Alimentação da mulher ao longo do ciclo de vida: da menarca à transição menopáusica

Por Rosário Monteiro, médica de Medicina Geral e Familiar e diretora adjunta do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS). 

 

A alimentação contribui decisivamente para a saúde da mulher, com necessidades específicas do crescimento à transição menopáusica. Contribui para a aquisição de massa óssea, a prevenção de deficiências, o ambiente metabólico da gestação, a manutenção da massa muscular na menopausa e a autonomia funcional na idade avançada.

Na adolescência, o crescimento rápido, a maturação sexual, a autonomia nas escolhas e a vulnerabilidade à insatisfação corporal exigem atenção à adequação nutricional. Importa assegurar ferro suficiente, sobretudo perante perdas menstruais abundantes, prática desportiva intensa ou exclusão de grupos alimentares. Energia, proteína, cálcio e vitamina D adequados contribuem para otimizar a composição óssea e a função muscular. O aconselhamento deve promover refeições regulares, diversidade e reconhecimento da fome e saciedade, evitando mensagens centradas no peso e na imagem corporal, para reduzir o estigma e prevenir alterações do comportamento alimentar.

Na idade fértil, mesmo sem gravidez planeada, importa proteger a saúde cardiometabólica, o osso e músculo e prevenir deficiências relevantes numa futura gestação. A preconceção é uma janela de oportunidade para promover a alimentação e outros hábitos saudáveis. A Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) recomenda aconselhamento nutricional prévio à gravidez, apoiado numa checklist de preconceção. A Direção Geral da Saúde (DGS) recomenda habitualmente ácido fólico, 400–800 µg/dia, na preconceção e início da gestação. Importa assegurar ferro, dada a elevada prevalência de deficiência, e ingestão adequada de iodo, cálcio, vitamina D, proteína e ácidos gordos ómega 3.

Estamos a desaprender a reconhecer a fome e a saciedade?

Na gravidez, a densidade nutricional, a saúde materna, a variação ponderal adequada e o crescimento fetal harmonioso são prioritários. A FIGO propõe pelo menos cinco porções diárias de hortícolas e fruta, peixe uma a duas vezes por semana e limitação de produtos ricos em açúcar, sal e gordura. Devem evitar-se álcool e alimentos de risco microbiológico, incluindo carnes e ovos mal cozinhados e lacticínios não pasteurizados, seguindo as recomendações nacionais sobre mercúrio no peixe. A suplementação com ácido fólico, iodo, acido docosahexaenóico (DHA), ferro e vitamina B12 deve seguir recomendações específicas e avaliação individual. De realçar que o ambiente nutricional e metabólico intrauterino participa na programação do desenvolvimento, nomeadamente através de mecanismos epigenéticos.

No pós-parto, a recuperação física, a privação de sono e a adaptação emocional aumentam a vulnerabilidade e dificultam o autocuidado. Refeições com boa qualidade, fáceis de preparar, e educação para a distribuição de tarefas familiares contribuem para a adequação nutricional.

Durante o aleitamento, recomendam-se alimentação saudável e hidratação adequada, sem exclusões preventivas por receio de alergia no bebé, salvo indicação clínica. Recomenda-se suplementar iodo durante o aleitamento exclusivo e vitamina B12 em mulheres com dietas estritamente vegetarianas. Deve assegurar-se a ingestão de DHA; álcool e cafeína requerem aconselhamento específico.

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A transição menopáusica associa-se à redistribuição da gordura corporal, redução de massa e força muscular e aceleração da perda óssea. Pode coincidir com alterações do sono e humor, sintomas vasomotores e maior risco cardiometabólico associado à idade. A International Menopause Society (IMS) e a European Menopause and Andropause Society (EMAS) apontam o padrão mediterrânico como referência, com benefícios na saúde cardiovascular, pressão arterial, perfil lipídico e risco de síndrome metabólica e diabetes. A evidência do impacto nos sintomas associados à menopausa é menos consistente. Qualquer estratégia alimentar deve preservar músculo e osso. Quando existe indicação clínica para perda de peso, deve combinar défice energético moderado, proteína adequada e exercício de resistência. A proteína deve distribuir-se pelas refeições e provir de fontes diversas. Para a saúde óssea, importa assegurar cálcio alimentar, vitamina D e proteína suficientes. A suplementação com cálcio ou vitamina D deve atender à ingestão, à existência de deficiência e ao risco clínico.

As prioridades específicas apresentadas articulam-se num princípio comum: a qualidade global do padrão alimentar, ajustada a cada fase do ciclo de vida. Neste âmbito, a alimentação mediterrânica oferece uma referência central, com benefícios documentados na saúde cardiometabólica, integrando os cuidados necessários à proteção muscular e óssea.

Importa ainda realçar que o investimento na literacia alimentar nas mulheres pode amplificar benefícios e ter alcance transgeracional, pelo seu papel tradicionalmente preponderante na gestão alimentar familiar e pela influência do ambiente metabólico in utero e da amamentação na saúde das gerações seguintes.

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