Obesidade infantil e a responsabilidade de cuidar

Por Ana Rachid, nutricionista especialista em Nutrição Clínica e responsável pela Nutrition in Growth Conference, onde foi moderadora da mesa-redonda sobre Obesidade Infantil

 

A obesidade infantil é o quinto pilar da Nutrition in Growth Conference. O trabalho de prevenção, porém, começa muito antes de chegarmos a este painel. Atravessa a gravidez, a amamentação, a alimentação complementar e as dificuldades alimentares na infância. Cada um destes pilares oferece oportunidades para apoiar o crescimento e construir uma relação saudável com a alimentação e com o corpo.

Em Portugal, em 2022, cerca de uma em cada três crianças dos 6 aos 8 anos tinha excesso de peso, incluindo obesidade. Esta realidade reforça a importância de começar cedo e de olhar para as condições em que as crianças crescem.1

Enquanto responsável pela Nutrition in Growth Conference e moderadora desta mesa-redonda, quis trazer uma reflexão que fosse além dos números na balança ou das calorias. Entre os 0 e os 6 anos, estamos a acompanhar um período de intenso desenvolvimento. Os indicadores de crescimento têm o seu lugar na avaliação, mas precisam de ser interpretados à luz da vida daquele bebé ou daquela criança.2

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Interessa-nos perceber como brinca, como dorme, como aprende a comer e como se relaciona com os outros. Que oportunidades tem para explorar? Que autonomia lhe permitimos? Como encontra conforto quando está triste ou assustada? Foi com este olhar que reuni Adilson Marques, Marta Cabral e Tânia Correia, trazendo para a conversa perspetivas que se complementam.

Adilson Marques trouxe o movimento livre e a importância das experiências corporais nos primeiros anos. Antes de pensarmos numa modalidade desportiva, existe uma criança que precisa de experimentar o corpo e descobrir o espaço. Correr, saltar, equilibrar-se ou brincar com uma bola fazem parte dessa aprendizagem. A reflexão sobre a chamada memória fisiológica levou-nos também a pensar no que as experiências precoces podem representar para o futuro.

Este olhar tem implicações no quotidiano. Precisamos de dar às crianças oportunidades variadas de movimento, tempo para brincar e espaços onde possam fazê-lo em segurança. Para quem acompanha a infância, importa perguntar quanto tempo lhes permitimos explorar e quanto tempo esperamos que permaneçam quietas. A promoção do movimento começa também nas decisões dos adultos sobre a organização do dia.3,4

Marta Cabral trouxe-nos o olhar da sala de aula e a autonomia na aprendizagem. Questionou a ideia de que aprender exige estar sentado e convidou-nos a pensar na qualidade das experiências que proporcionamos. Uma criança aprende quando explora materiais, se movimenta, faz escolhas e participa no que está a acontecer. Cabe ao adulto criar condições e oferecer o apoio de que ela precisa.

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Como nutricionista, encontro aqui uma ligação à aprendizagem alimentar. Também à mesa importa reconhecer a criança como participante. Organizar refeições adequadas, escutar os sinais de fome e saciedade e permitir uma autonomia ajustada ao desenvolvimento fazem parte desse acompanhamento. A forma como respondemos à criança merece tanta atenção como aquilo que colocamos no prato.5

Tânia Correia trouxe o vínculo como base da confiança e uma pergunta que considero essencial: de que forma comer serviu aquela criança, naquele momento da sua vida? A comida pode ter representado conforto, prazer ou uma sensação de controlo perante experiências difíceis. Conhecer essa função ajuda-nos a compreender o comportamento e a pensar na intervenção.

A reflexão sobre o trauma incluiu a possibilidade de uma criança exposta a violência doméstica associar um corpo maior à ideia de se sentir mais forte e protegida. Este significado deve ser compreendido individualmente. Ao propor mudanças alimentares, precisamos de considerar os recursos emocionais de que a criança dispõe e de a ajudar a encontrar outras formas de conforto e regulação, assegurando a sua proteção.

Da articulação destas perspetivas retiro uma responsabilidade para quem trabalha com crianças: conhecer a sua história e o seu contexto. A obesidade é uma doença complexa e multifatorial. O seu acompanhamento exige avaliação clínica, cooperação entre profissionais e uma relação de confiança com a família. Exige também reconhecer as dificuldades concretas que podem tornar uma recomendação difícil de cumprir.2

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As famílias precisam de apoio para cuidar. As escolas precisam de condições para proporcionar experiências que respeitem o desenvolvimento. Os serviços de saúde precisam de tempo e recursos para acompanhar cada criança. A prevenção depende também destas respostas e das políticas que tornam a alimentação adequada, o movimento e os cuidados de saúde acessíveis.2

Foi este o olhar que quis trazer ao quinto pilar da Nutrition in Growth Conference. Um olhar que liga o cuidado iniciado na gravidez às experiências dos primeiros anos e que acompanha a criança como um todo. Gostaria que cada profissional levasse desta mesa uma pergunta para a sua prática: o que preciso de compreender sobre esta criança para poder cuidar melhor dela?

 

Referências bibliográficas
  1. Rito A, Mendes S, Figueira I, et al. Childhood Obesity Surveillance Initiative: COSI Portugal 2022. Lisboa: Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge; 2023. Relatório COSI Portugal 2022
  2. Hampl SE, et al. Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Treatment of Children and Adolescents With Obesity. Pediatrics. 2023;151(2):e2022060640. doi:10.1542/peds.2022-060640
  3. World Health Organization. Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Geneva: WHO; 2019. Documento da OMS
  4. Melby PS, Elsborg P, Nielsen G, Lima RA, Bentsen P, Andersen LB. Exploring the importance of diversified physical activities in early childhood for later motor competence and physical activity level: a seven-year longitudinal study. BMC Public Health. 2021;21:1492. doi:10.1186/s12889-021-11343-1
  5. World Health Organization. WHO guideline for complementary feeding of infants and young children 6–23 months of age. Geneva: WHO; 2023. Documento da OMS
Leitura complementar sobre experiências adversas
Schroeder K, Schuler BR, Kobulsky JM, Sarwer DB. The association between adverse childhood experiences and childhood obesity: A systematic review. Obesity Reviews. 2021;22(7):e13204. doi:10.1111/obr.13204
Fontes das intervenções no painel
  • Marques A. Antes do desporto, vem o movimento: o que construímos nos primeiros anos? [Apresentação]. Nutrition in Growth Conference; Lisboa; 15 de outubro de 2026.
  • Cabral M. É preciso estar sentado para aprender? [NÃO!] Autonomia e Ownership of Learning em Educação de Infância [Apresentação]. Nutrition in Growth Conference; Lisboa; 15 de outubro de 2026.
  • Correia T. Obesidade infantil [Apresentação e intervenção oral]. Nutrition in Growth Conference; Lisboa; 15 de outubro de 2026.
As reflexões sobre memória fisiológica e sobre o significado protetor de um corpo maior são atribuídas às intervenções do painel. A revisão sobre experiências adversas enquadra a associação com obesidade, sem demonstrar esse mecanismo individual.