Nova Era da Nutrição: Como o digital está a redefinir a profissão

Numa era de mudanças tecnológicas avançadas, como a Inteligência Artificial, é importante analisar como estas estão a redefinir as profissões e, assim é, qual é o papel do Ser Humano no mundo do trabalho. Longe de substituir o nutricionista, o avanço tecnológico surge como uma ferramenta de potencialização, assumindo o papel de “terceiro elemento” na relação entre o profissional e o paciente. Os participantes na mesa-redonda ‘Nova Era da Nutrição: Tecnologia, Dados e Prática Digital‘, moderada por Maria Leonor Silva, nutricionista e investigadora, no 3º Congresso da Ordem dos Nutricionistas, apontam para a urgência de uma nova literacia digital e ética, onde o controlo final e a validação do conhecimento permanecem obrigatoriamente do lado humano.

No centro desta evolução tecnológica está a capacidade de processar e estruturar grandes volumes de informação em tempo útil. Na nutrição, a utilização de Inteligência Artificial (IA) generativa e de sistemas de visão computacional (computer vision) já permite identificar alimentos a partir de uma simples fotografia, calculando estimativas de macronutrientes e valor calórico com base em tabelas oficiais.

“O que [a IA] faz é, no fundo, imitar automaticamente alimentos que estejam numa fotografia (…), ela automaticamente vai identificar cada um destes produtos (…) E, no fundo, calcula uma estimativa do poder intestinal, portanto, energia, proteína, fibra, faz uma avaliação se é equilibrada ou não”, explica Pedro Miguel Rodrigues, engenheiro biomédico e coordenador da Pós-Graduação em Ciências de Dados em Biotecnologia da ESB-UCP.

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Para além da avaliação de pratos, a IA passa a desempenhar um papel ativo na otimização do tempo do nutricionista. Através da automação de registos e do apoio na estruturação de planos alimentares personalizados via prompts técnicos, os profissionais conseguem reduzir significativamente o tempo utilizado em tarefas burocráticas. E, desta forma, o nutricionista tem mais tempo para fazer o que é importante: o apoio clínico aos pacientes. No entanto, os palestrantes reforçam que estes sistemas devem ser utilizados apenas para sugestões e estimativas: cabe exclusivamente ao nutricionista, munido de espírito crítico, validar, ajustar e assumir a responsabilidade pela intervenção prescrita.

A IA também poderá ser útil para manter contacto com o paciente mesmo depois do momento de acompanhamento. O modelo tradicional de consulta é caracterizado por encontros espaçados por meses e pela entrega de orientações estáticas em papel ou folhas de cálculo. Mas, este tem demonstrado limitações na manutenção da adesão do paciente a longo prazo.

André Santos, CEO e Co-Fundador da Nutrium, explica que esta lacuna entre consultas afetou bastante o seu progresso, chegando mesmo a desmotivá-lo. Foi precisamente por isso que criou o Nutrium, uma aplicação que permite aos pacientes manterem contacto direto com o nutricionista entre consultas, registando refeições e recebendo feedback contínuo.

Com o apoio da inteligência artificial, a app vai sugerindo pontos de contacto no momento em que o paciente demonstra maior desmotivação ou perante eventos específicos do seu quotidiano. Esta abordagem contínua fortalece a relação de compromisso e empatia, transformando a intervenção nutricional num processo dinâmico de gestão de hábitos.

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Um dos maiores desafios na promoção da saúde alimentar reside na sustentabilidade dos novos hábitos. Para Carla Sílvia Fernandes, presidente da Associação para o Desenvolvimento de Inovação Tecnológica e Jogos em Saúde (ADITGameS), a introdução de técnicas de gamificação (gamification) é uma resposta a esta problemática. Recorre-se a dinâmicas de feedback imediato, a definição de metas progressivas, a conquistas e a recompensas simbólicas para alimentar a motivação intrínseca do utilizador.

“A gamificação não significa obrigatoriamente estarmos a desenvolver jogos. (…) São todos elementos de dinâmicas e mecânicas da gamificação que podem ser utilizadas e que obrigam e/ou motivam os utilizadores, nem que seja a ir ao recurso tecnológico e a utilizá-lo. Não é a solução para todos os problemas, mas, quando adequadamente conseguida, pode progredir a motivação autónoma e apoiar a manutenção e a continuidade dos actos”, apresenta a presidente da ADITGameS.

No entanto, à medida que a tecnologia ganha espaço na prática diária, torna-se indissociável a preocupação com a proteção da informação. Como em todas as áreas, a transição digital levanta exigências no campo da segurança e da ética. O treino contínuo de modelos de IA com dados reais de pacientes traz riscos inerentes de fuga de informação confidencial. Os oradores recomendam, por isso, rigor absoluto na introdução de dados clínicos e o alinhamento com os princípios éticos europeus para a saúde digital, assegurando a transparência e a equidade.

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Contudo, para os palestrantes, a nova era da nutrição não contrapõe a tecnologia ao fator humano. Pelo contrário, exige que o nutricionista domine as ferramentas digitais de forma crítica para se tornar indispensável, liderando a inovação em benefício da saúde pública. “Tenham um pensamento crítico sobre tudo. Tenham um espírito crítico sobre a resposta da IA. Dominem a tecnologia. Tomem-nos indispensáveis”, apela, por fim, Pedro Miguel Rodrigues.