Como se constroem as reservas de ferro do bebé? Da alimentação à suplementação seletiva na gravidez

Por Margarida Nogueira

Em Portugal, os dados clínicos revelam um cenário preocupante: mais de 50% das grávidas apresentam anemia e mais de 60% sofrem de ferropenia (défice de ferro). No entanto, a teoria de que todas as mulheres grávidas necessitam de tomar um multivitamínico de forma universal não tem suporte científico atual e pode, em muitos casos, ser ineficaz. Maria Ana Kadosh, médica de família e nutricionista, alertou para a necessidade do rastreio precoce de ferritina e criticou a utilização indiscriminada de suplementos multivitamínicos. O apelo foi feito na palestra ‘Antes da Introdução Alimentar: como se constroem as Reservas de Ferro do Bebé?’, na Nutrition in Growth Conference, concretizada na passada quinta-feira, dia 15 de outubro.

Perante este diagnóstico, a prioridade nos cuidados de saúde materna e fetal deve focar-se na promoção de uma alimentação completa, equilibrada e variada, aliada a uma suplementação rigorosa e direcionada com base em exames analíticos individuais.  O recurso a fórmulas multivitamínicas “tudo-em-um” não só falha em corrigir os défices específicos de ferro, como muitas vezes atrasa o tratamento adequado.

O ferro desempenha um papel determinante durante a gestação. É essencial para o transporte e utilização de oxigénio pelas células, para a síntese de ADN e para o desenvolvimento adequado do sistema nervoso e imunitário do bebé. Contudo, as suas funções vão muito além da síntese da hemoglobina e do transporte de oxigénio para os tecidos e para o feto.

Como sublinha um artigo da Acta Médica Portuguesa, o ferro é essencial para o correto crescimento e funcionamento de órgãos fetais em desenvolvimento, desempenhando também um papel determinante na síntese de enzimas do metabolismo cerebral e de neurotransmissores cruciais, como a serotonina. A sua carência está diretamente relacionada com um risco significativamente aumentado de depressão pós-parto e disfunção cognitiva na mãe, além de prejuízos no neurodesenvolvimento e nas funções cognitivas e comportamentais da criança.

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Para o feto, a ferropenia associa-se a restrição de crescimento intrauterino, baixo peso ao nascer, prematuridade e alterações no neurodesenvolvimento, acrescenta Maria Ana Kadosh na sua palestra moderada pela médica de família Rita Cabrita. As consequências do défice de ferro no bebé incluem um risco elevado de mortalidade materna e perinatal, partos pré-termo, restrição de crescimento intrauterino e recém-nascidos com baixo peso ao nascer.

Ferropenia não é Anemia

Uma das mensagens centrais da palestra é a distinção entre ferropenia e anemia: é possível ter uma ferropenia grave mantendo um hemograma e valores de hemoglobina perfeitamente normais. Quando os níveis de hemoglobina começam a baixar, significa que as reservas de ferro no organismo já estão totalmente esgotadas.

Por esta razão, entidades de referência como a Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, a Sociedade Europeia de Hematologia, a FIGO, a Acta Médica Portuguesa e, mais recentemente, a Academia Americana de Pediatria recomendam, que a medição da ferritina plasmática deve ser realizada na consulta preconcecional e em cada um dos trimestres da gravidez.

Embora as entidades recomendem a avaliação obrigatória da ferritina em todas as grávidas para detectar défices precocemente, isso não significa que se recomende a suplementação universal com ferro para todas as grávidas. A suplementação seletiva é a recomendada por Maria Ana Kadosh e pelas entidades de referência.

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Assim, a palestrante, médica de família e nutricionista, alerta para a importância dos “primeiros 1000 dias de vida, que correspondem ao período de tempo entre a gravidez e os dois primeiros anos de vida da criança, porque, na verdade, são estes primeiros mil dias de vida e a vida útil que vai definir muito daquilo que nós somos”. A nutricionista explica que o estilo de vida da mãe e do bebé durante este período vai influenciar a saúde mais tarde na vida. Por exemplo, a hipótese levantada por David Barker verifica que “baixo peso ao nascer estava correlacionado com o risco aumentado de obesidade infantil mais tarde na vida”, afirma a convidada.

Embora revisões sistemáticas recentes esclareçam que intervenções nutricionais precoces não garantem a prevenção absoluta de todas as doenças crónicas não transmissíveis na idade adulta, a evidência confirma que estas intervenções otimizam de forma significativa indicadores cardiometabólicos cruciais no crescimento da criança, como a pressão arterial, os níveis de colesterol LDL e o perímetro da cintura.

Desta forma, para superar os desafios diários da suplementação e garantir o desenvolvimento ideal, é fundamental otimizar a toma do ferro (recorrendo ao estômago vazio à noite ou a esquemas em dias alternados para minimizar efeitos secundários) e pode ser relevante adotar o clampeamento tardio do cordão umbilical. Acima de tudo, o sucesso desta estratégia assenta numa educação alimentar familiar consistente, garantindo que a construção das reservas de ferro comece na gravidez e se reflita na saúde de toda a vida da criança.