sobretudo na diabetes tipo 1. A possibilidade de acompanhar a evolução da glicemia, identificar padrões de hiper ou hipoglicemia e apoiar decisões terapêuticas trouxe benefícios demonstrados no controlo glicémico. Na consulta de nutrição, estes dados ajudam a relacionar as refeições com a resposta glicémica e funcionam como uma ferramenta educativa personalizada que apoia a auto-gestão da patologia. A sua utilização e correta interpretação exige formação e articulação com a equipa multidisciplinar que acompanha a pessoa com diabetes.
O entusiasmo estende-se agora à utilização destes sensores em pessoas sem diabetes, com a expectativa de encontrar a alimentação mais adequada a cada indivíduo tendo por base a sua resposta glicémica. A proposta parece corresponder ao objetivo da nutrição personalizada: conhecer melhor a pessoa para adaptar a intervenção. Porém, uma resposta individual só deve orientar uma recomendação quando compreendemos a sua relevância clínica.
Voltemos à banana. Se duas pessoas saudáveis apresentarem respostas glicémicas diferentes ao mesmo alimento, essa diferença justifica aconselhamentos distintos? E se a mesma pessoa apresentar respostas diferentes em dois dias ou em dois momentos distintos do mesmo dia? A subida está alinhada com o que seria fisiologicamente expectável (quantos mg/dL subiu acima da glicemia basal e ao longo de quanto tempo?). A interpretação exige contexto. A quantidade ingerida e a composição da refeição influenciam a resposta, assim como a atividade física, o sono, o ciclo menstrual, o estado de saúde e as refeições anteriores. Acresce que os CGMs medem a concentração de glicose no líquido intersticial, com um desfasamento temporal relativamente à concentração de glicose sanguínea e limitações de medição. Estas limitações são tão mais subtis quanto mais variável é a resposta glicémica (ex. em pessoas com diabetes). Diferenças minor nas curvas merecem prudência, sobretudo em pessoas saudáveis.
Na avaliação nutricional, o sensor pode acrescentar informação sobre padrões de glicose, mas essa informação deve integrar uma avaliação mais ampla. A história clínica e alimentar, os dados bioquímicos e o contexto pessoal continuam a ser fundamentais. Uma curva de glicose não permite avaliar a adequação da ingestão proteica, identificar carências de micronutrientes ou compreender as dificuldades económicas que condicionam as escolhas alimentares.
No diagnóstico, é necessário ser particularmente rigoroso. As recomendações da American Diabetes Association de 2026 consideram insuficiente a evidência para utilizar CGMs no rastreio ou diagnóstico de pré-diabetes e diabetes. Estes continuam a assentar em testes validados, como a glicemia plasmática em jejum, a hemoglobina glicada e a prova de tolerância à glicose oral. Também o diagnóstico nutricional requer a identificação fundamentada de um problema, das suas causas e dos sinais que o sustentam. Uma subida isolada no gráfico não permite concluir que existe patologia.
No que respeita ao acompanhamento/monitorização de indivíduos sob intervenção nutricional, observar os dados dos CGMs, em conjunto com a restante história clínica e alimentar, pode ajudar a pessoa a compreender padrões e a participar nas decisões sobre a sua alimentação. Uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou resultados promissores em alguns comportamentos alimentares e na adesão às intervenções, com benefícios glicémicos mais evidentes em pessoas com pré-diabetes. Em pessoas saudáveis com glicemias dentro dos parâmetros de referência, não identificou benefício glicémico apreciável. No entanto, os estudos mostram que a monitorização da glicemia de forma contínua está relacionada com uma melhoria na adesão à intervenção nutricional, mostrando grande potencial na modificação (a curto-prazo) de comportamentos alimentares. A heterogeneidade dos estudos e a falta de evidência sobre resultados duradouros limitam as conclusões (Liao et al. 2026).
A decisão de utilizar um CGM deve começar pela definição de um objetivo clínico concreto. Que informação procuramos? Que decisão poderá mudar com os resultados? Como vamos avaliar se a utilização do sensor foi útil? Sem esta reflexão, corremos o risco de acrescentar dados e custos sem melhorar os cuidados.
Há ainda uma questão central para a nossa profissão: a qualidade da alimentação ultrapassa a resposta glicémica. Uma refeição que produz uma curva mais baixa não é necessariamente mais adequada. Por outro lado, o prazer de comer e a possibilidade de manter escolhas alimentares sustentáveis também fazem parte do acompanhamento nutricional.
Uma preocupação que surge com a utilização destes dispositivos em pessoas saudáveis é que a procura de curvas cada vez mais estáveis possa conduzir a restrições desnecessárias ou transformar oscilações fisiológicas em motivo de ansiedade. Cabe-nos explicar o que os dados permitem concluir, reconhecer a incerteza e evitar que uma aplicação passe a determinar, sem enquadramento clínico, quais os alimentos que a pessoa considera seguros.
Esta evolução tecnológica reforça a necessidade de formação dos nutricionistas na interpretação de dados e na comunicação do risco. Exige também atenção à proteção da informação e à acessibilidade dos dispositivos. A capacidade de adquirir um sensor não pode tornar-se um requisito para beneficiar de cuidados nutricionais personalizados.
Na diabetes, os CGMs têm um lugar estabelecido, apoiando a decisão clínica. Fora desse contexto, há possibilidades promissoras, mas também perguntas por responder.
Perante a pessoa preocupada com a banana, o nosso trabalho começa por compreender o gráfico e a preocupação que o acompanha.
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