Desnutrição associada à doença atinge cerca de 115 mil doentes

Cerca de 115 mil doentes apresentam problemas de desnutrição associados à doença, mas os hospitais apenas rastreiam três em cada dez internados, alertou hoje a Associação Nacional da Indústria de Alimentação Infantil e Nutrição Entérica e Parentérica (ANID).

“Estima-se que cerca de 1% da população nacional – estamos a falar de 115 mil doentes – possa eventualmente estar com problemas de nutrição associados à doença”, adiantou à Lusa o secretário-geral Pedro Queiroz.

A associação realiza hoje, em Lisboa, o Fórum Nacional da Nutrição Clínica, que vai reunir especialistas, decisores públicos, profissionais de saúde, doentes e entidades reguladoras para debater o impacto da nova comparticipação da nutrição entérica e os desafios que persistem no acesso do doente.

As estimativas apontam para que os rastreios da desnutrição associada à doença abranjam apenas 31% dos doentes internados nos hospitais, referiu Pedro Queiroz, para quem esses diagnósticos têm de ser feitos em contexto hospitalar para permitir uma intervenção imediata.

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“O que nós entendemos é que o primeiro grande passo é aumentar os rastreios para, efetivamente, identificar a necessidade e depois melhorar a acessibilidade” à nutrição clínica, referiu o secretário-geral da ANID.

Em causa está uma terapêutica essencial que deve ser integrada no tratamento de várias doenças, como as inflamatórias intestinais, oncológicas, neurológicas, insuficiências orgânicas e pós cirurgia, realça a associação.

Uma intervenção nutricional adequada reduz complicações, diminui tempo de internamento, melhora prognósticos, aumenta a qualidade de vida e previne mortalidade evitável, acrescenta.

Os doentes que precisam de suporte alimentar com recurso a nutrição clínica dispõem, desde o início deste ano, de uma comparticipação do Estado de 69% para a nutrição entérica, que passará para os 90% no próximo ano.

“Este primeiro passo de comparticipação que o Governo português deu nós naturalmente consideramos bastante positivo”, adiantou Pedro Queiroz, mas alertou que “há um passo fundamental a dar no futuro”, que passa por incluir também os suplementos nutricionais orais.

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Segundo referiu, a portaria do Governo sobre a nutrição entérica já prevê que esses suplementos venham a ser comparticipados, mas apenas em 15% do seu valor numa primeira fase e ainda sem data prevista para entrar em vigor.

Para a ANID, a inclusão futura dos suplementos nutricionais orais neste regime excecional de comparticipação da nutrição entérica, com uma comparticipação de 15%, constitui uma “medida de política de saúde, mas dificilmente garante, por si só, uma verdadeira acessibilidade para os doentes que necessitam destas terapêuticas”.

Segundo o secretário-geral da associação, a comparticipação dos suplementos nutricionais orais deveria evoluir de forma faseada para chegar aos 90% previstos para a nutrição entérica, um método clínico de alimentação, por via oral ou por sonda, utilizado para suprir as necessidades nutricionais de um doente.

Outra dificuldade diz respeito ao acesso à nutrição clínica por parte dos doentes que regressam a casa, após o internamento, com a ANID a salientar que esses utentes, muitos deles em situação de fragilidade, doença crónica, incapacidade funcional ou pediatria complexa, “necessitam de terapêuticas nutricionais que não podem ser interrompidas”.

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“A transição do hospital para o domicílio exige coordenação entre equipas, planos nutricionais claros, formação para cuidadores, monitorização regular e acesso garantido aos produtos prescritos. Quando estes elementos falham, o doente fica desprotegido num momento particularmente vulnerável”, salientou o secretário-geral da associação.