Estigma do peso: um problema real, respostas nem sempre certas

Por Juliana Martins e Joana Araújo, do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS).

 

O estigma do peso e da obesidade continua profundamente presente na nossa sociedade, ainda que muitas vezes implícito e sem uma consciência clara da perpetuação do mesmo. Este pode manifestar-se de forma explícita, por exemplo, através de comentários ou julgamentos sobre o peso, ou através da associação da obesidade à preguiça, falta de vontade ou falta de disciplina. Mas também de formas mais subtis: olhares, pressupostos, exclusão ou atitudes paternalistas. O estigma pode estar presente em diversos contextos – no meio familiar e social, nos meios de comunicação social e redes sociais, nos locais de trabalho e, não raras vezes, nos próprios serviços de saúde.

Estas mensagens negativas, explícitas ou implícitas, podem ser internalizadas, resultando em sentimentos de culpa, vergonha e fracasso pessoal. O estigma está associado a pior saúde mental, isolamento social e menor qualidade de vida. Nos cuidados de saúde, as consequências podem ser particularmente graves. Estudos mostram que pessoas com obesidade que experienciam discriminação relacionada com o peso tendem a evitar consultas, adiar exames ou confiar menos nos profissionais de saúde, podendo traduzir-se em diagnósticos mais tardios, pior acompanhamento e piores resultados em saúde.

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Felizmente, o combate ao estigma tem ganho maior visibilidade nos últimos anos. Este combate inclui a promoção de linguagem centrada na pessoa, que consiste numa comunicação mais empática, em que o indivíduo é colocado antes da doença, reconhecendo que ninguém é resumido ao seu peso. São exemplos de linguagem centrada na pessoa expressões como “pessoa com obesidade” ou “pessoa que vive com obesidade”, em detrimento da utilização de rótulos ou adjetivos associados ao peso. Também a utilização de imagens mais diversas e inclusivas para representar a obesidade é uma preocupação crescente.

No entanto, o crescimento deste discurso anti-estigma trouxe também um fenómeno que merece reflexão. Algumas campanhas públicas passaram a integrar o combate ao estigma numa narrativa predominantemente biomédica da obesidade, em que se frisa a obesidade como doença, cujo tratamento surge quase inevitavelmente associado ao tratamento farmacológico. Esta narrativa está presente na comunicação para a população-geral, nomeadamente em meios de comunicação generalista, mas também dirigida a profissionais de saúde, por exemplo, em conferências científicas. Observa-se que a narrativa anti-estigma ganhou um grande alcance nestes contextos nos anos mais recentes, em que somos constantemente expostos a mensagens de aceitação do corpo e do peso e a imagens mais inclusivas e humanistas. No entanto, este discurso está muitas vezes ligado à veiculação de uma outra mensagem, a de que a obesidade deve ser tratada como doença e, de forma mais ou menos explícita, que o tratamento é farmacológico.

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Reconhecer a obesidade como uma doença complexa e multifatorial é essencial. Reduzir tudo à “falta de vontade” é cientificamente errado e socialmente injusto. No entanto, combater a culpabilização individual não deve significar aceitar soluções simplistas ou uma medicalização acrítica do problema.

Existe o risco de substituir uma narrativa excessivamente moralista por outra excessivamente medicalizada. Entre a ideia de que “a culpa é toda do indivíduo” e a ideia de que “o indivíduo não tem qualquer papel” e a sua doença só pode ser tratada exclusivamente por via medicamentosa, existe um espaço importante de equilíbrio. A obesidade resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais, económicos e ambientais. Nenhuma intervenção isolada – farmacológica ou outra – conseguirá dar resposta a esta complexidade.

O combate ao estigma exige uma abordagem em vários níveis: nas relações interpessoais, nas escolas, nas empresas, nos media, nos serviços de saúde e nas políticas públicas. A gestão da obesidade exige uma abordagem multidisciplinar, centrada na pessoa, que pode incluir intervenção nutricional, promoção da atividade física, acompanhamento psicológico, intervenções ao nível dos determinantes sociais e, quando indicado, tratamento farmacológico ou cirúrgico. Mas nenhuma destas respostas deve ser apresentada como solução única para um problema complexo.

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Combater o estigma da obesidade é indispensável. Mas esse combate não pode servir para reduzir a complexidade humana a uma única narrativa nem a uma única solução.

 

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