Por Roberto Brazão, engenheiro alimentar na Unidade de Observação e Vigilância do Departamento de Alimentação e Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge
Um dos dias desta semana terminou com o meu filho de 8 anos a perguntar-me uma anedota do livro Coelho vs Macaco: “Pai, qual é a rede social dos vegetarianos?”. Respondi-lhe que não sabia. “É o alFacebook!”, disse ele, às gargalhadas.
Começo desta forma, simplesmente porque não tem nada a ver com o que escrevo em seguida… Ou talvez tenha!
Nos últimos anos, as crescentes preocupações relacionadas com a obesidade, a má nutrição, outros problemas de saúde, as alterações climáticas, o bem-estar animal e a sustentabilidade têm conduzido à procura de produtos alimentares mais saudáveis, sustentáveis e ambientalmente responsáveis. A mudança nos padrões alimentares, assente no aumento da produção e consumo de alimentos de base vegetal, tem sido promovida como uma estratégia eficaz para garantir uma maior saúde da população e do planeta.
Multiplicaram-se no mercado nacional e internacional, de forma muito rápida, alimentos de base vegetal alternativos à carne, pescado, leite, queijo, iogurte, fiambre e até enchidos tradicionais. A maioria destes produtos adota formatos, designações e características organoléticas e químicas semelhantes às dos seus equivalentes de origem animal, promovendo simultaneamente uma aura de maior saudabilidade, através da utilização de imagens, cores e expressões, como: “à base de plantas”, “plant-based”, “vegan”, “vegetariano”, “natural” ou “amigo do ambiente”.
Uma alimentação predominantemente de base vegetal, rica em alimentos pouco processados, como hortícolas, frutas, leguminosas, cereais integrais e frutos secos, e com baixo teor de sal, gorduras saturadas e açúcares adicionados, está amplamente associada a benefícios para a saúde. Contudo, a crescente disponibilidade dos produtos de base vegetal nas formas processadas e ultraprocessadas levanta várias preocupações.
Vários estudos têm demonstrado que o consumo frequente destes alimentos ultraprocessados está associado a excesso de peso, obesidade, alterações gastrointestinais, hipertensão arterial, cancro, doenças cardiovasculares, diabetes e aumento da mortalidade.
É precisamente aqui que reside o principal problema que queria abordar. A procura de alimentos de base vegetal práticos e funcionais, capazes de garantir texturas, sabores e aparências semelhantes aos alimentos de origem animal, tem levado a indústria alimentar a investir fortemente em produtos com processamentos e formulações complexas, compostas por múltiplos ingredientes, aromas, espessantes, emulsionantes e quantidades significativas de gorduras, açúcares e sal. Paralelamente, procurando promover o “halo saudável” destes alimentos e moldar a perceção dos consumidores, a indústria tem recorrido cada vez mais a estratégias de marketing inovadoras, nas embalagens, rótulos e campanhas publicitárias, desviando frequentemente a atenção relativamente às verdadeiras características e qualidade nutricional.
Um estudo realizado no Departamento de Alimentação e Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, da minha autoria, e publicado numa revista científica internacional no início de 2025, avaliou 3622 produtos alimentares disponíveis nos mercados português e britânico, incluindo 452 produtos processados de base vegetal e 958 equivalentes de origem animal exclusivamente do mercado português.
Os principais resultados observados no nosso mercado merecem uma reflexão crítica. Cerca de 93% (n=420) dos produtos de base vegetal excediam os valores de referência da Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável (EIPAS) para açúcares e sal avaliados conjuntamente, comparativamente a 87% (n=853) dos produtos análogos de origem animal. Em apenas 4 das 9 categorias alimentares estudadas foi possível observar produtos de base vegetal de acordo com os valores estabelecidos na EIPAS, numa prevalência inferior a 26%.
Embora muitos destes produtos apresentassem frequentemente teores mais baixos de ácidos gordos saturados e mais elevados de fibras do que os seus equivalentes de origem animal, o que é nutricionalmente positivo, verificou-se que vários apresentavam teores mais elevados de energia, hidratos de carbono e sal, bem como, menores de proteínas em várias categorias alimentares.
Considerando os valores nutricionais de referência do descodificador de rótulos da Direção-Geral da Saúde, verificou-se que 85% e 78% dos alimentos de base vegetal apresentavam teores médios ou altos de lípidos e de sal, respetivamente, comparativamente a 59% e 55% no caso dos alimentos de origem animal.
Adicionalmente, observou-se uma elevada variabilidade nas características nutricionais e de saudabilidade dos produtos dentro da mesma categoria, o que demonstra que a existência de produtos com perfis nutricionais desadequados resulta sobretudo da formulação e do processamento e não da sua base vegetal.
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Perante estes resultados, torna-se evidente que é um erro assumir que substituir automaticamente um alimento de origem animal por uma alternativa ultraprocessada de base vegetal representa sempre um ganho para a saúde. No mercado português, em muitos casos, estamos precisamente perante verdadeiros “lobos em pele de cordeiro”, face ao grande fosso existente entre as suas características nutricionais e a imagem saudável que projetam e os perfis nutricionais definidos a nível nacional e internacional.
É, portanto, indispensável uma resposta multissectorial e a implementação de medidas eficazes de saúde pública. À semelhança do que se verificou recentemente em Portugal com várias categorias alimentares, a reformulação nutricional destes produtos deve ser incentivada, com metas concretas para melhoria geral da sua composição nutricional, nomeadamente através da redução dos teores de sal e gordura. Simultaneamente, será importante reforçar a legislação, procurando regular de forma mais eficaz o marketing e a rotulagem alimentar, sobretudo no que se refere à utilização de alegações nutricionais, de saúde, ambientais e/ou outras expressões associadas a benefícios, em alimentos com um perfil nutricional desadequado, evitando que estes atributos funcionem como autêntica “pele de cordeiro”. Medidas fiscais e de literacia alimentar poderão desempenhar também um papel importante na promoção de escolhas alimentares mais saudáveis.
Para concluir, importa reconhecer que nem tudo o que é de base vegetal é necessariamente saudável e que continua a ser fundamental distinguir entre aquilo que um alimento aparenta ser e aquilo que realmente é. Afinal, como na anedota do meu filho, às vezes basta uma pequena mudança no nome para alterar completamente a perceção das pessoas, sendo que a realidade se mantém inalterada.
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