Por Pedro Queiroz, diretor-geral da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA) e docente da Licenciatura em Ciências da Nutrição na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
A classificação NOVA entrou no debate alimentar procurando associar o processamento dos alimentos à saúde. No entanto, a principal dúvida começa quando uma ferramenta de classificação deixa de ser apenas uma ferramenta científica e passa a funcionar como uma lente ideológica através da qual se pretende interpretar toda a indústria alimentar, os seus produtos e, por extensão, o próprio sistema económico que os torna acessíveis à população.
A narrativa é sedutora pela sua simplicidade: de um lado, os alimentos tradicionais, quase sempre virtuosos; do outro, os alimentos transformados pela indústria, frequentemente apresentados como os representantes de um sistema industrial movido pelo lucro, pelas marcas, pelas embalagens e pela maximização do consumo. Nesta história, as grandes multinacionais alimentares ocupam convenientemente o papel de antagonista. É uma narrativa eficaz e particularmente adequada à comunicação fácil. A realidade nutricional, porém, não pode ficar refém deste tipo de argumentação.
O processamento não é, por si só, sinónimo de má qualidade nutricional, tal como a sua ausência não garante que um alimento seja da melhor qualidade. A composição nutricional, a matriz alimentar, a dose, a frequência de consumo e o padrão alimentar global continuam a ser elementos fundamentais.
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Há, aliás, uma ironia digna de nota. Na crítica à indústria alimentar, as marcas globais, as redes de distribuição e as estratégias de expansão internacional são frequentemente apresentadas como manifestações de poder económico que importa vigiar. No entanto, a própria NOVA tornou-se uma marca conceptual de alcance internacional, reproduzida por uma rede global de investigadores, instituições e seguidores, com capacidade para influenciar recomendações alimentares, agendas de investigação e decisões políticas. E, naturalmente, necessita de financiamento para continuar a desenvolver e divulgar o seu trabalho.
Nada disto constitui, por si só, uma contradição ou um conflito de interesses. A ciência precisa de financiamento, as ideias precisam de divulgação e a investigação beneficia da cooperação internacional. Mas é precisamente aqui que a exigência de coerência se torna indispensável: aquilo que se considera legítimo quando serve a própria causa não pode ser automaticamente suspeito quando serve a indústria. Se a dimensão global, a construção de uma marca, a captação de recursos e a existência de interesses económicos são razões suficientes para desconfiar de uma organização, então esses critérios devem aplicar-se de forma universal, e não apenas àqueles que se cultivam como «adversários».
O mesmo princípio deve orientar a discussão sobre conflitos de interesses. Estes são reais, relevantes e devem ser declarados, avaliados e geridos com transparência. Contudo, não constituem um argumento científico nem uma licença para dispensar a discussão das evidências. Invocar os interesses de quem discorda não demonstra que a discordância seja infundada. A ciência não se fortalece pela desqualificação sistemática dos seus críticos, mas pela capacidade de responder às suas objeções.
Também os investigadores e as organizações que promovem determinada classificação têm interesses: científicos, institucionais, profissionais, reputacionais e, por vezes, políticos. Isso é perfeitamente humano. O problema surge quando a autoridade científica é utilizada para promover uma agenda normativa sem distinguir claramente os resultados demonstrados das preferências ideológicas. Quando uma classificação passa da descrição dos alimentos à prescrição de políticas públicas, a responsabilidade aumenta. Não basta perguntar quem financia a indústria; é igualmente legítimo perguntar quem financia a investigação, quais são os seus pressupostos, que incertezas reconhece e até que ponto as conclusões justificam as medidas propostas.
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A indústria alimentar não é imune a críticas, nem deve estar acima do escrutínio público. Tem responsabilidades importantes na promoção da saúde, na transparência, na reformulação de produtos e na disponibilização de alimentos nutricionalmente adequados, seguros, acessíveis e convenientes. Mas tem também um papel fundamental na inovação e no desenvolvimento de soluções que respondam às necessidades de uma população heterogénea. Esse papel exige investimento, tecnologia, conhecimento científico e relações sólidas com universidades, centros de investigação e profissionais de saúde.
Em vez de transformar a indústria num adversário por definição, importa criar condições para que a ciência e a tecnologia contribuam para melhores produtos, escolhas mais informadas e sistemas alimentares mais sustentáveis. A colaboração não elimina a necessidade de independência; exige regras claras, transparência e avaliação rigorosa.
A ciência não precisa de santos nem de vilões. Precisa de hipóteses testáveis, evidência robusta, debate aberto e humildade perante a complexidade. Afinal, seria lamentável que, na tentativa de procurar condenar a indústria alimentar, acabássemos por criar uma indústria de ideias imune à crítica. Sobretudo quando a ciência, para continuar a merecer esse nome, deve aplicar a si própria o mesmo rigor que exige aos outros.




