Por Pedro Queiroz, diretor-geral da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA) e docente da Licenciatura em Ciências da Nutrição na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Portugal alcançou recentemente uma distinção de enorme relevância internacional ao ser classificado como o país com o sistema alimentar e agrícola mais resiliente do mundo no Resilient Food Systems Index (RFSI), desenvolvido pela Economist Impact. Com uma pontuação de 76,83, Portugal ocupa o primeiro lugar entre as 60 economias avaliadas, vendo reconhecida a sua capacidade para garantir o acesso a alimentos seguros, nutritivos e de qualidade, mesmo perante desafios económicos, ambientais e sociais cada vez mais complexos.
Esta classificação representa muito mais do que uma posição de destaque num ranking internacional. Traduz o reconhecimento de um percurso consistente desenvolvido ao longo das últimas décadas por toda a cadeia agroalimentar nacional, envolvendo produtores agrícolas, indústria alimentar, distribuição, comunidade científica, entidades reguladoras e organismos de fiscalização.
Entre os diversos indicadores avaliados, Portugal destacou-se particularmente no domínio da qualidade e da segurança dos alimentos, refletindo a existência de um sistema robusto de avaliação e gestão do risco, sustentado em elevados padrões técnicos e científicos e plenamente alinhado com a exigente legislação europeia.
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A indústria alimentar tem desempenhado um papel determinante neste percurso. Enquanto um dos setores mais relevantes da economia nacional, tem investido continuamente na modernização dos processos produtivos, nos sistemas de gestão da qualidade e segurança dos alimentos, na rastreabilidade, na inovação tecnológica e na qualificação dos seus profissionais. Paralelamente, a colaboração entre empresas, universidades, centros de investigação e entidades públicas tem contribuído para reforçar a confiança dos consumidores e a competitividade do setor.
Este reconhecimento é igualmente fruto da capacidade de adaptação da fileira agroalimentar aos novos desafios globais. As alterações climáticas, a volatilidade dos mercados internacionais, a escassez de recursos naturais e as crescentes exigências dos consumidores têm impulsionado investimentos significativos em inovação, sustentabilidade e digitalização.
O RFSI demonstra que a principal questão que hoje se coloca aos sistemas alimentares não é apenas garantir alimentos suficientes, acessíveis e nutritivos, mas assegurar que essa capacidade se mantém perante crises e perturbações. A resiliência não constitui um resultado adquirido, mas o reflexo de escolhas estratégicas. Em muitos países já existem os recursos necessários — capacidade tecnológica, instrumentos financeiros, enquadramento regulatório e ambição política —, embora frequentemente funcionem de forma desarticulada. O desafio consiste, por isso, menos em criar novas soluções do que em integrar e ampliar as que já demonstraram eficácia.
O estudo evidencia igualmente a forte interdependência do sistema alimentar mundial. Apenas 15 países produzem cerca de 70% dos alimentos consumidos no mundo e, destes, 11 figuram também entre os maiores exportadores, sendo responsáveis por mais de 60% das exportações alimentares globais. Apesar de apresentarem desempenhos superiores à média do índice, nenhum destes países alcançou ainda um nível de resiliência plenamente robusto. A média dos principais exportadores situa-se nos 70,07 pontos, enquanto os maiores produtores registam apenas 65,87 pontos, pouco acima da média global (63,88). Assim, perturbações ocorridas nestes países podem rapidamente provocar escassez de oferta, aumento dos preços e dificuldades de acesso aos alimentos em economias mais dependentes das importações.
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Neste contexto, a liderança de Portugal assume um significado particularmente relevante. Mais do que um motivo de orgulho nacional, demonstra que é possível construir um sistema alimentar resiliente através de políticas consistentes, investimento continuado, inovação, rigor científico e cooperação entre todos os intervenientes da cadeia de valor. Simultaneamente, constitui uma oportunidade para reforçar a reputação internacional dos produtos alimentares nacionais, consolidar a competitividade das nossas empresas e afirmar Portugal como uma referência mundial na qualidade, segurança e resiliência dos sistemas alimentares.
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