SIBO – A “desarmonia” do microbioma intestinal 16523

O conhecimento sobre a microbiota intestinal, ou flora intestinal, tem melhorado através do uso de novas técnicas de identificação, baseadas no estudo dos genes (ADN) dos microrganismos que habitam os intestinos. Sabe-se que contém, aproximadamente, 100 vezes mais genes do que o genoma humano e que este desempenha um papel muito importante, influenciando desde o armazenamento de energia dos alimentos ao estado de saúde de cada indivíduo.

Quando o ecossistema intestinal deixa de ter equilíbrio e uma predominância de bactérias amigáveis, passando a prevalecer bactérias, leveduras e parasitas prejudiciais, os desequilíbrios subsequentes podem devastar o sistema digestivo, provocando disbiose, uma das doenças mais comuns do trato gastrointestinal.

Se simbiose significa “viver em harmonia com”, disbiose é o contrário, ou seja, “viver em desarmonia com”. No caso da disbiose, o ecossistema gastrointestinal perde o seu equilíbrio e estado de harmonia com o resto do organismo.

O que é SIBO?

SIBO trata-se de um tipo de disbiose. O acrónimo inglês (SIBO) refere-se a Small Intestinal Bacterial Overgrowth, ou seja, um crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado. Este distúrbio no microbioma intestinal é uma manifestação de disbiose caracterizada por uma quantidade anormal e/ou uma alteração do tipo de bactérias entéricas presente no intestino delgado, que levam a sintomas gastrointestinais, como diarreia, obstipação, flatulência, cólicas, inchaço, indigestão, perda de peso e má absorção nutricional.

Este aumento ou alteração do tipo de bactérias, nomeadamente espécies gram-negativas no intestino delgado, torna-se prejudicial para a saúde gastrointestinal e sistémica. Adicionalmente malnutrição e carências nutricionais (B12, D, A, E, ferro, cálcio) apenas confirmam que o SIBO é uma síndrome com um largo espetro clínico, que pode surgir em diversos contextos. O SIBO pode mascarar ou agravar o histórico de algumas doenças (Doença celíaca, Síndrome do Colon Irritável), pode ser mais comum em algumas desordens extraintestinais (obesidade, esclerodermia) ou pode, ainda, representar uma ligação patogénica com doenças nas quais a alteração na microbiota intestinal é predominante.


A fisiopatologia do SIBO

Como já referido, sendo este um distúrbio intestinal causado por um crescimento excessivo de bactérias entéricas no intestino delgado, as complexas interações entre o microbioma intestinal e os outros sistemas do corpo, tornam condições disbióticas como o SIBO, cada vez mais relevantes.

É no intestino delgado, zona do trato digestivo especializada na absorção de nutrientes, onde geralmente a concentração de bactérias é diminuída, que se dá um crescimento anormal de bactérias. Mas, também, pode ocorrer uma migração de bactérias que, normalmente, residem em outras áreas do intestino, para o intestino delgado. Como consequência, pode causar dor e diarreia, e o crescimento excessivo desses microrganismos pode resultar em inflamação da mucosa, mas, também, pode levar à desnutrição, pois as bactérias começam a usar os nutrientes do organismo como fonte de energia.


Avaliação e diagnóstico

Existem várias modalidades de testes disponíveis para a triagem do SIBO, entretanto, cada um vem com as suas próprias limitações e controvérsias. O padrão atual para o diagnóstico continua a ser uma cultura quantitativa de líquido aspirado do intestino delgado. No entanto, o alto custo do procedimento, combinado com a natureza invasiva, torna-o menos do que ideal para muitos pacientes.

Os testes de respiração são métodos simples, não invasivos e fáceis para diagnosticar o supercrescimento bacteriano. O desenvolvimento de testes respiratórios que detetam os produtos de fermentação bacteriana no intestino (hidrogénio e metano) veio possibilitar a deteção de SIBO numa proporção maior de pacientes.


Como o SIBO influencia o estado de saúde 

Apesar de ser um distúrbio que ainda não é bem compreendido e necessita de mais estudo, sabe-se que pode ocorrer quando o intestino delgado tem anormalidades anatómicas, mudanças no pH ou uma má atividade muscular nas suas funções, o que significa que alimentos e bactérias não são removidos do órgão e, consequentemente, influenciam o sistema imunológico a não funcionar corretamente.

Os sintomas do SIBO são comuns a várias patologias do foro gastrointestinal e podem facilmente confundir-se com uma gastroenterite viral ou uma doença estomacal, doença celíaca, doença de Crohn, hipocloridria ou baixos níveis de ácido estomacal, gastroparesia, hipertensão portal ou síndrome do intestino irritável. Todas têm em comum os sintomas que afetam principalmente o intestino, como dor no estômago, especialmente depois de comer, inchaço, cólicas, diarreia, obstipação, indigestão, gases/flatulência ou sensação regular de plenitude, mas, também, pode levar a perder peso.

Existem algumas condições gastrointestinais que se destacam na sua influência, como:

Diarreia crónica
Um estudo recente avaliou o papel de SIBO em 87 pacientes consecutivos com diarreia crónica. Todos os pacientes foram submetidos a testes extensivos para excluir processos infeciosos estruturais, metabólicos, inflamatórios e agudos. Além disso, a doença celíaca e a doença inflamatória intestinal foram excluídas por testes laboratoriais e endoscópicos. Os autores relataram que SIBO estava presente em 33% dos pacientes com cultura do intestino delgado, em comparação com 0% em controlos saudáveis (1).

Doença celíaca
A doença celíaca de longa data pode perturbar a motilidade intestinal, levando à dismotilidade do intestino delgado (2). Um estudo com 15 pacientes celíacos com sintomas persistentes, apesar da adesão a uma dieta estrita sem glúten, descobriu que 66% tinham supercrescimento bacteriano no teste respiratório com lactulose (3). Todos esses pacientes notaram uma resolução nos sintomas após serem tratados para o SIBO.

 Doenças Metabólicas
A diabetes de longa data e mal controlada pode causar lesões no sistema nervoso entérico, causando distúrbios da motilidade gastrointestinal. Gastroparesia diabética e distúrbios neuropáticos da motilidade do intestino delgado estão ambos associados a SIBO. Um estudo recente descobriu que SIBO estava presente em 43% dos pacientes diabéticos com diarreia crónica, e 75% tiveram uma melhora significativa nos sintomas após serem tratados com antibióticos (3). Além disso, num grupo de 82 pacientes diabéticos, daqueles que tiveram má absorção de carboidratos num teste de tolerância oral à glicose, 75% foram diagnosticados com SIBO (4).

Síndrome do intestino irritável
Há um interesse significativo no possível papel da SIBO no desenvolvimento de SII. Muitos sintomas da SII são inespecíficos (inchaço, distensão, cólicas, desconforto abdominal) e podem mimetizar os sintomas de SIBO (5) existindo já muitas evidências científicas na sua relação.

Num estudo não controlado, de Pimentel e colegas descobriram que 78% de 202 pacientes que preenchiam os critérios de Roma I para SII tinham um teste respiratório de lactulose anormal sugestivo de SIBO (6). O estudo cego e randomizado descobriu que 84% dos pacientes que preencheram os critérios de Roma I para IBS tiveram um teste respiratório de lactulose anormal consistente com SIBO, em comparação com 20% de voluntários saudáveis, (7) enquanto outro grupo relatou uma taxa de prevalência de 65% em 98 pacientes consecutivos de IBS (8). Em contraste, outros grupos de pesquisa não conseguiram replicar essas descobertas interessantes. Em 85 pacientes consecutivos que atendiam aos critérios de Roma II para IBS, nenhum teve SIBO usando teste respiratório de glicose; Walters e Vanner relataram que apenas 10% dos seus pacientes com SII (critérios de Roma II) tinham SIBO usando o teste respiratório da lactulose (9).

Dados esses resultados amplamente discordantes, há um debate considerável na comunidade científica sobre a potencial relação entre o SII e o SIBO. Devido às condições fisiológicas, trânsito intestinal lento, motilidade desordenada ou anormalidades no MMC (complexo do motor migratório intestinal), todos podem ocorrer em pacientes com SII, e podem potencialmente ou predispor esses pacientes a SIBO (10).

Respostas terapêuticas ao SIBO 

O primeiro passo para tratar a SIBO consiste em controlar a quantidade de bactérias no intestino delgado e, dessa forma, é necessário utilizar um antibiótico que deverá ter o acompanhamento médico de um gastroenterologista.

É também boa opção a incorporação e apoio de um nutricionista na orientação de uma dieta pobre em FODMAPs, que são carboidratos de difícil digestão, fermentados por bactérias intestinais no cólon.


Dieta SIBO

A ingestão de certos alimentos tem uma influência direta e em alguns casos, eliminar apenas os açúcares pode aliviar os sintomas. Uma boa opção é a incorporação de uma dieta pobre em FODMAPs que são carboidratos de difícil digestão, fermentados por bactérias intestinais no cólon.

Quando os carboidratos não conseguem decompor-se, ficam no intestino e podem causar sintomas como diarreia e inchaço. Além disso, se houver um excessivo crescimento bacteriano, as bactérias do intestino delgado começam a fermentar os carboidratos muito cedo, causando os sintomas comuns ao SIBO.

A dieta de baixo FODMAP tem sido clinicamente comprovada para tratar a síndrome do intestino irritável (SII) e sintomas relacionados. É frequente, aqueles que sofrem de SII também sofrerem de SIBO. Eliminar ou reduzir alimentos ricos em carboidratos pode melhorar a saúde digestiva.

A dieta SIBO é uma dieta de eliminação gradual destinada a reduzir a inflamação no trato digestivo e o crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado. Deve, no entanto, ser temporária e recomenda-se que, após identificados os possíveis alimentos reativos, seja feita a reintrodução de alimentos retirados, de forma a que, gradualmente, consiga uma alimentação equilibrada e saudável.

Existe agora uma alternativa natural ao uso de antibióticos. O Nutracêutico Hawa SIBO, da 2M Pharma, que graças à sinergia dos princípios ativos e à interligação de todos os constituintes da fórmula, na qual se inclui plantas medicinais de ação complementar e elevada atividade antibacteriana, anti-inflamatória, antioxidante, imunomodeladora e carminativa, permite uma abordagem terapêutica abrangente, focada na origem do quadro sintomatológico, na remissão de sintomas e na normalização da motilidade intestinal, contribuindo para reduzir o crescimento bacteriano excessivo, eliminar as bactérias patogénicas, reparar os danos na parede intestinal e diminuir o quadro de dor e inflamação.

Tomar probióticos pode ajudar a retornar as bactérias do intestino ao normal. Num estudo de 2010 (11) descobriram que o tratamento com probióticos pode ser mais eficaz no tratamento de SIBO do que os antibióticos. No entanto, uma revisão (12) de 2016 descobriu que as evidências dos efeitos dos probióticos no tratamento de SIBO eram inconclusivas e que requerem mais estudos. No entanto, podem ser considerados uma alternativa terapêutica numa segunda linha, após a redução da população bacteriana existente em caso de SIBO.

Sofia Oliveira, Nutricionista CP 2300N


Referências Científicas:

  1. Andrew C. Dukowicz, MD, Brian E. Lacy, PhD, MD, and Gary M. Levine, MD. (2007). Small Intestinal Bacterial Overgrowth. Gastroenterol Hepatol (N Y). 2007 Feb; 3(2): 112–122. PMCID: PMC3099351. PMID: 21960820
  2. Antonio Tursi (2004). Gastrointestinal motility disturbances in celiac disease. J Clin Gastroenterol. 004 Sep;38(8):642-5. PMID: 15319644
  3. Martins, Carolina Piedade et al. Prevalência de supercrescimento bacteriano do intestino delgado em pacientes com sintomas intestinais funcionais. Arq. Gastroenterol. [online]. 2017, vol.54, n.2, pp.91-95.  Epub Feb 23, 2017. ISSN 1678-4219.  http://dx.doi.org/10.1590/s0004-2803.201700000-06.
  4. Reis, Jairo César dos, MORAIS, Mauro Batista de, & FAGUNDES-NETO, Ulysses. (1999). Teste do H2 no ar expirado na avaliação de absorção de lactose e sobrecrescimento bacteriano no intestino delgado de escolares. Arquivos de Gastroenterologia, 36(4), 169-176. https://dx.doi.org/10.1590/S0004-28031999000400003
  5. Brian E Lacy, Kirsten Weiser, Ryan De Lee. (2009). The treatment of irritable bowel syndrome. Therap Adv Gastroenterol. 2009 Jul;2(4):221-38.PMID:21180545
  6. MarkPimentelM.D.abEvelyn JChowB.A.abHenry CLinM.D.ab. (2000). Eradication of small intestinal bacterial overgrowth reduces symptoms of irritable bowel syndrome. The American Journal of Gastroenterology.Volume 95, Issue 12, December 2000, Pages 3503-3506
  7. Pimentel M, Chow EJ, Lin HC. Normalization of lactulose breath testing correlates with symptom improvement in irritable bowel syndrome. a double-blind, randomized, placebo-controlled study. Am J Gastroenterol. 2003 Feb;98(2):412-9. doi: 10.1111/j.1572-0241.2003.07234.x. PMID: 12591062.
  8. Nucera G, Gabrielli M, Lupascu A, Lauritano EC, Santoliquido A, Cremonini F, Cammarota G, Tondi P, Pola P, Gasbarrini G, Gasbarrini A. Abnormal breath tests to lactose, fructose and sorbitol in irritable bowel syndrome may be explained by small intestinal bacterial overgrowth. Aliment Pharmacol Ther. 2005 Jun 1;21(11):1391-5. doi: 10.1111/j.1365-2036.2005.02493.x. PMID: 15932370.
  9. Walters B, Vanner SJ. Detection of bacterial overgrowth in IBS using the lactulose H2 breath test: Comparison with the 14C-d-xylose and healthy controls. Am J Gastroenterol. 2005:1566–1570.
  10. Pimentel M, Sofler EE, Chow EJ, et al. Lower frequency of MMC is found in IBS subjects with abnormal lactulose breath test, suggesting bacterial overgrowth. Dig Dis Sci. 2002;47:2639–2643.
  11. Soifer LO, Peralta D, Dima G, Besasso H. Eficacia comparativa de un probiótico vs un antibiótico en la respuesta clínica de pacientes con sobrecrecimiento bacteriano del intestino y distensión abdominal crónica funcional: un estudio piloto [Comparative clinical efficacy of a probiotic vs. an antibiotic in the treatment of patients with intestinal bacterial overgrowth and chronic abdominal functional distension: a pilot study]. Acta Gastroenterol Latinoam. 2010 Dec;40(4):323-7. Spanish. PMID: 21381407.
  12. Edward J. Krajicek, MD, and Stephanie L. Hansel, MD, MS. (2016). Small Intestinal Bacterial Overgrowth: A Primary Care Review. Mayo Clin Proc. n December 2016;91(12):1828-1833 n http://dx.doi.org/10.1016/j.mayocp.2016.07.025
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